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ninguém me quer

por M.J., em 22.09.17

e não sei o que fazer quanto a isso!

 

mudei para coimbra fez dois anos no início deste mês.

mudei oficialmente de residência no cartão de cidadão. não posso votar na minha terrinha, o que me entristece e, para os devidos efeitos é aqui que moro.

para todos os efeitos: legais, financeiros e até publicitários que nunca uma caixa de correio, em nenhuma outra cidade teve tanto lixo como esta. vivo aqui para todos.

excepto para o SNS (que é como quem diz o sistema nacional de saúde).

para esse não. para esse ainda estou na aldeia e não devo sair de lá porque aqui, nesta cidade dos grandes, já têm muita sarna com que se coçar.

é isto.

 

preciso de um médico de família.

preciso mesmo.

e é obtuso ter de fazer duas centenas de quilómetros para ir a uma consulta de quinze minutos pedir certidões para análise, visto que a minha médica de família é na terra dos papás e nesta cidade nenhum centro de saúde me aceita.

leram bem: nenhum me aceita.

é obtuso pagar 100 euros por uma consulta no ginecologista, mais 30 por uma ecografia e mais 40 pela análise de uma citologia. ou 70 por análises ao sangue. sim, 70 euros era quanto tinha de pagar se não tivesse as credenciais que só a minha médica de família pode passar. é ridículo. não se pode dizer que passe por graves dificuldades económicas mas isto meus senhores, isto é esbanjar.

e eu sou absolutamente contra o esbanjamento. 

 

mudei de morada oficialmente porque foi essa a informação que me deram no centro de saúde da minha área de residência. era isso que precisava para poder mudar de médico de família. e quando, muito orgulhosa de comprovativo de morada na mão, fui para mudar disseram-me, com uma lata que só visto, um arzinho de "és mesmo atrasada rapariga" que a fila de espera para médico de família era de anos. anos. no plural. e que não havia nenhuma alternativa a não ser ir a outro centro de saúde. e fui. e nenhum me aceita porque, pasmem-se, tem de ser este, da minha área de residência, a dar-me uma resposta.

 

ninguém me quer, está visto. 

preciso de fazer duas centenas de quilómetros para uma consulta básica de rotina.

porque nesta cidade, de doutores, de sonho, de fado, de estudantes e de gente que caminha com o nariz tão em pé que poderia cair num buraco sem perceber, não me aceitam.

e eu não conheço o tio da avó da prima do cunhado do melhor amigo do director do médico ou da administrativa que me dê uma resposta a sério e não me olhe como se eu fosse atrasada mental a pedir cem mil euros ao cristiano ronaldo para comprar uma máquina de lavar louça.

é isto.

ninguém me quer.

 

que consumição. 

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banalidades

por M.J., em 22.09.17

acordei cedo com o barulho de um camião mesmo na ruela em frente à casa.

orgulho-me de - no meio desta cidade onde não me encaixo - ter encontrado um apartamento num sítio onde reina a pacatez dos dias longos de aldeia, com o barulho das rolas no telhado, os cedros erguidos em frente e o latir dos cães na desconfiança de quem chega.

no entanto, andam agora a construir uma casa numa das ruelas adjacentes e, de vez em quando, somos presenteados com o barulho dos camiões, pedaços de terra amarelada caídos do transporte e um cima abaixo de carros, na novidade do que se passa.

 

desci para ir tirar o meu carro do sítio onde estava estacionado.

o homem do camião transpirava de nervoso e não conseguia passar, por mais manobras que fizesse, devido ao meu carro, apesar de nenhum de nós estar a cometer uma contra-ordenação. fui boa samaritana e mudei-o de lugar, vestida com um robe esquisito que comprei na primark para os dias frios, o cabelo esgrouviado e incontrolável todas as manhãs, e o pequeno almoço ainda por tomar.

agradeceram-me muito mas já estava acordada com o barulho infernal do motor em manobras.

 

perdi depois uma hora não sei em quê.

estava cinzento de breu. mantive-me com o robe vestido apesar de, na opinião do rapaz, me fazer parecer um rebuçado gigante tal a cor. não está frio para o manter vestido mas faz-me lembrar chás quentes, chuva miudinha, castanhas assadas e dióspiros.

é outono e no cinzento do amanhecer estava em paz.

tomei o pequeno almoço, reguei uma planta e tentei desregar quando percebi que a água se acumulava toda no fundo, tendo em conta a quantidade de terra molhada. li as notícias e vi a meteorologia: torci o nariz perante o fim de semana quente e a ausência inevitável de névoa hoje pelo meio da manhã.

não tirei a roupa do estendal, não fiz a cama, não lavei a louça do pequeno almoço nem controlei as tarefas de trabalho do dia. 

