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profissionalismo

por M.J., em 13.11.15

depois de três semanas de espera pelo resultado de um exame que pode dizer a uma pessoa

"tens cancro, o teu corpo está a matar-te numa revolta contra ti"

uma voz profissional, sem calor, sem tom, sem qualquer réstia de compaixão pelo outro, sem qualquer capacidade de se colocar na pessoa a quem se diz o que se diz avança

amanhã, sábado, apareça na urgência que o senhor doutor tem os resultados"

ignorando os prantos aflitivos de quem, do outro lado, olha para o corpo que poderá estar ou não a morrer, para o corpo que poderá revoltar-se numa guerra de químicos e dores e não avança resposta a nenhuma das perguntas.

com voz fria, profissional, usando dos obrigados, dos por favores e dos licenças. faltou apenas desejar um bom fim de semana, na constatação a tempo do ridículo incomensurável que seria.

ignorando, propositadamente, o que a frase "apareça amanhã, sábado, para saber o destino do seu corpo" provoca na pessoa que o ouve. 

 

a capacidade "profissional" do ser humano conseguir ignorar a ansiedade da dor do outro mata-me.

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publicado às 12:01


3 comentários

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De Neurótika Webb a 13.11.2015 às 13:11

Vê o outro lado....
Tenho uma amiga que é neuro-cirurgiã. Lida todos os dias com doenças degenerativas, alzheimer e todos os tipos de demência.
Há 2 anos teve um esgotamento nervoso que lhe arruinou o casamento.
Porquê? Por detrás daquela capa de frieza, do distanciamento, estava tudo lá acumulado, o sofrimento dos outros, os doentes que lhe morreram ao fim de anos de acompanhamento em que é impossível não criar laços.
Lembro-me sempre do dia em que fui com a minha mãe ao Instituto de Oncologia comunicar ao médico que o meu pai tinha morrido. O médico era um bloco de gelo e eu detestava-o.
O homem desfez-se em lágrimas à nossa frente. Fiquei estupefacta!
Dizia que o meu pai era "O meu herói", tinha-lhe dado um diagnóstico de 6 meses de vida e ele durou 5 anos.
Percebi nesse dia que afinal, a frieza é um mecânismo de defesa, a única maneira de eles sobreviverem a tanta dor e a tanta morte.
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De me a 13.11.2015 às 18:32

Não consigo conceber o q seja a vida de uma pessoa q trabalhe, por exemplo, na ala pediatrica do IPO. Acho q deve rasgar uma pessoa, criem eles as carapaças q quiserem...
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De Neurótika Webb a 13.11.2015 às 18:41

as enfermeiras pediátricas do IPO lidam com os miúdos de maneira diferente.
e, sim, porque a taxa de mortalidade lá é muito mais elevada.

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