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fiz sopa no domingo à noite

por M.J., em 28.06.16

comi hoje. estava no frigorifico e não aqueci muito que não se pode, com este calor.

soube-me a azedo mas insisti uma vez que porra, fi-la no domingo.

 

estou enjoada.

 

aceitam-se apostas: é coisa para me dar vómitos ou diarreia?

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publicado às 14:13


8 comentários

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De sarabudja a 28.06.2016 às 15:46

Só agonia psicossomática.
Até te contava o episódio que aconteceu à Estrela, a gata da Libânia, que comeu sardinhas por amanhar, mas agora não tenho tempo. Nem fígado.
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De M.J. a 28.06.2016 às 15:55

eram esses episódios que eu queria tanto que escrevesses para este tasco!
são tão bons!
tão divertidos!
refletem tanto o que somos!
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De sarabudja a 28.06.2016 às 15:58

Eu bem sei. Mas esses episódios têm de ter um mote. Havia eu avisado que talvez fosse melhor manter-me como comentadora. Eu bem sabia. E a Sarabudja é bem mais espectacular do que a outra.
Agora não posso. Mas assim que despachar meia dúzia de assuntos pendentes, mas três ou quatro trabalhadores independentes e nove ou sete toxicodependentes, eu conto a façanha de Estrela, a gatinha persa da Libânia, a filha do sr. do bar alternativo aqui dos arredores do burgo.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 10:37

Então, para cumprir a promessa e fazer-te saber das coisas cá dos arrabaldes do burgo, cá vai.
Antes do realmente, deixa que te avise que só tenho contado histórias com mais de muitos anos. Valha-me esta memória de paquiderme à solta em savanas cheias de coisas boas para comer e sem gentinha para me extrair os caninos em marfim. Também me valham o comedimento e a simpatia pelas gentes, que garantem algum decoro na hora de passar à escrita o que se ouvia em sussurros escarninhos à saída da missa das oito aos domingos na capela perto de casa dos papás.

A Libânia em si (ou noutra nota musical, porque a rapariga parecia uma harpa de querubim. A saber: cândida, esguia e que poucos saberiam arrancar uma nota, muito embora todos tentassem percorrer as cordas com as mãos besuntadas de curiosidade) daria uma história.
Filha de gente fidalga, todos eles de cabelos em tons de sol e morangos silvestres, peles sarapintadas com sardas meticulosamente coladas aqui e ali nos narizes muito nobres e com fino acabamento ao nível dos olhos azuis mar e areias brancas. Acontece que o Sr. Eduardo, se sentia mal com os nossos ares e foi passar uma temporada à casa da família, lá para cima. D. Rubina ficou a tomar conta das coisas porque, como sabemos, muita criadagem sem patrão por perto faz folgas à decência. Passados alguns meses, D. Rubina escreveu pelo próprio punho carta empolgada ao Sr. Eduardo. Relatava que estava muito entusiasmada com as melhoras dele, tanto que havia engravidado. Os meses passaram e desde a partida do Sr. Eduardo, que entretanto voltou para acompanhar os achaques grávidos de ansiedades e desmaios da mulher, até ao nascimento de Libânia, nome herdado da bisavó paterna, passaram cerca de 11 meses. Claro que as pessoas falaram em surdina, mas o casal dizia que como estavam fraquinhos os espermatozóides do Sr. Eduardo, a gravidez precisou de mais tempo para vingar.
Libânia nasceu com tez trigueira, cabelos de noite e com ossos de quem nasceu para carregar a vida. Todos voltaram a falar, e o casal explicou que tanto tempo em ventre materno, a criança só poderia vir com ares de família afastada, porque bem sabiam que, nos primóridos do século passado, havia um antepassado visitado terras africanas e deixado descendência.
A mãe do Sr. Eduardo, D. Clementina muito lamentava a falta de amor próprio que assistia ao seu filho do meio. Sempre tão benevolente, sempre tão crédulo, sempre tão falado por todos e motivo para expressões bovinas e risinhos jocosos.
A menina foi crescendo, mantiveram-na no recato da casa. Dizia-se que tinha voz de chuva breve em dia quente de trovoada. Daquela que bate na terra e desperta os sentidos e sentimentos. Daquela que transporta todos para a longínqua infância e descalça até o doutor mais macambúzio.
No aniversário dos quatro anos trouxeram-lhe os primos da cidade uma gata persa. Cinzelada em gris a gata quase não miava, antes arrulhava rouca e preguiçosamente. As bichinhas viviam juntas, tornaram-se companheiras inseparáveis e cresciam com o mesmo fado: eram diferentes de todos duas suas espécies. Desde os tons aos sons.
Estrela, a gata, foi alimentada a leite de gata persa, depois passou a pequenos petiscos bi diários de peixe finamente cozido e biscoitos de azeite, que lhe mantinham o pelo alvo de cobiças e motivo de longas horas de aprimoradas escovagens.
(continuará)
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De sarabudja a 29.06.2016 às 11:58

