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és mesmo burro

por M.J., em 21.08.17

fui à praia na semana passada.

tinha pouca gente, estranhamente, e não estava o calor infernal dos últimos dias. 

 

na minha frente, depois de almoço, surgiu uma família de três: pai, mãe e filho.

o miúdo, muito branco, uns sete ou oito anos, trazia uma mochila às costas com brinquedos de plástico que, mal abancou no poiso escolhido, espalhou pela areia com mestria.

logo depois, o pai e a mãe atarefaram-se, meios vestidos, na montagem do estandarte que uma ida à praia exige:

corta ventos, guarda sol, toalhas, lancheiras, chapéus, roupas, uma espécie de mini casa preparada para uma tarde, protector solar a um canto, bronzeador noutro e os brinquedos da criança espalhados como pequenitos tesouros de plástico.

 

ninguém deu muita importância ao miúdo, agachado a um canto a mexer na areia.

eu retornei a atenção para o livro e nos minutos seguintes a tranquilidade do cenário familiar à minha frente foi dispersada pelas letras do capítulo onde ia.

 

pouco tempo depois o escândalo:

 a mulher, gorducha e pujante gritou ao miúdo:

que estás tu a fazer?

eu olho novamente em frente, despertada pela gritaria e curiosidade mórbida:

o cenário não tinha mortos nem feridos mas apenas uma criança com uma t-shirt molhada à altura da barriga assim como os calções de praia e as pernas. 

uma criança molhada na praia, pensei, não podia ser o motivo para aquele espectáculo pelo que, deduzi, o escabeche histérico da senhora era talvez motivado por uma ida à água do miúdo às escondidas da boa vigilância parental.

não.

 

a mãe grita para o catraio, novamente:

tu fizeste xixi aqui?

e o miúdo, envergonhado, outros miúdos à volta a começar de olhar, a voz forte da mulher na entoação das duas da tarde:

eu não acredito que tu mijaste aqui, vestido!

e a voz da criança em resposta que não se ouvia. 

e o pai, metido ao barulho, tão gorducho como a mãe, tão pujante como a mãe, mamas de um e outro a competir (se lá fosse para o meio passávamos todos por família):

mas eu disse-te isso ontem porque estávamos dentro de água! onde é que já se viu mijar fora de água? de calções e tudo? então não vês que mijaste a camisola toda?

e o miúdo a olhar para as pernas e os calções de algodão minúsculos e a t-shirt a perceber o erro que lhe era gritado.

e a mãe, abanando a cabeça em descrença:

és tão burro!

e o pai, em concordância:

és mesmo burro!

 

desviei a atenção para o livro enojada.

não com o mijo, que fique bem claro, que é melhor ele mijar ali do que dentro de água ao meu ladinho, enquanto ambos partilhamos um pirulito salgado, de água nas trombas. enjoada por outra coisa, mais profunda:

se aquele miúdo tiver a sensibilidade que eu tinha na idade dele, acreditará durante anos que é, efectivamente, burro.

mas mesmo muito, muito, muito burro.

 

as palavras são armas de arremesso.

mais fortes do que lambadas, castigos, bofetões, beijinhos e presentes. 

e em pleno século XXI, com dezenas de blogues sobre o assunto, psicólogos, revistas, informações, pais a jurar que não há nada mais importante do que filhos, mães a jurar que dariam cinco braços e duas mamas pelos filhos, casais e dizer que sem filhos seriam incompletos no amor, ainda há pais que não sabem a capacidade de ferir de uma palavra. da capacidade de uma palavra produzir cicatrizes traumáticas para todo o sempre.

é que são mesmo burros, caramba!

 

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pai

por M.J., em 17.08.17

uma amiga de infância contou-me uma vez, num café casual de fim de semana, um episódio que me marcou pela simplicidade e uma certa dimensão de amor que nem sempre entendo.

a história é rápida e conta-se de um trago:

 

depois de acabar a licenciatura demorou cerca de um ano a encontrar trabalho. 

um ano em que voltou a casa dos pais, fez e refez currículos, enviou, procurou, fuçou, desesperou, desistiu e voltou a tentar.

um ano em casa, no quarto de infância, com os quadros de outrora nas paredes e duas bonecas de porcelana em cima de um móvel, a lembrar-lhe que devia ter prosseguido quando, afinal estava de regresso ao passo atrás.