 

uma hora depois, ainda estava cinzento, a empregada chegou.

trazia a animação da rua: voz rija, gestos desembaraçados, a agitação do autocarro, do saco na mão, da conversa matinal com a vizinha de baixo e a senhora da pastelaria onde vai todas as manhãs.

pousou um saco no bengaleiro, decidida, e soltou duas ou três gargalhadas perante duas ou três piadas que disse.

ofereci-lhe um café e,  encolhida e sentada com o meu robe estranho no sofá da sala, ouvia-a falar. ela cheirava a café, a desenrasque e a decisão por contraponto à minha molenguice matinal. contou-me as novidades da semana, muito desembaraçada e deu-me o ponto de situação da vida, no que a vida nos permite compartilhar. tristezas não pagam dívidas, diz decidida, mesmo que enumere as tristezas, e as dívidas, sem vergonha.

comparado com o silêncio de missa que reina nesta casa, há hoje uma animação enérgica de roupa a ser estendida e lavada, sons de louça, aspirador e a tv da cozinha, nas notícias que nunca vejo.

 

sentei-me com os phones nos ouvidos, na tentativa de anular os ruídos da vida.

o camião voltou com uma grua que tenta desesperadamente levar para outra rua.

ouço aurora, madrugada, agnes obel, birdy e anne brun.

há uma melancolia em cada som e fico quieta em frente ao pc sem saber muito bem o que fazer mesmo que tenha, muito alinhadinha, uma lista das coisas pendentes na agenda.

 

o sol surgiu agora.

tirei o robe.

ouço o tilintar de um copo na cozinha no intervalo de uma das músicas.

 

 

acho que vou tomar (outro) café. 

e nunca mais chove. 

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oh vai ver ali:

publicado às 10:20

detesto tourada.

a primeira vez que me lembro de ter chorado, com algo visto na televisão, foi em casa dos meus avós, num serão que por lá dormi, e o avô decidiu que a grande corrida de touros que passava na rtp1 era o programa adequado para a família. não sei quantos anos teria à data. só sei que nunca tinha visto uma coisa daquelas.

nós tínhamos uma vaca que nos dava leite todos os dias e puxava uma carroça de madeira transportando coisas (e a mim). a avó gostava da vaca. mesmo muito. tinha horas certas de refeições, falava com ela e estimava-a. eu também. por isso quando vi aquilo que me parecia uma vaca espetada, com o sangue a escorrer pelo dorso, desatei a chorar.

a tv foi apagada e o avô foi dormir, amuado, porque tinha uma neta fraca.

não te preocupes que depois o touro desforra-se, disse-me a avó, tentando apaziguar o pranto e acalmar a minha sensibilidade com os forcados a serem levados na cabeça do animal.

não resultou e nunca mais voltei a ver touradas a não ser, claro, em imagens soltas aqui e ali.

 

gosto muito de animais.

tenho uma posição definida quanto aos direitos deles e agrada-me pensar que não sou maluquinha por.

que assumo as suas funções e o seu local na sociedade. e acredito, até, que tratar um cão como uma criança é um desrespeito para o animal. vestir um pastor alemão ou um serra da estrela com uma capa do donald e chamá-lo de cutchi é um desrespeito para um cão com um determinado porte e imponência. 

mas enfim. 

adiante, que não é de cães que se trata.

 

dizia eu que assumo os direitos dos animais.

sou completamente contra crueldade por crueldade. uma vez discuti com um colega que disse, num jantar de amigos, ter-se divertido em criança a maltratar gatos e galinhas. discuti tão feio que nunca mais voltamos a falar. não foi o ato em si que me fez perder as estribeiras mas ele estar a contá-lo agora, numa noite de copos, com um sorriso rasgado de orgulho no rosto. chamei-lhe uns quantos nomes e ainda hoje, passados alguns anos, mantenho o número de telemóvel dele gravado como parvalhão

paciência.

 

não suporto crueldade só porque sim, apenas para divertimento.

não me choca a morte de um animal para alimentação. seja uma galinha aqui, seja um cão no outro lado do mundo. faz parte da cadeia alimentar e nem vou estar a esgrimir argumentos acerca de. mas chocam-me, de uma forma inigualável, as touradas. não entendo sequer as motivações! que prazer pode alguém sentir por ver a tortura de um pobre animal?

