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és maníaca das limpezas, MJ?

por M.J., em 26.09.16

não.

alérgica a porcaria. muito. (se soubessem como o meu nariz reage ao mínimo contacto com ácaros percebiam que o batatinha não tinha hipóteses ao meu lado).

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seja no plágio de ideias, de palavras juntas, de imagens, de correria a certas marcas, de layouts (este então mata-me! é que meus senhores, com tanto padrão é preciso escolher mesmo um igual?) que só me apraz dizer o seguinte:

copiem pilas! muitas pilas saltitantes a fazer a delícia de homens e mulheres.

 

seria tão mais divertido!

 

(e se instituíssemos o dia da pila para sanar a copiação?)

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domingos santos de guarda

por M.J., em 26.09.16

o sino tocava para a missa das onze. antes disso a mamã já me enfiara no banho, esfregara o cabelo e obrigara a que vestisse a roupa dos domingos: dias santos de guarda eram iguais a farpela nova.

na catequese enervava-me o catecismo e as coisas que, já na altura, não me faziam sentido: quem não reza vai para o inferno. quem não pede perdão vai para o inferno. quem diz asneiras vai para o inferno. dizia-se que o padre tinha amantes (- o que são amantes mamã? - cala-te rapariga, raça da miúda que só sabe dizer asneiras) e filhos de fora. custava-me tanto entender o conceito de filhos de fora como de inferno:

- o que o inferno avó? - para onde vão os maus. - quem são os maus? - os que fazem pecados. - o que são pecados?  - perguntar coisas sem parar.

era isto.

na missa ficava no primeiro banco e contava as tábuas do chão, do tecto e os bancos que via, em olhares de soslaio para trás. contava as bolas dos terços da virgem maria e as flores que enfeitavam o altar. contava as espigas desenhadas na batina do padre e as vezes que o sacristão punha os dedos no nariz. contava porque contar dimensionava o tempo ainda que não o soubesse e fosse só instintivo.

então rapariga? que disse hoje o padre? o avô a olhar o frango do forno, com arroz de crosta e batatas pequenas.

não sabia. nunca ouvia, numa incapacidade de escutar. 

a minha parte favorita era a comunhão. sentava-me direita (quem não comunga pode-se sentar, os avisos do padre antes da primeira comunhão) e contava uma a uma as pessoas que se dirigiam na procura do corpo de cristo, separando velhos e novos, homens e mulheres, feios e bonitos. 

comungar era um outro conceito que não entendia: quem tem pecados não comunga que é pecado mortal, aviso sério e contrito do padre que tinha amantes e filhos de fora. eu sabia dos meus pecados e respeitava o aviso, num medo de chamas e sofrimentos eternos: não rezava todas as noites, mentia à mamã sobre os livros (- estás a fazer os trabalhos? - estou! os livros de bd escondidos nos meios das capas) e uma vez até fugira de casa da avô para não ir fazer medeiros de palha num dia muito quente de verão, pecado para sempre mortal na boca do padre. ora se eu tinha tantos pecados e nem fizera dez anos, como aquela gente velha podia comungar? e como um padre com amantes, fosse lá isso o que fosse mas que apregoava coisa má, podia dar a comunhão? não tinha medo ele do satanás? ou a ligação com deus dava-lhe a possibilidade de pecar, de vez em quando, sem fazer mal? como quando eu partira a taça da mamã e tentara colá-la, cortando metade dos dedos, e quando ela deu conta em vez de berrar me desculpara perante o meu choro?

às vezes o coro desafinava mais do que o normal, alguém se enganava ou o orgão calava-se deixando só a voz de uma velha beata, no louvor ao senhor. era o ponto alto da cerimónia. pensava que se fosse eu morreria de vergonha, como a lena que na festa de natal para pais e colegas se esquecera das quadras todas, desatando num coro longo que a fizera vermelha e feia.

 

nas tardes de domingo, depois da missa, em dias de outono a mamã fazia marmelada que depositava na janela em taças de porcelana, coberta com papel vegetal. o silêncio da tarde morria nas esquinas e nos campos em redor. o sol muito fraco batia nos beirais e eu fugia para casa da vizinha, brincar aos baloiços e comendo pão de milho, assado no forno a lenha, broas que serviam para a semana na alimentação da família:

- tu comes trigo? a mãe diz que é caro!

a avó, na visita diária, fazia pão de ló, muito fofo, muito grande, amarelinho de gemas de galinhas que viviam no fundo do quintal, ao lado do limoeiro, da ameixoeira e da laranjeira. chamam-lhe galinhas felizes agora mas antes eram apenas galinhas. às vezes víamos televisão, de que não recordo nada, a não ser um filme a preto e branco, numa tarde de inverno, que a avó viu e chorou porque já lera e chorara com o livro: amor de perdição.

- posso ler avó? - não que ainda não é para a tua idade. 

os domingos eram dias santos de guarda.