 

no meio desse ano infernal, que a pôs à prova, o pai foi um dia encontrá-la a chorar, copiosamente, agarrada ao computador.

o motivo era evidente, numa costumada recusa a um currículo enviado, muito cordial mas muito negativa. e essa recusa, uma outra igual a tantas, tinha nela aberto uma torrente de pranto, na quebra da apatia e do tédio de uma vida em suspenso, que a fez desafabar que não conseguia mais. que se sentia presa às circunstâncias. que não dava para prosseguir. que estava manietada. que as paredes se abatiam sobre ela. que sentia, sabia disso, que não aguentaria mais um dia que fosse olhar as cores daquela casa, a impedi-la de respirar.

 

no dia a seguir o pai pintou toda a casa.

pintou divisão a divisão, cor por cor, na mudança de uma coisa só, que fosse, para serenar o sofrimento. 

e foi aquela demonstração de amor, de atenção, de consideração pelo sofrimento dela espelhado numa coisita, que a fez levantar a cabeça com mais afinco e fuçar ainda mais até encontrar. 

 

hoje - tantos anos depois - tem um óptimo emprego numa cidade distante e à sua espera uma casa pronta a mudar-se para a receber, sempre que for preciso.

e um pai.

com toda a total dimensão dessa palavra.

 

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banalidades

por M.J., em 16.08.17

às vezes percebo que não consigo chorar.

é raro mas acontece. há um aperto apertado apertadíssimo no peito, na garganta, nos olhos, nos dedos enquanto extensão de sentimentos, e não consigo chorar. seca de lágrimas. repleta de sentimentos corrosivos, que queimam num constante loop, numa constante ebulição.

queimo sem queimar. 

o mal de não conseguir chorar é que sem o pranto impulsivo de cinco ou dez minutos não há, inevitavelmente, a bonança após a tempestade e a sensação de perda de norte intensifica-se durante muito tempo.

sei que a maioria das pessoas não sobrevive desta forma, numa constante procura de qualquer coisa, numa constante insatisfação, num constante desconhecimento, numa constante incerteza, numa constante incapacidade de ser. a maioria das pessoas vive. arranja uma série de refúgios, subterfúgios, coisitas que permitem a continuação de cada amanhecer.

eu não consigo e galgo as horas como um rafeiro perdido e carracento, que morde quem lhe dá comida e abana o rabo à ideia de algo que parece brilhar mas é pechebeque em vez de ouro. galgo as horas como uma espécie de abutre na espera dos restos que me possam acalentar os minutos. 

a minha constante insatisfação diária é legendária e demonstra o ponto em que me encontro, o que sou e o que tenho. e em minutos em que não consigo chorar o meu azedume gritante berra em prantos que chega de ser. 

estou tão cansada. 

 

e quem não está? repete-me o reflexo ao espelho. 

quem não está?

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oh vai ver ali:

mas em mau.

 

para cada cinco minutos de euforia histérica por vitórias no campeonato não sei do quê, festivais, papas, geringonças funcionais e défices que, alegadamente, diminuem, morre um cidadão em território nacional numa desgraça anunciada:

  • incêndios;
  • árvores caídas (se os incêndios fossem mais funcionais a árvore não teria caído) e,
  • aeronaves em desvio. 

alguém aposta na próxima ou já chega?

 

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Estou de férias

por M.J., em 15.08.17

Vou passando por aqui, pelo instagram e coiso. Não fujo, prometo e tarda nada estou de volta.

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antes tarde e a más horas

por M.J., em 11.08.17

para aderir ao follow, que nunca:

 

com ele.

 

depois digam-me qualquer coisinha, sim?

vale a pena. 

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publicado às 13:38

anel de curso - a continuação

por M.J., em 11.08.17

de vez em quando há uma enchente de pessoas que aqui aparecem à conta do facebook. 

a maior e mais torrencial, ao jeito de uma chuva de inverno, foi aquando do post do fit com um bando de meninas esfomeadas a chamar-me nomes e ameaçar-me com coxas de frango frito e batatas em pacote.

foi incomodativo porque pensei que me fariam uma espera - eram bem claras no grupo do facebook onde a coisa tinha sido partilhada - e durante uns dias olhei de soslaio por cima do ombro não fosse ser interpelada por alguma que me passasse uma rasteira com o osso - literal - da canela.

passou e com a ajuda da minha pequenita seita, a coisa até se tornou divertida.