é que nem sequer há motivo cultural que o justifique:

a cultura tem de morrer perante a tortura e sermos civilizados é isso mesmo. 

 

pronto, posto isto, juro que também não entendo a glória daqueles que dizem, entre sorrisos, que foi bem feita a morte de um forcado.

juro que não.

gosto tanto deles como se pode gostar de um carrasco. mas não fico contente por morrerem. e muito menos teria o desplante de vir para as redes sociais atacar a família daqueles que morrem, numa espécie de vitória ridícula em que não ganha ninguém.

não faz sentido.

não faz.

 

apontar o dedo a uma pessoa que morre em função dos seus hobbies (mesmo que estes sejam deploráveis) é o mesmo que ficar contente por um piloto de alta velocidade morrer num despiste, um alpinista morrer numa escalada, um jogador de futebol morrer em campo. e se é certo que nestes três últimos não há tortura (pelo menos evidente) de outro ser, há o colocar da vida em risco para entretenimento do outro. a premissa é (quase) a mesma.

 

por outro lado, todos eles têm família. mesmo os forcados.

quantos de vós controlam o que os vossos filhos vão fazer no futuro? 

têm arrogância suficiente para achar que dominam de tal modo uma criança, adolescente, adulto que ele não vai fazer as suas próprias escolhas?

e se ele decidir ser forcado gostarão de ver foguetes pela sua morte? gostarão menos dele? então e aquela coisa do amor incondicional?

ah M.J, é uma questão de educação. os meus filhos foram educados para amar animais.

pode até ser. mas e os que não foram? têm um direito à vida menor? mesmo que sejam bons cidadãos, bons pais, bons filhos, bons profissionais, são tão más pessoas que devemos ficar felizes por morrerem?

temos tão pouco respeito pela vida humana, tão pouca empatia pela dor daqueles que perdem vidas, que não somos capazes de distinguir a diferença da morte de uma pessoa e de um animal?

chegamos a um ponto de colocar a balança na mesma posição quando se trata de direitos de uns e de outros? como é que aqui chegamos? como é que defendemos este exagero? deixamos de perceber,imbuídos de uma estranha cortina confusa, o verdadeiro valor da vida humana? e se sim, não é esse o princípio para as piores atrocidades? a ideia de que há vidas menos merecedoras do que outras não foi - e será sempre - a justificação para as maiores calamidades de morte do homem pelo homem?

como se pode defender a vida de um animal, colocando-o em primeira categoria, e ao mesmo tempo defender-se que a vida de um ser humano é menos valiosa?

 

detesto extremismos.

todos eles. de esquerda, de direita, de animais, de crianças, de adultos, de comida e do diabo a quatro.

as coisas não são brancas nem pretas mas têm sempre uma nebulosidade cinzenta.

a não ser, na maior parte das vezes, a vida humana.

a vida humana é preciosa.

tem um valor imenso.

ficarmos felizes quando uma se perde, numa tourada, faz de nós irracionais e desmerecedores dessa mesma vida.

desrespeitadores, sobretudo.

não nos torna mais compreensivos, não nos ajuda a mudar mentalidades e muito menos traz algum tipo de alegria aos animais torturados.

 

e esta ausência de meio termo, de conseguir ver para além dos sentimentos mais irracionais (vá lá, quando leio essas noticias - já não vejo tv - há sempre uma luzinha que se acende em mim e diz muito alto bem-feita!) de conseguir analisar para além da falta de empatia, é isso que nos traz onde estamos: à insensibilidade total pelo outro.

mesmo que juremos que não, que somos capazes de amar incondicionalmente e não há nada mais importante que a vida. 

 

não somos.

só achamos que sim, para não parecer mal.

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o que sinto hoje e o que sentia outrora, o que faço hoje e o que fiz antes, o que anseio da vida e o que ansiava, o que me faz feliz agora e fazia antes, concluo que não irei conhecer, jamais, a pessoa que habita em mim.

a banalidade que me constrói está repleta de abismos e nem sempre os percebo. 

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publicado às 16:45

banalidades

por M.J., em 20.09.17

gosto de amanheceres cinzentos.

lembra-me a manhã a ouvir o vento contar a história do gato malhado e da andorinha sinhá. lembra-me o começo do dia lento e molengão, os dedos nos olhos, a percepção da vida numa névoa ainda de sonho. 

não me sinto tão culpada pela minha pausa forçada no que diz respeito ao viver.

arrasto-me pela casa sem culpa. faço o pequeno almoço de portas abertas e olho as plantas na varanda. não há sol a fazer-me correr, a gritar para me despachar na turbulência, na pressão das próximas horas. 

