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acerca de outras pessoas?

 

aquela convicção inicial que se traduz na vontade de conhecer ou não outros?

aquela certeza impulsiva, sem fundamento noutra coisa que não a primeira impressão, de que o outro é boa/má pessoa , como se isso fosse visível na cara?

aquela antipatia/empatia fundada no primeiro contacto?

 

de certeza que sabem.

eu também mas no meu caso é extremamente simples:

 

basta seguir exactamente ao contrário do que sinto.

 

o meu radar não falha mas sempre do lado inverso.

 

e o acontecimento do próximo domingo é a prova viva disso. 

ESTOU TÃO ENTUSIASMADA.

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a toda a gente que ontem no facebook

por M.J., em 26.06.17

assumiu que eu era a choramingas na casa de banho por causa de uma lente que não saía, tenho a dizer que:

 

não é verdade. 

 

não foi a opção c).

 

foram todas, está bem?

 

mete as lentes M.J, é seguro.

deixa-te de merdas M.J. as lentes são tranquilas.

o teu trauma não tem fundamento M.J., é fácil, fácil pôr e tirar aquilo.

 

é?

é?

é mesmo?

 

o meu olho esquerdo discorda. 

votos de bom dia. 

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comentários

por M.J., em 23.06.17

aprovei todos os comentários do post de ontem.

mal tinha acabado de o escrever foi destacado. numa questão de minutos. percebo que é uma tema quente, que dá que falar e os comentários que se seguiram não foram algo que já não estivesse à espera:

continuamos em grande parte preconceituosos, racistas, xenófobos e afins sendo que há quem o demonstre, orgulhosamente, aos sete ventos  em blog alheio. 

 

aprovei os comentários para tentar perceber quem somos e quem nos rodeia.

isto foi o que li:

que defender os mais básicos princípios de direito é ter peninha;

que todos os terrenos que estão por limpar são de pessoas que ganham reformas de cem euros;

que quem recebe o rendimento social de inserção é gente que nunca fez nada na vida;

que o estado social serve para proteger toda uma e só categoria de pessoas a que chamam de gentalha; e cambada.

 

e tantas outras pérolas.

 

creio que sei quem serão estas pessoas.

são as mesmas que se queixando de um tempo de liberdade e pedindo o regresso de um salazar renascido, usam a liberdade de expressão para chamar cabrões aos governantes.

são as mesmas que fogem, sempre que podem, ao pagamento de impostos, mas que dizem depois, muito orgulhosamente, eu posso falar porque pago os meus impostos.

são as mesmas que escarafuncham as cmtvs da vida e dizem que ajudaram tudo e todos porque ligaram para os 760 enquanto estavam encostados à janela a espiolhar a vida dos vizinhos.

são os mesmos que não sabem, nem que lho enfiem pela garganta, o que significa o principio da dignidade da vida humana e o que é preciso fazer para o salvaguardar, mesmo que digam aos gritos avés marias aos domingos.

são os mesmos que vão a fátima a pé, comendo pão e água e espalhando palavras de fé, enquanto pelo caminho olham com nojo as putas da estrada, porque essas não são filhas de deus.

são os mesmos que acham que se eu estou mal o meu vizinho não tem nada que estar bem. ou ainda, eu estou mal mas aqueles estão piores.

são os mesmos que se defendem de um alegado ataque de falta de educação respondendo "vai para a puta que te pariu mais a tua mãe que não te deu educação".

são os mesmos que não conseguiriam assumir uma crítica nem que lhe dessem o euromilhões em troca.

são os mesmos que respondem a qualquer argumentação com "pois, mas" mesmo que o "pois" seja concordar mas o "mas" venha dizer tudo ao contrário:

- as pessoas são todas iguais, indepentemente da cor, raça ou sexo.

- pois mas os ciganos e quem recebe o rendimento mínimo são gentalha.

 

são os meus desprezíveis da vida.

e têm todo esse direito de o ser.

podem escrever, gritar, aplaudir ao mundo quem são e o quanto os outros estão errados:

podemos sempre perceber com eles quem não queremos ser.

 

podem apontar as minhas falhas - e se as tenho, meus senhores, se as tenho, tendo nascido e vivido numa aldeia do mais rural possível, onde um negro aparecia uma vez de cinco em cinco anos e trazia olhares às janelas fechadas - de revelar as contradições de quem fui e quem sou:

relembram-se de mim própria.

 

podem ser racistas, xenófos, mesquinhos, pequeninos, sexistas e o raio que os parta:

lembram-nos que o ser humano não é superior e precisamos de continuar a educar. 

