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ah e tal porque és uma egoísta da merda.

claro. evidentemente.

a pessoa decide ter filhos porque quer continuar a espécie e quer dar todo o amor a uma coisinha fofinha que é continuação dela. quer amar algo que ela constrói e isso é altruísmo.

não meus senhores. essa decisão é tão egoísta como a de não ter. é uma decisão centrada no próprio umbigo e nas expectativas que se cria para um futuro não muito longínquo. é que de outra forma, com tanta gente aí no mundo, tanto filho sem pai, tanto refugiado à mingua, tanto português em instituições, tanto chinês, indiano e restantes nacionalidades à espera de um papá e uma mamã como nos filmes e não se adopta? pois se o objectivo é dar o melhor de si a outra pessoa... ah, mas eu quero algo de meu na outra pessoa, tenho uma genética tão fantástica que filho ou a tem ou não me serve.

certo. legitimo. nada contra. mas isso é altruísmo?

claro. e eu sou o presépio todo.

 

e se os teus pais tivessem pensado o mesmo?

olha que merda de pergunta. se eles tivessem pensado o mesmo vocês estariam todos felizes porque eu não estaria aqui a escrever estas merdas.  deixaria de ter uma existência e, lógica da batata, estaria renegada à não existência.

se seria bom? sei lá. nem bom nem mau. não seria.

se não fosse aquele espermatozóide em concreto que tivesse entrado no óvulo mas o anterior eu também não estaria aqui. nem vocês. e depois? o que se havia de fazer quanto a isso?

nada, não é?

 

ah isso é porque nunca experimentaste. 

evidentemente. nunca experimentei ser mãe. se for provavelmente vou gostar muito da criaturinha que vai nascer. é o mais certo. é quase sagrado que assim será porque existem processos neurológicos, instintos básicos que a isso obrigam. é o tal do instinto que leva a que as gatas andem com os filhos na boca quando eles nascem ou que as vacas lambam a nhanha dos vitelos ainda eles nem sabem caminhar. faz parte. mas isso deve ser a base de uma decisão de ter filhos? 

vocês é que sabem, mas minha não será de certeza.

assentar a decisão de ter filhos porque se eu os tiver vou gostar deles é a mesma coisa que decidir começar a fumar porque se insistir um bocadinho vai ser magnifico circular aí com um cigarro no canto da boca. 

 

se toda a gente pensasse como tu não haveria humanidade.

ah, o eterno altruísmo do mundo. parimos porque queremos a continuação do amanhã. pois. então significa que todos os padres, os que levam a coisa a sério, devem ser apedrejados, é isso? e as freiras que passam, coitadinhas, a vida a rezar para o nosso bem? e os outros, os inférteis, esses também que enfim, à conta deles a humanidade terminará? e os gays, não esquecendo os gays que por processos naturais também não vão lá.

então e quê? não podem existir padres, freiras, gays? devem ser todos renegados porque se recusaram a contribuir para o continuação da humanidade?

 

um dia, quando fores velha, não tens ninguém para tomar conta de ti.

novamente o altruísmo da coisa.

meus senhores se querem assegurar uma boa velhice façam uma conta reforma ou um plano desses. não pensem que serão os vossos filhos a amparar-vos as quedas e a livrar-vos do flagelo da solidão no futuro. é só irem aí, felizes e contentes com um saco de bananas visitar lares de terceira idade. todas as pessoas que lá estão foram egoístas sem filhos, a colher o que semearam? não, meus senhores, não. diria que a maioria pariu e pariu até muito.

 

a tua vida sem os teus filhos vai ser muito infeliz, muito incompleta.

como é evidente. porque são os outros que sabem o que me completa a mim. são as outras pessoas que podem saber aquilo que me traz ou não felicidade. vamos lá pensar uma ou duas vezes, sim?

eu por exemplo, numa coisa corriqueira, entendo que a felicidade é comer um bom bolo de chocolate, a ouvir uma óptima música e a ler um fantástico livro. todos vocês se enquadram no conceito desta minha felicidade? desta minha completude, por exemplo? então e aqueles que já gostam de dar um bom passeio pelo campo, comendo maçãs e suando as estopinhas com o ar fresco e revigorante? qual de nós está certo? qual é que é mais feliz?

os dois.

cada um sabe o que lhe faz sentir feliz. e não vamos confundir as coisas: se a decisão dos outros é ter filhos, é pá, óptimo. muito bem. certinho. desde que não mos enfiem ouvidos dentro a berrar está tudo fabuloso, uma maravilha, uma coisa acima da média. se a pessoa decidiu porque quer ser egoísta ou altruísta, se decidiu porque os vizinhos também o fizeram, porque sentiu o chamamento de ter alguém ao colo é com ela. cada um sabe de si. agora o que vejo por ai espalhado é uma tentativa de quem tem filhos querer doutrinar quem não os tem a fazer o mesmo. (tipo, se eu sofri tu também hás-de sofrer?) ainda para mais com o argumento sou muito mais feliz que tu!

 

e o teu legado? e a tua passagem pelo mundo?

de certezinha que os pais do hitler devem ter ficado muito felizes com o legado deles. terá sido divino. assim como os pais dos gajos que se explodem todos por aí. ou dos que veem os seu legado violar o legado dos outros.

que mania a ideia de que o filho é a nossa continuação. o tanas. nós pusemos a criatura no mundo. se ela vai ser nossa continuação? depende da sorte. o que sabemos é que ela vai ser a continuação do seu tempo, da sua sociedade, das pessoas com quem convive inclusive nós. mas ter a pretensão que será para o mundo aquilo que nós achamos que devia ser é tão certo como uma galinha pôr ovos de chocolate.

o nosso legado pode ser aquilo que nós construímos. se também pode ser um filho? pode, claro que pode. se será? ninguém sabe. se é bom decidir parir com base nessa ideia? cada um quem sabe. eu acho, sinceramente, que é só idiota.

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publicado às 18:18


1 comentário

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De Catarina a 10.11.2015 às 19:28

Não tenho argumentos para ter filhos. Mas estou grávida. Também não tenho argumentos para NÃO ter filhos. É mais ou menos isso.

É uma consequência do meu casamento, da minha (nossa) entrega, e não é racionalizável nem "convencível". Vou ter um filho porque posso engravidar, porque engravidei e porque toda a gente já o fez e eu hei-de conseguir fazê-lo, melhor ou pior, aprendendo no caminho, mas sempre a pensar mais fora de mim que em mim.

Se acho que deves ter? Não. Se acho que não deves ter? Também não. Mesmo que não te apeteça, acho que podes perfeitamente ter. Mas não tens de ter uma razão nem para ter nem para não ter. Só tens de engravidar (estou a tentar descomplicar. Não sei se consegui...).

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