 

há gente que escolheria o sol como companhia diária. aboliria a chuva e a névoa e faria dos dias correntes vivas de vitamina d, cores fortes e calor a bater na pele. 

eu tenho um dia ganho quando há um casaco sobre os ombros, horas que correm na névoa do cinzento, uma neblina que beija a pele e a sensação de pacatez na passagem de cada minuto.

abro até a janela do escritório, cerrada nos dias de sol, e visto um casaco enquanto começo.

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oh vai ver ali:

as palavras de ordem:

quem nunca as ouviu?

 

é incrível as vezes, na vida, que me instalo e aguardo, pagando (e bem) no fim, para receber algo que ou dói ou incomoda ou é desconfortável ou chato ou tudo ao mesmo tempo.

sento-me e aguardo na cadeira do dentista para ser picada, esburacada, estropiada na boca, os maxilares escancarados e coisas que parecem vir da idade média a perfurar, limar, tapar, limpar.

deito-me e aguardo na cadeira do ginecologista, desconfortável, encabulada, uma vontade de fuga para ser observada, analisada, tocada, praticamente violada na espera de que ao menos, esteja tudo bem no fim.

deito-me e aguardo na maca da esteticista para ser picada, meia queimada, um laser que "não dói nadinha" mas dói e faz incómodo nos dentes e "é só uma picadinha" e merda para isto tudo.

deito-me e aguardo na maca da clínica para fazer exame anual às mamas, na certeza de que enfim, aquilo não evoluiu e está bem e aguardo, que remédio, pelo gel e a máquina que aperta como quem aperta laranjas para fazer um excelente sumo para o pequeno almoço.

 

deito-me, sento-me, aguardo. 

e em todos os sítios onde me deito, sento e aguardo há cartazes, fotografias, imagens de gente feliz, numa espécie de resultado final, dentes brilhantes, ar sedoso, radiante, para me lembrar que enfim, depois de sentar, deitar e aguardar a vida será muito mais bonita.

e em todos os sítios há profissionais que tentem ser simpáticos, dar um ar de naturalidade à coisa, o dentista que insiste em conversar e esperar respostas que não posso fisicamente dar; o ginecologista que fala animadamente da vida olhando para um sítio bem mais abaixo do que a minha cara; a esteticista que tagarela sobre as dificuldades da mulher fingindo ignorar os meus pulinhos de dor e os poros dilatados nas minhas trombas; o técnico que esgravata com a maquineta as minhas mamas, olhando simpaticamente o ecrã à sua frente enquanto comenta que "oh, tantas mulheres que têm isto e não é nada de grave".

e em todos os sítios em que me deito, sento e aguardo conto, mentalmente, os segundos para cada pequenina tortura passar jurando a mim mesma que, nem que morra, não volto lá mais.

e volto sempre.

 

digam-me: no sentar, deitar, aguardar qual o pior que passam?

qual destes (ou outro) gostam menos?

(para não dizer odeiam?)

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acordei no domingo de manhã

por M.J., em 19.09.17

com o cão do vizinho a ladrar nas escadas e a música de um partido qualquer, numa carrinha que passava na rua.

 

tenho a certeza:

foi uma mensagem do Além para nunca votar no PAN.

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publicado às 09:22

disto dos comentários

por M.J., em 18.09.17

tive o hábito outrora de responder a todos os comentários.

uma questão de boa educação, pensava, na certeza do que o era.

depois, um dia, falei com alguém que me disse que não via assim.

e concordei:

o meu comentário é o post. grande, maior, mais pequeno ou minúsculo. fatela, piroso ou só banal. é todo ele um comentário. tem ideias, opiniões, pensamentos, emoções e às vezes confidências que não faço a mais ninguém. quando há uma resposta é bom. gosto. agradeço até. mas é uma resposta ao que eu escrevi inicialmente. e nem sempre há nada a responder de volta. ou às vezes há e passa. e nem sempre é necessária uma resposta à resposta. ou uma resposta à resposta da resposta. ou às vezes é e esqueço. 

 

mudei a maneira de ver este blog.

e lamento se isso incomodar quem aqui passa e comenta. mas acreditem que a minha ausência de resposta não é falta de consideração pela vossa resposta ao meu post. porque se assim fosse, havia uma desconsideração da vossa parte de todas as outras vezes que me leram e não comentaram. 