 

rezei uma vida inteira, naqueles dez anos que se transformaram em vinte, pelos carros da cidade, os bolos das pastelarias finas, os galões servidos em copos e taças brilhantes.

pensava na agitação das pessoas em bandos, na animação de uma vida que não para e não morre aos poucos, esquecida ao pôr do sol, na mansidão das folhas a cair no outono.

e depois, num objectivo concretizado de cidade, refugio-me nos arredores e transformo-me aos poucos num tempo em que os domingos eram dias santos, havia roupa de guarda, marmelada nos parapeitos e fins de tarde mansos, a desfalecer ao sol.

e até tenho saudades de ir aquela missa contar as flores do altar, ouvir o coro desafinado e temer o padre das amantes. 

- o que são amantes mamã? - cala-te rapariga, raça da miuda que só sabe dizer asneiras.

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oh vai ver ali:

aconteceu a um amigo

por M.J., em 24.09.16

uma pessoa está mesmo aflitinha, mesmo à rasquinha, mesmo a morrer de vontadinha de ir ao wc, fechada dentro do carro, a caminho de casa. imagina cascatas flutuantes, mares em ondas revoltas e sente que a bexiga vai dar de si. carros de um lado, carros do outro, de repente empanca-se.

afinal uma pessoa, ou 'ssoa, ou psoa, ou o que as modas ditam percebe que aquilo não anda pois que, na inevitabilidade da cousa (a partir de agora vou escrever cousa. se 'ssoas pega em moda, cousa tem muito mais que lhe diga) alguém teve "um desastre" (ai filhinha, o filho da ana da moita teve um desastre).

a coisa, perdão cousa, desenrola-se assim:

* primeiros cinco minutos: coitado, olha até está um carro de desencarceramento. terá morrido? que situação horrível. 

* dez minutos: uma pessoa nunca diga que bem está. olha eu que estava tão bem de bexiga vazia... 

* quinze minutos: estou mesmo à rasquinha. demorarão muito a resolver?

* vinte minutos: ai oh pá, se não se despacham vou rebentar. estará alguém morto?

* vinte e cinco minutos: morreu. só pode ter morrido. e a minha bexiga também.

* meia hora: foda-se! não podia arranjar outro sítio e hora para bater a bota?

 

quão péssima pessoa é este meu amigo

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Ou o depósito das famílias com filhos, numa educação de rua: "já te disse que não. Anda. Tira o dedo do nariz. Pousa isso. Não vou comprar essa porcaria. Estas aqui estas a apanhar. Mas tu comeste em casa do teu pai? Pede à tua avó que agora não posso*.

e aquele tempo em que os humanos ainda não desenvolvidos ficavam em casa a ver a Ana Malhoa? Agora os sábados de manhã não são para bonecada mas educação em Centro comercial?

(*ouvi todas estas frases de pessoas diferentes e não são inventadas).

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na saúde e na doença,

por M.J., em 23.09.16

disse o padre.

 

e nos três filmes em enxurrada do "star treck" também.

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comé?

por M.J., em 23.09.16

casas-te com ele/ela, casas-te com a família dele/dela.

 

é mêmo?

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oh vai ver ali:

um minuto de silêncio

por M.J., em 23.09.16

por todos os "pe" que sairam dos "ssoas" por essa blogosfera fora.

 

sou só eu que quando leio "ssoas" associo imediatamente a narizes ranhosos, com gosma verde a escorrer até aos lábios?

provavelmente é um problema meu, a lembrar de ranho mais vezes do que o necessário. como diz a outra "o racismo está no coração de quem o vê" mesmo que chame "preto de merda". 

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(noi)telegrama

por M.J., em 22.09.16

videos idiotas no youtube depois de arrumar a cozinha. chá quente na varanda ao anoitecer. radiohead. falei com a tânia e combinamos café para sábado. ligeiros ciumes de acontecimentos idiotas no facebook. não há nada mais parvo do que sentir algo por fotos escolhidas a dedo. resolução de uma situação que se arrastava e que era tóxica.

cansaço.

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oh vai ver ali:

publicado às 23:48

banalidades

por M.J., em 22.09.16

bebi o primeiro chá da época ainda era verão. o dia esteve cinzentão e as sardinheiras deixaram cair as flores, num nevão rosa, que se estendeu no chão da varanda.

deixei-me inundar, no som do nada que vinha da rua, por uma sensação obtusa de vazio. depois de almoço, tarde e a más horas na folga semanal, fiquei na varanda, olhos pedinchões de dor, a olhar em frente. aos meus pés um rio colorido de flores secas, caídas ao cinzento do dia. nos cedros uma rola subia e descia, pequenos galhos no bico, numa casa em construção.

não sei que sorte é a minha que me dá mãos estendidas mesmo quando só as quero cortar.

o som das rolas corria no ar, quebrava fronteiras, comia as flores mortas na varanda. sentei-me na cadeira pensando na certeza do nada que tenho e sou.

haviam e-mails e mãos estendidas.

pus água na cafeiteira, em cima do fogão, e vi ferver. as pequenas bolhas confundiam-se com pensamentos de nada, em fumo de vapor de água pela cozinha.

na rua a rola fazia uma casa. 

escolhi uma das chávenas mais grossas, de um azulado feio e verti-lhe água a ferver. não havia sol. ou som da rua. um dos saquinhos de infusão, oferecido por alguém no livro secreto, foi mergulhado lentamente deixando espalhar um cheiro a casa.

em frente à varanda, num cedros mortos, um pássaro construia uma casa.

o meu chá lembrou-me que estava na minha.

 

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publicado às 12:40



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