 

 

e no fim, eu posso despreza-los, sentir nojo e asco e saber - isto é certinho - que por mais que avancem, nunca chegarão muito longe:

nunca vamos longe quando a humanidade nos escapa. 

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#sóquenão.

 

com os fogos recentes, a tristeza que se abateu e os resultados dramáticos, voltaram as magníficas ideias de colocar os reclusos a limpar as matas, estando mesmo a circular - repare-se ao ponto que se chega - uma petição online que recolheu mais de vinte e cinco mil assinaturas.

sim senhores, tão bem esgalhado, que pensamento tão bem construído, que ideia tão bela, estamos aqui, estamos a ganhar o prémio nobel da inovação.

 

primeiro, gostava que alguém me explicasse se já "seguiram" uma petição até ao fim e viram se aquela porcaria teve, algum dia, algum resultado prático que não o inundar das redes sociais e as caixas de e-mails: já assinaste? olha que não te esqueças de assinar", numa lembrança tão irritante como o "por eles hoje, por nós amanhã", recordando-nos que ajudar os outros tem como único objectivo sermos ajudados depois.

tira-me do sério, mas deve ser um problema meu.

 

depois gostava de saber se alguma das vinte e muitas mil almas que acharam a coisa boa ideia pensaram na logística:

* põem-se os reclusos a cortar silvas algemados? ou há um guarda prisional para cada recluso? ou constroem-se muros em volta de cada sítio que vai ser limpo? 

* e vão para todas as matas? ou só as do estado que, segundo consta são apenas 3% da floresta total?

* se forem todas, incluindo as privadas, também posso requisitar um recluso para me vir aqui a casa limpar os vidros? sempre era dinheiro que poupava da empregada.

* e já agora, posso requisitar outro para me fazer a cama? e já que estamos nisto, sei lá, arranjar outros para umas plantações de algodão e assim, e depois podia transacioná-los, os mais musculados até seriam um bom activo, e os filhos deles eram já minha pertença. 

é pá, isso é que era!

 

* vinte e muitas mil almas acham boa ideia trabalhos forçados, né?

por que não a força? ou sei lá, a fogueira ao género da inquisição?! tenho uma ideia melhor: recolhíamos a madeira queimada e púnhamos em cima os reclusos que não quisessem trabalhar, acendendo depois um fosforinho naquilo tudo.

não era bem?

ao mesmo tempo, colocávamos outros a construir pelourinhos e chicoteávamos os que se recusassem a arrancar unhas daqueles que não quisessem tipo, sei lá, cortar as silvas do mato de um senhor com milhões no banco mas que nem nunca pensou nos pinhaizinhos que herdou na província.

e por fim, só para concluir bem, num toma que já almoçaste, o tuga quando pensa, pensa, pegávamos nos restantes todos, púnhamo-los dentro de comboios e mandávamo-los, sei lá, para o meio dos incêndios mostrando aos alemães que ainda somos mais eficazes do que eles no que diz respeito ao "o trabalho liberta".

 

só gostava mesmo, mesmo, mesmo, mesmo de saber se todos os iluminados que assinaram a dita petição têm os seus matos limpos e os pinhais a respeitarem regras básicas ou se são daqueles que têm mato até à janela do quarto e até teriam na cama, se fosse possível.

ou se são daqueles que nunca atiram lixo para o chão e quando vão a sítios florestais limpam tudo.

ou ainda se são daqueles que quando vão ao gerês, por exemplo, deixam ficar a porcaria que produzem espalhada pelas matas porque... oh, oh, algum recluso lá vai limpar.

 

oh senhores, que consumição. 

 

 

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ainda não falamos disso

por M.J., em 21.06.17

há alguém por aí que ache que a queriducha judite de sousa, com o seu ar mortuário de quem se despede da vida como um abutre em frente a um cadáver, cumpriu nada mais nada menos do que a sua função de informar?

 

queria tanto que falássemos sobre isso numa irmandade fraternal. 

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sei perfeitamente

por M.J., em 21.06.17

numa clarividência tão clara como hoje ser quarta, que vou acabar os meus dias

 

vestida de preto,

bigodinho farfalhudo - se a depilação definitiva não fizer jus ao nome,

seca que nem um carapau - que a magreza só vem quando não é preciso,

de cabelo branco cortado à escovinha,

sentada todos os dias no chão de uma eira,

à sombra de árvore,

a descascar favas e ervilhas no seu tempo,

e a debulhar milho no restante,

enquanto saco de uns cêntimos que dou ao único catraio da aldeia e digo:

- pega lá filhinho, é para comprares uma chicla.