 

escrevo todos os dias. ou quase todos.e sempre ofereço um pouquito de mim. em troca não peço nada. se deixam um comentário há um acrescento ao que deixei para vós. e isso é um gesto bonito de quem recebe o que lê. mas a minha ausência de resposta à resposta não é desconsideração. 

 

seria melhor uma resposta à resposta sem qualquer conteúdo?

uma flor embonecada ou uma sinalética sem nada? só porque sim?

desculpem lá mas da minha parte (agora) não. 

 

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um casal de conhecidos contou-me o seguinte, há uns tempos, quando conversávamos acerca de coisas banais da vida:

um dia foram a uma loja de brinquedos com o objectivo de comprar uma qualquer parafernália de presente para a sua cria. já na caixa, depois da escolha feita, o avô da criança quis fazer uma surpresa e custear a coisa escolhida. pois o que é que acontece?

  • a mãe agradece muito e arruma o dinheiro?
  • a mãe recusa e pede ao avô que compre algo noutro dia?
  • fica contente por o avô querer dar um presente?

não.

tendo destinado já que aquele dinheiro era em prol da sua cria, voltou aos corredores coloridos numa azáfama sem par e veio de lá com outro brinquedo.

é que não fazia sentido, concluiu ela, usar aquele dinheiro para outra coisa que não o bem estar de quem pôs no mundo. e assim, todos alegres, foram para casa com o dobro das coisas compradas e o dobro do dinheiro gasto.

 

evidente que sorri e acenei. 

aprendi, nos últimos tempos - com os trinta no lombo e o mundo ao meu redor a procriar - a sorrir e a acenar a tudo o que esteja relacionado com as decisões filiais de cada um. não tenho legitimidade para opinar ou fazer má cara e, na verdade, nem sequer me apetece perder grande tempo a pensar na coisa. sorri e acenei, portanto.

até ontem.

convém esclarecer que na minha serenidade e crescimento pessoal de aceitação das parvoeiras do mundo - incluindo as minhas - não atingi ainda um estado mental de equilíbrio pelo que, às vezes, expludo em merdices sem lógica acabando por mandar o gandhi à merda e decidir que a meditação é boa para quem quiser lavar louça ao pé cochinho gastando o mínimo de água possível.

aconteceu ontem. 

 

explico:

fui convidada a ir a uma (mais do que uma) loja de coisas para bebés, mamãs e crianças que já não são bebés mas cuja idade continua a ser contada em meses (tem sessenta e dois meses e quatro dias). confesso que fui de pé atrás. uma pessoa cresce e muda e assim mas não se reconstrói qual fénix renascida em unicórnios e arco-íris na testa. assim, passar quarenta e cinco minutos da vida a acenar para carrinhos, biberons, roupinhas, chupetas e brinquedos é ainda coisa para me fazer mandar o crescimento às urtigas e praguejar muito mentalmente.

vá lá.

de certeza que há qualquer coisa com que vossas excelências embirram. tem de haver. eu embirro com carrinhos de mil euros, roupas para usar uma vez e brinquedos que são postos de lado ao primeiro olhar. mais. embirro com pais que, na sensação de se sentirem os melhores, os mais capazes, os que dão o que não tiveram, enchem a casa com tralha infinda para as crias, transformando salas, quartos, corredores e escritórios numa creche e dizendo que é para o bem dos filhos quando, em boa verdade, tenho grandes dúvidas que um puto precise mesmo de ter quarenta e dois brinquedos e ainda mais dois porque o dinheiro que a mãe guardou para o último tem de ser necessariamente usado nisso, mesmo que o avô lhe ofereça. 

pronto, desabafei. 

e foi por isso, meus senhores, que aguentei vinte minutos. vinte minutos porque gosto demais da grávida e do namorado. vinte minutos porque enfim, vinte minutos era o único tempo que eu estaria disposta a aceitar que alguém se sacrificasse por mim numa coisa que embirrasse. mas quando começaram a falar carrinhos de bebés, alcofas e berços como a coisa MAIS importante da terra, com a mesma importância que se dá a à compra de uma casa, pois que se me deu uma dor de estômago e fugi na desculpa da casa de banho.