 

ontem foi um post sobre anéis de curso. 

depreendo (são só deduções, não sei com certezas) a lógica do rasto:

alguém fez pesquisa no google sobre essas maravilhas, encontrou o texto, revoltou-se e partilhou num grupo de facebook.

foi muita visita numa quinta em que mal escrevi e as estatísticas não deixam margem para dúvidas.

 

fui ler o texto, na certeza que ofendi alguém, muito intensamente.

não tem nada de mal.

em boa verdade, continuo a achar que usar um símbolo no dedo, de que se estudou, é de um pretensiosismo atroz.

se o pessoal usasse o conhecimento - o verdadeiro - apreendido em cultura e crescimento individual ia perceber que esse mesmo conhecimento transformado em símbolo, para o qual pagou propinas, era bem mais importante do que uma espécie de acessório identificativo do "eu fui, eu sou, verguem-se".

mesmo assim, não me interpretem mal, estou-me muito a borrifar para o facto de a senhora que me amanha o peixe ou o meu ginecologista (que não amanha nada mas enfim, também usa as mãos) terem ambos anéis de curso.

é uma opção de cada um:

tal como usar um vestido branco de noiva, quando a virgindade foi há tanto tempo que há gente que nem se lembra; não comer carne na quaresma mas enjorcar camarão, ou achar que uma licenciatura é sinónimo de uma doutorice importante.

são opções.

 

seja como for, deixo o texto (com ligeiras alterações de forma) e poupo-vos a maçada de andarem à cata.

que, vistas bem as coisas, foram só visitas.

não houve ameaças de me enfiarem com nenhum anel pela goela abaixo, assaltarem o carro numa noite escura ou fazerem-me duas rasteiras no supermercado. 

seja como for...

 

 

 

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casa

por M.J., em 10.08.17

as minhas incursões nocturnas pela casa costumam ser mais frequentes quanto mais tarde me deito.

normal.

agora que estou de férias - uma semana antes do rapaz - tenho praticamente os ciclos de sono trocados.

nunca fui uma pessoa amplamente matinal mas, levantar-me às onze ou ao meio dia - como ontem - é invulgar e não me põe bem disposta.

pelo contrário.

 

esta noite fiquei a ler até bem depois das duas.

há um lugar no sofá especialmente destinado para as minhas leituras, uma lista de música destinada ao efeito, uma caneca de chá na mesinha de apoio e um candeeiro que amortece o ambiente, numa espécie de cenário de igreja. 

gosto.

na rua o vento batia nas janelas, na cadeira da varanda, na roupa na corda, nas plantas nos vasos. as árvores moviam-se na velocidade de uma pequena corrida de cinquenta metros e ouvi voar qualquer coisa. 

às três da manhã fui à varanda:

uma lua gigantesca no céu e um ar frio.

uma ventania ao género de temporal sem chuva.

um silêncio arrebatador com dois ou três grilos e o som do vento nas árvores, nas casas, nas ruas e no meu cabelo.

a vista sobre a cidade era minha e sobre a lua também.

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pela primeira vez, vai fazer dois anos, numa quinta feira às três da manhã, descalça numa varanda a tremer de frio, um vento a lembrar-me a serra e o mar, o silêncio que percorria a vida, senti-me em casa.

estou finalmente em casa. 

 

na cama o corpo dele quente descansava.

encostou-se a mim, quando me deitei, o vento a brincar nas paredes, o som de um temporal sem chuva na rua.

e apercebi-me então que já estava em casa antes de saber que estava. 

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"foi uma noite de lagar de azeite?"

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tenho a certeza que o meu vizinho anda a trair a namorada/esposa/unida ou seja o que for.

 

juro que não é uma informação que quisesse ter:

não fiquei especada na janela à espera de ver pseudo amantes a entrar no prédio;

não comprei binóculos que brilham no escuro (queria dizer ver no escuro, mas brilham fica mais bonito);

não contratei um detective privado para obter essa informação (o único detetive que tenho tido contacto é com cormoran strike). na verdade:

ela chegou-me, na madrugada de segunda para terça, enquanto eu combatia uma insónia vendo um documentário sobre anne frank.