 

com este feitiozinho não vai haver lar que me aceite. 

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com a mesma ligeireza com que se queixavam, nos dias seguintes, de que só se mencionava nas redes sociais a vitória na eurovisão, a vinda do papa ou do euro e do raio que parta.

estou fartinho que só se fale nisto, mudem lá o disco, a vida tem que continuar. 

como se já tudo estivesse terminado, nada estivesse a acontecer e fossem só recordações más. 

 

como se fosse uma opção, não é?

como se fosse coisa pouca.

como se fosse ligeirinho esquecer esta merda injusta, este terror filho da puta. como se estivéssemos a falar de um campeonato de futebol.

como se casas a arder, aviões a cair, pessoas a morrer fosse uma coisa para fartar.

temos que seguir a nossa vida e esta desgraça é uma chatice porque nos impede de o fazer convenientemente.

tadinho de mim, mudem de assunto.

já agora: parem lá de morrer, não? que me vai atrapalhar a vida.

 

sabem que mais?

vão para o caralho!

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o terror do fogo

por M.J., em 20.06.17

as ervas dos passeios secam no sol fervente da manhã. há um silêncio seco na rua e até o canto dos pássaros é molengo.

não há uma brisa pelas árvores e as folhas morrem lentamente queimadas pelo calor abrasador.

detesto este tempo.

 

acordei de manhã cansada de uma noite às voltas na cama.

é o último ano que passo numa casa sem ar condicionado, digo. depois penso nos meus primeiros vinte anos de vida e sorrio perante esta minha decisão.

 

na serra o calor era mais calor do que é aqui.

as casas acordavam ferventes e quando era mesmo pequena ia com a avó, ainda o sol dormia, tirar o leite da vaca para que, ao amanhecer já estivéssemos resguardados em casa. e fingiamos que não dávamos conta de que a casa, nas partes em que não era de pedra, era tão quente como uma poça de água estagnada ao sol.

 

a manhã passava-se lentamente.

a avó cozinhava e transpirava. houve um verão completo que a rotina era a mesma e é a que mais recordo. almoçávamos na hora do telejornal e dormíamos a sesta ainda que, agora, confunda tempos e sementeiras, num grande emaranhado de recordações.

uma vez por semana, mesmo na calor abrasador de agosto, acendia-se a fogueira para aquecer o forno e cozer pão. a avó transpirava de manhã à noite: quando amassava a farinha com a água, quando fazia o sinal da cruz no pão por cozer, quando varria as brasas do forno e as transportava com uma pá de ferro, quando colocava o pão, ainda só farinha e água, dentro do forno fervente, quando tapava o forno com uma porta de ferro e colocava farinha com água nas frinchas para impedir o calor. sempre embalada por uns quarenta graus à sombra. 

transpirávamos todos depois.

sentávamos-nos no pátio, debaixo de um pequeno coberto mas o calor inundava tudo vindo do forno, vindo do sol. às vezes fazíamos limonada, da água do poço que aquecia muito rápido. e os dias eram longos, e as tardes imensas sobretudo quando, ainda ferventes, se ia às terras fazer o que as terras pediam e não esperavam.

 

quando um incêndio deflagrava ao longe o pânico inundava-me com a mesma intensidade do calor.

as pessoas vinham à rua e telefonavam, em telefones pretos com teclas que eram um disco giratório, para os bombeiros da vila. as sirenes eclodiam pelo ar e mais pessoas se afligiam. subíamos a terraços, escadas e pontos altos para ver o fogo. e havia o medo. medo da morte de um sustento que permite uma vida digna. medo da perda de tudo o que consistia quem éramos. a morte de uma vaca, de um porco, de umas árvores num pinhal podiam significar a morte da dignidade entre comer ou não. 

o fogo era um demónio no verão que nós assistíamos, muitas vezes, do outro lado do rio. dizíamos "aqueles já estão habituados, todos os anos a mesma coisa" mesmo que do nosso lado, de vez em quando, também deflagrasse e as sirenes de repetissem em ecos de medo. 

 

é difícil perceber-se o trauma da perda de nada quando o nada é o tudo que se tem.