Em continuando...

Estrela, a gata persa cinzelada a gris, com arrulhar rouco e preguiçoso, tinha lugar cativo nos braços de Libânia, nas brincadeiras, na colcha bordada que encimava a cama, no canapé estufado a adamascado. A felina com ares de boneco de pelúcia, igual aos que os tios traziam de França, só não era convidada para as refeições na sala ou para as idas à cozinha para conversas profundas com a Francisca, a empregada que veio da serra e que se ocupava a amar esta família. Fazia pequenos depósitos deste amor quando lhes esticava os lençóis imaculados das camas, lhes corava as roupas brancas em verdes ervas depois de lavados com o melhor sabão, lhes servia os guisados e assados, até os cozidos tinham gosto de comida aconchegante, para não falar nos bolos que a Francisca fazia, que perfumavam a casa até à varanda. O de laranja regado a calda de sumo espremido pelas mãos sempre muito limpas e macias de Francisca e açúcar mascavado, sempre foi o preferido de Libânia. Engraçado como Pedro Henrique, o jardineiro moreno, de olhos escuros e cabelos de noite, um rapaz com ossos de quem carrega a vida, também sentia um sorriso desenhar-lhe no canto da boca, que somava saliva, quando sentia o cheiro do citrino quente vindo do forno a lenha. Tão distantes embora tão parecidos: Libânia e Pedro Henrique distavam, entre si, uns 21 anos, duas ou três classes sociais e financeiras. Estas coincidências seriam obra dos acasos, dos desencontros de fim de tarde, ou mesmo coisas de vidas passadas ou pesadas.
Francisca também amava Estrela, mas o lugar de bicho peludo é longe de tachos e panelas, copos e garfos, longe também das mesas onde se serviam as refeições. Sempre teve a compreensão de Libânia e da própria Estrela, que aproveitava estas ocasiões de solidão para descansos noutros lugares: a biblioteca, a sombra da árvore que nas estações quentes floria e aromatizava os devaneios pequenos da gata pacata.
Habituada a iguaria fina e a submissões mais canídeas do que da sua condição de nascença felina, Estrela não havia provado jamais o gosto de peixe cru, o risco das espinhas cortantes e picantes em garganta estreita ou mesmo do roubo de alimento. Estas aventuras eram desconhecidas.
Mas aquela casa tinha a particularidade de ter fêmeas que ignorando os perigos e alguns prazeres, acabariam por cair neles com a facilidade de quem molha os cabelos aquando da experiência de beber água na bica da fonte.

