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qual é a probabilidade

por M.J., em 20.11.17

de depois de duas semanas de obras do vizinho do lado, a vizinha de baixo venha bater-me à porta, às dez da noite, a queixar-se que a nossa casa de banho está a inundar-lhe a parede da sala?

e de o perito do seguro vir cá hoje e irmos entrar nós em obras?

 

é que isto, de facto, só a mim!

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amor

por M.J., em 17.11.17

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo.

as palavras são banais e perdem-se nas curvas das horas. olho-te com desvelo e cuido. cuido de cada pedaço de quem és e somos - somos um e outro e quando damos conta somos um - e sinto os pedaços das tuas coisas como minhas.

 

não me esqueço de fazer a tua marmita, antes de dormir, mas esqueço-me de dizer do orgulho que sinto em ti. não sabia a dimensão de um sentimento destes perdida na significado mais cru da palavra. grito ao mundo sem gritar o sentimento de felicidade que me provoca sentir que estás na minha vida e que és parte dela e que és, tem dias, a vida que eu sou.

integralmente. 

 

não me esqueço de ver se tens roupa lavada e passada, no armário, para cada dia em que acordas num rompante mas esqueço de sussurrar, antes de dormir, que te amo. num sentimento atroz que ultrapassa a paixão, o desejo e se mistura com casa, lar, cumplicidade, intimidade e sensação de frio e calor, tudo de uma vez só.

e me faz quem sou.

 

não me esqueço de ir às compras, por ti, que detestas. vejo o que mais gostas e trago, numa preocupação e vontade de te tirar dos ombros as tarefas domésticas de que não gostas. mas esqueço de te dizer bom dia, de manhã, quando damos encontrões pela casa, numa correria de começar as horas. 

quase sempre.

 

não me esqueço de cozinhar o que mais gostas. de marcar as consultas a que não queres ir. de questionar as tarefas que adias com pouca vontade e não posso fazer. mas esqueço de te pegar na mão, aos fins de semana, e jurar amor para toda a vida. 

na única certez que tenho.

 

cedi em quem sou, sem dar conta.

não gostava nem queria fazer marmitas, pensar em roupa, passada e lavada, comprar coisas domésticas essenciais a uma vivência, planear refeições saudáveis, organizar dias livres e cozinhar. esta não era quem eu era. esta era outra, que eu achava desprezar, no não saber da dualidade de uma vida. no não saber das cedências, dos compromissos, do quanto nos transformamos, naturalmente, no correr das horas tranquilas de um dia. de uma vida.

 

não me esqueço de cuidar como manifestação mais forte - aquela que vi também uma vida toda - do amor.

troquei as palavras, de que eu afirmara ser mestre, por gestos e actos pequeninos, insignificantes ao lado da grandeza do que poderia dizer. 

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo:

mostro-te.

 

 

 

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banalidades

por M.J., em 16.11.17

quem sou esconde-se de mim.

mascaro qualidades e mostro defeitos. aligeiro defeitos e publicito qualidades, numa espécie de adaptação ao que é esperado.

na maior parte do tempo, sou pequenina, medricas, vulnerável como o raio e cheia de não me toques.

 

se usasse isto a sério e mostrasse aos outros a fealdade que escondo, seria uma coisa digna de se ver.

como aquelas fulanas que saem todas as noites, com pestanas que não são delas, lábios embutidos, cabelos que se tiram e põem, rabos que se escangalham na saída da cueca, mamas que encolhem quando o sutiã é retirado e depois de devidamente desnudas são uma imagem pequenina e desenxabida, com um ar muito banal e comum cujos atractivos se esfumaram porque não eram. 

há os bons e os maus na linearidade. os pecadores, os perfeitos, os bonitos e os jovens. há pessoas que têm flores no cabelo, modulam as palavras como canções e se transformam em imagens que se seguem. com gosto. 

depois há os como eu.

pessoas cheia de vulnerabilidades, que ladram ao vento de dentes erguidos, um rosnar constante de irritação, num cérebro pequeno que se acabrunha ao confronto. 

são as que se devem evitar.

não que, ao estar com elas, se acabe mordido.

mas há o risco de se ficar com dor nas mãos de tantas festinhas que se lhes fazem na cabeça para as pôr a ronronar. 

 

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inverno

por M.J., em 14.11.17

sou uma pessoa de inverno. gosto de chás quentes, noites longas e dias curtos. gosto de meias às bolinhas e às riscas. tenho sempre os pés frios. mesmo com meias quentes, com riscas ou bolas. e as mãos. ouço muitas vezes as mesmas músicas. dou comigo a sentir falta de livros que li e que sei de cor. volto a lê-los outra e outra vez. descubro novas vírgulas e fico feliz. sinto-me incompleta a maior parte do tempo. e questiono constantemente as minhas acções. nunca chego a resposta nenhuma. às vezes escrevo só para sentir que domino o tempo. a não ser quando tenho as mãos frias. dói-me escrever com gelo nos dedos. mas acalma a dor da alma mesmo que sejam coisas sem sentido. e pretensiosas. percebo as vezes que fui uma idiota. não resolve nada. constato feitios e opiniões e atitudes. não domino os pensamentos. quando entro em cadeias deles chego sempre à conclusão que não mereço um pirulito furado. não é agradável. outras vezes acho-me um caso perdido por incompetência alheia. entro em considerações completas do que não fui e não sou por culpa do outro. dura sempre muito pouco porque estou formatada para perceber que a culpa é minha. sempre. mesmo quando não é, é porque em última instância somos sempre donos de quem somos. sou uma pessoa de inverno. gosto de chuva, dias cinzentos, músicas melancólicas e folhas secas. gosto de vidros embaciados pela humidade, de vapores suaves dentro de uma cozinha e da alquimia do conforto. gosto de inverno e por mim todos os dias da minha vida seriam inverno. por mim toda as coisas seriam as minhas decisões e a vida seria um barco em água estagnadas, em que os dias se perdem na igualdade dos dias anteriores. por mim as decisões seriam concretizadas, mesmo aquelas que não controlamos e demoram o tempo que não temos, ou achamos que não temos, perdidos a contestar o que ainda não conseguimos. sou uma pessoa de inverno. e tenho um medo que me pelo de todos os invernos de que disse mal, na sensação que é castigo pelos que agora não vêm. sou uma pessoa de inverno e este texto é uma metáfora de tudo o que queria dizer e não posso. porque sou uma pessoa de inverno e abri demasiadas portas agora este espaço tem tantas frestas, tantos vidros abertos, tantas portas escancaradas, que quem sou não pode desnudar-se aqui. e é uma pena. sobretudo porque o inverno não chega.

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30 anos depois

por M.J., em 13.11.17

e a vida não perde a oportunidade de me surpreender com as pessoas que coloca no meu caminho.

e me ajudam. 

sem nenhum interesse.

sem pedir nada em troca.

apenas porque sim. 

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tenho uma brutal dor de cabeça

por M.J., em 13.11.17

daquelas tão fortes que era menina para ir jantar ao panteão nacional e ficar lá.

deitadinha.

ao pé dos residentes. 

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se acusassem o ronaldo de matar cinco cãezinhos tiravam-lhe as bolas de ouro?

 

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(a propósito do post anterior):

1. boas! (direcionado ao cumprimento de alguém mesmo que sejam seis da manhã).

2. okapa! (uma concordância escrita ou verbal)

3. abreijos! (aquela despedida mista)

4. lol! (dito muito modeladamente)

5. top! (a propósito de tudo e nada que se goste)

 

eu tenho grandes dores em todas elas mas os abreijos e o top... senhores, doem-me quase tanto como obras com berbequins.

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pessoas que dizem

por M.J., em 09.11.17

"boas" como cumprimento seja matinal, de tarde ou noite.

é boas quê?

boas dias?

boas olás?

boas tudos bens?

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o dia em que a M.J. morreu.

por M.J., em 08.11.17

esta semana tenho algo para concluir, muito importante, a nível profissional.