é difícil entender-se que as pessoas não queiram sair das suas casas, sobretudo quando parecem, aos nossos olhos mimados, barracas pobres e feias. juro que entendo e ao longe, visto daqui, aquela recusa do abandono parece-me uma imbecilidade.

mas não é.

chorei tanto este fim de semana, nas reportagens atrozes que iam passando, a exploração de quem perdia quem era, as lágrimas, os gritos, chorei tanto porque me lembrei de quem fui e de onde vim. ou melhor: de quem sou e, provavelmente, onde terminarei.

lembrei-me do valor de uma árvore. da sombra, da madeira que nos aquecia no terror gelado do inverno ou dos frutos que apanhávamos e comíamos como guloseimas.  

lembrei-me do significado de uma casa que se construiu a vida toda mesmo que pareça velha, acanhada e pequena.

lembrei-me do sentir bruto, na dor sem palavras bonitas.

lembrei-me disso tudo e a dor que me consumiu foi maior do que o calor todo que senti uma vida.

 

o terror do fogo, a empatia da perda de quem perde tudo, a compaixão por quem morre consumido em chamas tem em mim esta dimensão maior porque podia, literalmente, ter sido comigo. não me faz melhor pessoa.

a transformar-me é em egoísta.

 

odeio este tempo.

também me lembro agora de onde vem este ódio visceral. 

 

(e estes pedidos abundantes das tvs, estes 760 que me inundam a caixa de mensagens por pessoas que acham que devem lembrar-me de telefonar para "ajudar" quem perdeu absolutamente tudo, dão-me agora vómitos. causam-me uma indignação tamanha que sinto vontade de insultar tudo e todos.

quanto desse dinheiro chega às vítimas? quantas vistorias se fizeram a essas iniciativas e se concluiu que, efectivamente ajudaram?

quanto dinheiro fica pelo caminho, retido em quem não precisa?

dar a merda de cinquenta cêntimos no sofá, enquanto nos abanamos ao fresco e dizemos "coitados" para a tv pode aliviar a consciência e conotar-nos como bons humanos?

tende juízo. tende vergonha!)

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oh vai ver ali:

ontem, no meio de tudo aquilo,

por M.J., em 19.06.17

senti um daqueles raros momentos que se canalizam numa interrogação cega: como pode o resto do mundo continuar a girar?

como podem as pessoas continuar a rir e a viver e a prosseguir e a trabalhar e a ser e estar quando ali mesmo ao lado -  seja de faro, seja de bragança, é ali mesmo ao lado, somos minúsculos - quando ali à distância de nada se morre em chamas? se vê eclipsar em terror inimaginável vidas e tudo o que as compõe quando elas sobram?

como se prossegue?

 

e no meio desta interrogação - totalmente egoísta, como se fosse eu a ditar o que sente o outro, num direito que não tenho - qualquer réstia de prosseguimento da vida banal me parecia atroz.

o canto dos pássaros, a televisão do vizinho, as pessoas nas compras em centros comerciais, os emails de trabalho que caíam normais, como sempre. a ausência de perturbação porque a vida continua, mesmo quando ainda nem se sabe para quantos terminou. 

e confesso aqui que as publicações nas redes sociais de praias e festas, sítios bonitos e gente feliz, mesmo daqui do lado, mesma na hora do terror, pareciam-me insultos.

sabiam-me a gente que ia ao funeral do outro lançar confetis enquanto ria muito alto  por estar viva.

é um sentimento ridículo e egoísta e injusto este meu. mas foi o que senti:

como estar feliz, como publicitar essa felicidade quando aqui mesmo ao lado se morria em chamas? 

não se pode fazer nada, dir-me-iam.

nem estar triste? perguntaria.

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tristeza

por M.J., em 18.06.17

estou a ver as várias reportagens do incêndio em pedrogão. as janelas de casa estão abertas e não entra uma brisa nocturna mínima. a noite está seca, quente, abafada, feia.

sinto uma enorme vontade de chorar.

os jornalistas dizem várias vezes a palavra carbonizada. repetem incessantemente a morte de 19 pessoas carbonizadas. tenho o choro a correr.

aldeias desaparecidas.

há imagens de casas em chamas. povoações do interior com gente idosa que, possivelmente morreu. neste momento estima-se que o número real seja mais do dobro das mortes confirmadas. 

 

é incrível a pequenez e o horror da vida. acorda-se a um sábado de manhã, num fim de semana prolongado e chega-se ao fim do dia sem vida, sem casa, sem aldeia, sem nada do que se conhece e sempre conheceu. morre-se fechado num carro queimado, assoberbado em chamas e fumos.

é incrível a dor a que somos sujeitos.

não entendo a vida nem concebo a dor de quem passe, sinta ou veja uma coisa destas. não imagino que se sobreviva depois disto. que se prossiga. é um autêntico terror inimaginável.

que sentir, pensar de uma coisa destas?

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