Numa dessas solidões, Estrela passeou pela casa, saiu para a varanda e sentiu cheiro misterioso. Um misto de repelente com atraente. Deitou-se sobre a curiosidade e viu passar um gato de porte atlético, de carnes rijas e saltos circenses, pelo áspero mas olhos hipnotizantes. Um gato bem miante, embora de poucos mios, mais de olhar fixo e falante.
O macho miou-lhe o nome que lhe haviam dado numa casa que ficava a duas ou três ruas dos De Reis e Pignatelli: Tico. Tico? Que nome tão... como dizer sem ofender o espécime áspero, mas tão sedutor... simples, sem significado ou significância, nome de bicho.
Desde essa tarde que, de todas as vezes que Libânia se entregava às perguntas e respostas de Francisca, aos ensinamentos dos truques de culinária ou mesmo às horas de colo e penteados dos longos cabelos de noite que Francisca gostava de trançar e decorar com brilhos e flores, que Estrela se encontrava com Tico.
O tempo foi passando, a partilha dos biscoitos de azeite com o macho rejuvenesceram o pêlo e o convite chegou: amanhã, fazemos um picnic? Trago eu os morfes, 'que sei que é dia do peixeiro passar perto de minha casa.

Continuará.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 16:06

"Olá, sou a Libânia e tu és qualquer coisa meu, ainda não sei o quê ou porquê, mas ouço o meu coração bater no teu. Ainda não estão em harmonia, como me ensinou a menina Lurdes, a professora de piano, mas ouves a melodia?"
Foram interrompidos por D. Rufina. O jardineiro poupou a criança de perguntas tontas, por lhes saber a resposta. A mãe poupou os dois dos raios e coriscos que lhe saíam dos olhos e fincou-os no chão enquanto pedia à menina que fosse saber da gatinha.
Francisca velou um sono febril da menina. Um entra e sai do quarto durante a noite e madrugada para baixar a temperatura daquela alma, não deixaram a nossa Estrela descansar.
Chegou o amanhã.
Os primeiros raios de sol trouxeram uma frescura ao corpo de Libânia. Francisca trocou lençóis, deu banho à menina e vestiu uma camisa de dormir em fino linho. A gata deitou-se na colcha e dormiu um sono grande, tão grande que não percebeu serem horas de picnicar com Tico.
Na varanda aguardava a fera amorosa. Francisca viu-o e afagou o pêlo, agora tratado a biscoitos de azeite que ela mesma cozia no forno, e disse, como se soubesse que o gato a entenderia: hoje a Estrelinha não desce. A menina está doente e a gatinha toma conta de tudo em quanto eu trato da casa. Toma uns biscoitos e volta amanhã.
O gato comeu os biscoitos e deixou as sardinhas, que roubara ao peixeiro, debaixo de uma planta. Francisca não deu conta. Às vezes, as preocupações sentimentais roubam-nos os sentidos.

No outro dia, a meio da manhã, a gata desceu e viu as sardinhas. Olhos mortiços, cheiro fétido, tripas por amanhar, mas resolveu experimentar. Na verdade, viu-as viçosas e sentiu-as aromatizadas pelo delírio da paixão.
Comeu-as. Uma ou outra espinha picaram a estreita e delicada garganta, as tripas escorreram e sujaram o pêlo e no dia seguinte a Estrela estava caída, qual estrela decadente, vomitou as entranhas: as dela e as das sardinhas.

E tu, vomitaste a sopa?
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De M.J. a 29.06.2016 às 16:25

não vomitei.
embatuquei nas palavras que queria dizer e não sei.

tão lindo, tão bom!
valha-te Deus que isto merecia mais do que uma caixa de comentários de uma tasca pelintra como esta.

maravilhoso.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 16:31

A tasca é o único sítio onde me sento e conto coisas aqui dos arrabaldes do burgo. A Êmedjay lê-me como quem me ouve. E a poucos entrego palavras assim tão sem querer mais do que um visto e lido.
(cá para nós, que nunca gostei de gente falsamente modesta, hoje a coisa correu bem).
E tudo porque a sopa estava azeda. Imagina que tinhas provado feijoada... (pratinho para me fazer trocar prioridades e que se lixem as curvas adelgaçadas)

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