 

não posso.

não consigo. não estou preparada para ser, de repente, só fraldas e ovos e discutir com toda a serenidade o preço de uma porcaria que não serve para nada como se fosse a descoberta de uma galáxia distante, cheia de vida que não ets feios. não me imagino, na minha sovinice, a abrir os cordões à bolsa e transformar dinheiro num conjunto alarvemente caro porque a segurança está acima de tudo, mesmo que o tudo seja um roubo descarado. não posso, não dá. e este não poder, este não conseguir, este enjoo constante perante sutiãs de amamentação; paredes repletas de fotografias de crianças em exposição e mamãs que pareciam ter atingido o nirvana; berços que podiam, muito bem, albergar uma barra de ouro tal o preço; toda esta minha incapacidade de ficar com os olhos redondos e fazer gesto cutchi e dizer "oh que fofo", "olha que giro", quando não me parece nada fofo nem giro, só idiota, pois tudo isto me dá a sensação de anormal.

sou anormal, pronto, está visto.

sou a anormal que não consegue ser igual aos outros. que tem um bloqueio. falta-me qualquer coisa, começo a concluir. tenho uma doença que me impede de ver a fofura. e é estúpido porque creio, daria uma boa mãe. seria altamente responsável. preocupada. daria atenção às coisas que acho certas: valores. detalhe. compreensão. presença. segurança. aboliria o medo da vida de uma criança. dar-lhe-ia toda a rotina e faria de tudo para que os dias fossem um cruzeiro de serenidade, com brisas suaves e cheiros de maresia, limão e bolos de maça canela. juro que sim. mas parece que nada disso vale. nada disso serve porque em todo o lado o que vejo e leio e percebo e sinto é que precisas de uma formatação qualquer. precisas de ser cutchi. precisas de dizer as mesmas coisas e ter as mesmas preocupações. precisas de aclamar ao mundo que darias a tua vida e que nunca amaste assim. precisas de só falar disso. precisas de só escrever sobre isso. precisas de só ser isso. precisas de ir a lojas de bebés e estar disposto a gastar o que tens e o que não tens porque, em caso contrário, não serves. precisas de comprar duas coisas em vez de uma porque, se destinaste aquele dinheiro para aquilo, não podes gastar noutra coisa sem te sentir culpado.

e é triste. 

caramba, que estou triste.

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banalidades

por M.J., em 15.09.17

por mais que me levante cedo não consigo ser pessoa antes de passar, no mínimo, uma hora desde que acordei.

é verdade.

não tenho fome, arrasto-me pela casa e todo o meu corpo grita que devia voltar para a cama, desde os olhos inchados como dois balões, os braços que me pesam, a cabeça que teima em tombar.

deixo, por isso, que passe algum tempo até conseguir raciocinar.

abro as janelas e olho a vida invariavelmente de sol nos últimos meses. rego as plantas da cozinha mesmo que elas gritem que estão inundadas de água. vejo a meteorologia numa aplicação do telemóvel que erra mais do que acerta. abro a agenda e percebo as coisitas mil que tenho de fazer. 

uma hora depois estou mais ou menos pronta para começar a ser. 

 

o problema é que a vida não se compadece com este meu atraso matinal.

às vezes há telefonemas ainda eu estou a coçar os olhos. atendo tentando manter uma voz clara enquanto conto os pássaros das árvores em frente. discuto questões importantes no meio de um café ou outro, muito quente que inunda a cozinha de um odor enérgico e enjooa as plantas, de pijama e chinelo no pé.

rogo pragas mentalmente ao forçar do meu acordar, tão lento, tão vagaroso. 

 

quando era miúda levantava-me antes das sete e apanhava o autocarro escolar para quase quarenta minutos de viagem entre a serra. em dias de geada acordava ainda antes de estar acordada e não havia a necessidade de me arrastar pelas divisões da casa como uma velha já morta. comia pão com manteiga e água castanha com cevada. e quando era mesmo miúda ia com a avó tirar leite à vaca que bebia, depois já em casa, por uma caneca de latão.

e não havia plantas enojadas com o cheiro da cafeína.

nem estudos a condenar a lactose.

só a vaca pinta e a avó a dar-me a melhor parte do leite. 

 

o problema minha cara, constato enquanto vejo sair os vizinhos, é que não adormecias às duas da manhã com a barriga cheia de porcarias da internet, vistas num telemóvel em frente aos olhos. ias para a cama às dez, depois de meia novela da noite e dormias como uma pedra, sem interrupção nem do carro do padeiro às quatro da manhã.

e pensar que disse, tantas vezes, perante um amuo na hora de dormir:

"quando for grande!"

 

quando fores grande arrastas-te pelas divisões achando que estás velha e que precisavas da cama da tua infância e das mãos da tua mãe a aconchegar-te os cobertores antes de dormir. 

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oh vai ver ali: