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doutores

por M.J., em 23.10.17

nada me dá tanta azia no estômago, uma sensação de asco que me faz revirar os olhos, que o tratamento desenfreado por doutor.

cola-se o rótulo ao nome e de repente o vizinho já não é o miguel mas o doutor miguel; o conhecido não é o zé maneta mas o doutor zé; o administrador do condomínio não é o fulano do segundo esquerdo que arreia na mulher mas o doutor fulano e, a senhora que apanhamos na pastelaria aos sábados de manhã, não é mais a dona micas mas a doutora miquelina.

uma consumição.

 

a prova disso foi ouvir um amigo com quem não falava há anos mencionar episódios da vida e em todas as pessoas a que se referia pespegar-lhe o doutor atrás, por extenso, assim, uma cambada deles como que se os padres do mundo tivessem todos algum dia sofrido de uma doença que obrigava, ao mesmo tempo que banhavam as criancinhas em choro com água benta, colocar-lhes o doutor atrás, na certeza de bênção futura. 

e eu, já sem entender, a achar a coisa má de mais, na espera de uma oportunidade, achada quando ele mencionou alguém a passear um quadrúpede de pelo (pêlo com circunflexo, vá, para que não restem dúvidas):

- o quê? o cão não era doutor?

 

estamos num país de doutorices.

mas não temos doutorices que se adequem ao país onde estamos:

os passeios, as estradas, os muros e os jardins estão cheios de cocós que os doutores não apanham dos cães doutores que passeiam. 

ou isso ou é uma epidemia de diarreia que um doutor veterinário devia investigar.

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tenho andado muito afastada da blogosfera. escrevo aqui um pouco mas não tenho lido nada, absolutamente nada, alheio.

que dizem?

que contam?

que recomendam?

alguém morreu?

há novidades?

tudo mais do mesmo?

 

sejam amigos, vá, e contem-me tudo. 

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quando a esmola é grande

por M.J., em 19.10.17

houve um tempo em que tentei negociar com Deus. 

era ridículo da minha parte porque, não sendo crente, transformava-me numa espécie de maluca a conversar com as paredes, numa troca de argumentos sem resposta.

mesmo assim tentava porque nada à minha volta me dava respostas.

muito menos eu.

 

 

a negociação era simples:

eu em trocas de um outro qualquer que realmente quisesse e sentisse a beleza da vida.

a troca de mim, na incapacidade de ver qualquer virtualidade em continuar e ser e respirar por um outro que sentisse todas as ganas de permanecer e não pudesse.

era lógico, na minha mente: se o Deus - como me ensinaram - procurava estar perto daqueles que nele crêem; se está ao lado daqueles que o amam; se dá vida e luz aos que por ele clamam, a minha presença naquela fase podia ser muito bem substituída por uma outra que realmente quisesse e acreditasse e fosse grata pelo estar viva.

 

não resultou, evidentemente.

 

nenhuma das minhas preces teve qualquer resposta na procura incessante do nada.

continuei com grossas raízes, mesmo depois de tantos comportamentos de risco e um acidente de automóvel.

fiquei, sem perceber muito bem como.

 

há alguns dias da vida em que continuo sem perceber.

nisto da escolha de quem vive e quem morre, no acaso ou na sorte, na escolha superior ou apenas na lei de uma vida que não percebemos, a minha permanência é essencialmente inútil.

não desperto nos outros grande empatia ou laços de permanência.

não sou portadora de actos de altruísmo ou bondade.

não descalço os meus sapatos para calçar pés descalços.

não transformo a vida de quem me rodeia essencialmente numa coisa boa.

não dou vida.

também não dou morte a não ser, alguns dias, a um ou dois mosquitos.

não corro pelos dias com um propósito qualquer que faça a minha permanência ter um sentido no mundo.

nenhum dos meus comportamerntos justifica, na grandeza das coisas, o ar que consumo.

 

sorte, creio que será esse o nome da minha permanência.

mais uma, numa espécie de tolo no meio da ponte, arrastada pelo vento para trás ou para a frente, sem grande sentido claro que não seja o tormento da alma. 

 

não faço coisas por ai além para me manter por aqui.

é certo que não fumo ou bebo mas estou acima do peso e tenho uma vida sedentária.

não conduzo acima da velocidade mas sou tão má condutora, tenho uma noção de distâncias tão má, que é inacreditável que nunca tenha sido albarroada por um comboio.

sou hipocondríaco quanto baste mas não ando sempre nos médicos.

sou caguinchas na dor mas mascaro-a com o tratamento dos sintomas em vez da cura. 

 

permaneço. aqui estou. porquê?

na grande finalidade das coisas, na grande construção do mundo, por que estou e continuo e ao meu lado morre gente? por que continuo aqui e respiro e há pessoas que, com tanto para fazer, tanto para dar, tanto para ser descobrem uma doença que não controlam, um fogo que as asfixia ou um carro que as mata?

o que motivou o acaso na escolha, mesmo que a escolha nunca tenha acaso?

em grandes desgraças, incertezas, dúvidas, tragédias inesperadas ouço tanta gente perguntar, como que se de repente tivesse noção da sua presença no mundo:

porquê eu? porquê a mim?

já eu, muitas das vezes numa curiosidade enorme, numa incapacidade de compreensão, num não querer acreditar na própria sorte questiono:

por que não eu? como raio eu não? 

 

diz-se que o pobre desconfia quando a esmola é grande. 

estou sempre desconfiada. 

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correm rios de posts a apelar à plantação de árvores no natal, por crianças, adultos, jovens e idosos, onde ardeu, bota para lá, sem ninguém se questionar que árvores e com que ordenamento.

ainda nem as cinzas são cinzas e já se começa a cometer o mesmo erro.

 

senhores que isto nem à força da morte!

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banalidades

por M.J., em 19.10.17

há um leve cheiro a fumo no ar que se entranha na roupa, no corpo, no cabelo, na pele.

não tem a imensidão de cinza e pó e abafado intenso dos últimos dias mas permanece gravado a cada partícula de ar, como uma espécie de fumado adocicado e enjoativo que se propaga, insistentemente, por todo o lado.

o cinzento da manhã apanha cada partícula e deixa-se vaguear pela vida.

tomo café a olhar os cedros. não há ninguém na rua e esforço-me por canalizar a mente para o que vejo. as árvores, as casas, um gato no jardim em baixo.

está tudo queimado. 

ainda não consegui abarcar essa ideia:

está tudo queimado. 

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oh vai ver ali:

publicado às 10:20

já não me interessa

por M.J., em 18.10.17

não quero saber de quem é a culpa. já não me interessa.

não quero saber o que pensam todos, em rios de tinta gastos. já não me interessa.

não quero saber dos clamores de quem não viu nem sentiu. já não me interessa.

não quero saber dos lamentos pelas mortes de quem não conhece. já não me interessa.

não quero saber de quem manda, quem fica ou sai. já não me interessa.

não quero saber do luto, das bandeirolas e dos sushis. já não me interessa.

não quero saber da arrogância, do aguentem-se, da resiliência e do habituem-se. já não me interessa,

não quero saber da gritaria dos que gritam por empatia que mal sentem. já não me interessa.

não quero saber dos ajuntamentos, das multidões, dos pseudo silêncios, da fotografia. já não me interessa.

 

quero saber das vidas que se perderam.

das ávores que morreram.

das sombras que já não existem.

dos sonhos que se foram e do nada que é nada, totalmente nada no que antes era tudo. 

 

quero saber dos que já tinham tão pouco que o nada é uma afronta.

dos que viveram uma vida em função do amor pela terra e pelos bichos e ficaram sem terra e sem bichos e sem casa e sem lar e sem sonhos e sem esperança.

quero saber dos meus, que partilham comigo o nascer e o pôr do sol, o amor pela serra e pelas árvores, pela humildade, pelo amor do crescimento de uma árvore e de um planta. 

e que morreram.

 

quero lá saber dos vossos sentimentos de sofá, das vossas dores do facebook, da vossa solidariedade de ajuntamento, se os vossos sentimentos, as vossas dores e a vossa solidariedade morrem daqui a duas horas, na novidade de outra dor que nem sentirão.

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oh vai ver ali:

não sei o que escrever

por M.J., em 18.10.17

perdi. nas últimas horas, a capacidade de alinhar palavras.

 

fiquem, está bem?

hei-de recuperá-la. 

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a minha serra morre

por M.J., em 16.10.17

e a nossa ministra fala muito serenamente que as populações têm de ser mais resilientes e que, a demitir-se, era ir de férias. 

a minha serra morre e o nosso primeiro ministro diz que as coisas são assim mesmo, se vão repetir e que os portugueses compreendem porque são adultos.

a minha serra morre.

morrem 32 pessoas carbonizadas, asfixiadas pelo fumo.

morrem árvores, animais.

perde-se o que se conquista com uma vida de esforço. 

 

a minha serra morre e as declarações de quem nos governa são arrogantes. são torpes e crueis.

demonstram uma total falta de respeito.

como que se o país que não é Lisboa fosse indigno de um pedido de desculpa e de um lamento sério por quem sofre. 

 

a minha serra morre e, na sua morte, quem dela devia cuidar encolhe os ombros, assobia para o lado e exige compreensão. 

 

filhos de uma grande puta!

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a minha serra morre

por M.J., em 16.10.17

e eu permaneço em estado de choque.

27 pessoas mortas dias depois de um relatório que veio atrasado pela morte de mais de 60. nada mudou:
neste país temos uma lei de lavoisier mas em mau: nada se muda, nada se transforma, tudo se mata.

 

e nestes entretantos, o governos brinca às casinhas e preocupa-se, sobretudo, em dizer que ninguém tem culpa. 

é que o governo não vive nas aldeias, não tem amor às árvores nem sabe o que é ver arder tudo, incluindo a vida.

o governo não tem amor aos animais, a não ser os que vão a restaurantes. o governo não sabe o valor do silêncio, das sombras e da pureza das árvores.

o governo não arde.

o governo também somos nós e nós não somos grande merda:
continuamos a fazer queimadas em dias de 30 graus; a lançar foguetes quando ao lado se morre em fogo; e a acender velas de devoções no meio da serra quando há incêndios que não terminam.

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a minha serra morre

por M.J., em 16.10.17

as pessoas em redor morrem.

as árvores consomem-se em fumo e desolação.

 

há dias de lágrimas. e há dias em que as lágrimas secam pelas cinzas e fumo e fogo das lágrimas que consumiram. 

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