é algo que envolve bastante dinheiro e não posso deitar a perder.

assim, a minha vertente perfeccionista e controladora - oh, como há disso a rodos nesta cabeça - planeou no domingo a semana toda, desde as pausas para esticar a coluna aos momentos para comer. 

claro que sim. 

só que não!

 

na segunda feira, à mesma hora em que acordei, destinada e pronta a trabalhar, ouvi um berbequim no apartamento do lado, num ruído ensurdecedor que parecia um terramoto descomunal:

o meu vizinho do lado, o do cão às seis da manhã, o que tem uma filha adolescente que ouve kizomba às quatro da tarde, decidiu fazer obras que envolvem partir coisas, rasgar paredes e dar cabo do silêncio do prédio desde as oito menos dez da manhã às cinco menos dez da tarde. 

 

o barulho era de facto ensurdecedor.

não estamos a falar só de uns gemidos - como o outro, do outro lado - pornográficos facilmente bloqueados.

estamos a falar de marteladas, berbequins, pedras e uma correria escada acima escada abaixo.

 

nesse dia à tarde, depois de pensar em todas as opções e alternativas para onde ir trabalhar, enquanto tudo me gritava que estava a perder tempo e que devia deixar-me de merdas e que se quisesse conseguia era só fingir que não ouvia, e depois outra parte de mim a gritar por cima dos berbequins que não era justo, que macaco do campo não se habitua à cidade e que devia era voltar para a serra e que chega de viver enjaulada e o trabalho em cima da mesa a gritar mais alto que não estava feito e enfim, quando desci as escadas e olhei em redor havia um manto de pó banco por todo o prédio:

os homens trabalharam de porta aberta e o pó entrara inclusivamente cá em casa. e era também por isso que o barulho se projectava, como num espectáculo com palco bem acústico. 

 

(faço aqui uns parêntesis para explicar o seguinte: não pensem que este prédio é dos maus. é pequeno, tem apenas 5 famílias e o silêncio impera praticamente os dias todos de tal forma que, qualquer barulho sobressai. e claro, obras são obras. além disso, mesmo as obras continuando no dia a seguir, o vizinho deu-se ao trabalho de limpar - rudemente - as escadas e o pó nessa noite, numa demonstração de preocupação pelo bem estar dos restantes moradores. 

engoli - confesso - duas ou três pragas que lhe tinha rogado. fecho parêntesis).

 

nessa tarde, depois de uma dor de cabeça infernal, de um dia inteiro de barulho catastrófico, de uma alergia que começou assim que o pó entrou sem ser convidado, de um trabalho que não avançou uma linha, de uma sensação de injustiça e de auto desprezo por ser tolinha, depois de me acalmar e lançar duas lágrimas decorrentes também de umas certas alterações hormonais - conjugação bombástica - e sensação de auto-comiseração, depois de tudo isso, sentei-me no sofá, liguei a televisão - que continuo a achar descomunal para o tamanho cá de casa, numa espécie de mono tecnológico que grita "estou aqui" e decidi que acabou:

acabou.

c'est fini.

não passo outro ano num apartamento.

chega. 

é casa ou nada. 

pode ser pequena, no meio de um pinhal se for preciso - se bem que com  o historial de incêndios é melhor repensar - no meio da serra mais distante ou onde for... mas apartamentos acabou. 

foi isto.

 

e a m.j. de há cinco anos, que jurava a pés juntos que não ia cair no sonho provinciano de casar e comprar casa e preparar refeições da semana aos domingos e preocupar-se com um marido e quem sabe, ter dois putos borrachudos e feios como a mãe, deu voltas no túmulo, morta e enterrada mas ainda aos pontapés, porque faleceu, tadita, toda ela aos pedaços, depois de casar e decidir comprar casa, com quintal e tudo, e plantar as próprias couves enquanto limpa os vidros e repete, como a própria mamã:

"há um mínimo. e viver na porcaria é um mínimo que não se admite".

 

acendam uma vela pela defunta, por favor. 

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