 

sim, bem sei.

combater uma insónia com um documentário sobre anne frank é a mesma coisa que combater um incêndio atirando-lhe gasóleo mas, em minha defesa:

  • estava a fazer zapping à procura de uma coisa levezinha que me desse sono;
  • já estava a mudar de canal há meia hora;
  • o meu aborrecimento com a ausência de sono era tão grande que só queria algo que me distraísse. 

 

portanto, retomando o tema, estava eu deitada no sofá, a janela da sala (que também é porta - todas as janelas desta casa são portas para varandas) totalmente aberta, uma lua enorme a entrar-me casa dentro, um aborrecimento intenso, um cenário horrível na tv quando ouço, sem estar minimamente à espera, gemidos pornográficos vindos do apartamento do lado. 

em altos berros. 

em defesa do vizinho - que isto quando se defende, defende-se tudo - posso adiantar que:

  • não há barulho no sítio onde moro depois da meia noite. é uma espécie de regresso à aldeia em que a hora de dormir é assinalada pelos senhores do lixo e a madrugada por um cão rouco ou dois grilos em desgarrada;
  • o silêncio aumentava o barulho dos gemidos.
  • este apartamento esteve vazio por mais de uma década pelo que os habitantes do prédio ainda se esquecem que é possível haver gente aqui.
  • não é suposto, às três da manhã, alguém estar a ver um documentário acerca do holocausto.

 

e por falar em holocausto, posso dizer que foi a conjugação de factores "morte" + "gemidos altamente pornográficos" que me enojou.

sobretudo porque - a promiscuidade dos apartamentos é incrível, conhecemos até as rotinas de pessoas que mal falamos - eu sabia que a moça que era suposto estar a fazer tais barulhos, no sagrado matrimónio ou união de facto não estava em casa.

e porque, quando fui fechar as janelas meia hora depois, enojada com a vida, vi uma outra moça sair furtivamente do prédio, depois da porta do apartamento do lado se fechar.

 

é isto.

numa singela segunda feira à noite, a informação de que o meu vizinho trai a namorada/esposa/unida ou seja o que for, surgiu-me através das paredes da sala, enquanto eu tentava não chorar com o horror de um documentário triste.

em gemidos, repito, pornográficos.

caramba, que se toda a gente no prédio gemesse assim, isto era caso da cmtv.

 

escusado será dizer que não acabei o documentário e deitei-me enojada, na sensação de que enfim:

  • a minha vizinha que me deu salsa sem eu pedir, apenas para ser simpática,
  • falou comigo sobre os gatos vadios, e
  • me cumprimenta sempre com um sorriso e um aceno - mesmo quando as minhas trombas chegam ao chão - não era mais vizinha e o namorado estava na recuperação de uma separação.

 

só que não.

ontem, quando eu chegava de tomar um café, encontrei-a nas escadas.

morena, de quem vinha da praia, o cão ao ombro e um sorriso feliz. 

 

bonito, não é?

é que se antes era obrigada a passar por eles depois de ouvir gritos e discussões, o "põe-te daqui para fora", os nomes, as cenas feias, sou agora obrigada a olhá-la também, sabendo que enquanto não está em casa, o namorado/unido/marido ou seja o que for, provoca gemidos pornográficos em mulheres furtivas a meio da noite.

numa espécie de mónica sintra mamalhuda a cantar na minha cama com ela. 

 

deus! 

o que pode levar alguém a trair outro alguém com quem firmou um compromisso, na mesma casa onde vive, na véspera de estar com esse alguém?

o que faz procurar outro corpo, outro cheiro, outro envolvimento e no dia a seguir comportar-se como se nada fosse, ainda bem que estás de volta, senti saudades tuas?

 

não é a traição em si que me enoja (confesso que os gemidos sim, mas talvez fosse pelo documentário) mas a deslealdade absoluta.

o corromper de uma casa, de um lar, de um lugar onde se decide partilhar a vida com uma outra pessoa.

o desrespeito.

o absoluto desrespeito.

 

e claro, o impor-me essa informação obrigando-me a fingir que nada sei - porque não é nada comigo - quando a moça me diz olá, fala sobre banalidades e segue pela vida.

oh senhores!

já não me bastavam os meus próprios dramas?

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