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mudança

por M.J., em 12.09.17

há uns tempos recebi um comentário de alguém muito escandalizado sobre um post meu escrito há dois anos.

a minha resposta rápida foi instintiva: sarcasmo, uma piada amarela e fim da questão.

depois, fui ler e percebi, de uma forma muito clara, o que tinha ofendido a anónima que escrevia não ter comentários para o comentário que fazia:

era um post azedo, amargo até, em que eu falava sobre a estupidez do pedido de três horas diárias, não sei durante quantos anos, para amamentação.

 

li com o nariz franzido. 

não que a minha opinião tenha mudado (o que podia ter acontecido). a minha opinião mudou acerca de muitas coisas e creio que vai mudar muito mais ainda. mas neste caso em concreto não. continuo a achar - apesar da discussão já não estar em cima da mesa - que durante dois ou três anos uma mulher ter uma jornada de trabalho com menos três horas do que os seus pares - homens e mulheres - para amamentação é ridículo. e que os argumentos usados (que a amamentação não é só alimentação mas laços, investimento no futuro da criança e dar tempo à mulher para ser mãe) são muito lindos mas não são compatíveis com aquilo que uma plataforma inteira de feministas anda a clamar: igualdade de género.

 

ainda assim, não é sobre os argumentos em si de que quero falar; ou sobre a discussão em causa; ou sobre o que penso do assunto. é antes o meu franzir de nariz quando li o que escrevi: não o faria agora (o escrever, não o franzir a penca).

não só porque as palavras não se alinham hoje nos meus dedos como pedras bicudas - o que acontecia na altura - como porque não sinto a necessidade de provocar (pelo menos não na maioria dos dias). de passar uma mensagem com espetos e palavras agudas, repletas de indirectas e directas feias. 

 

não sei se é crescimento, mudança, serenidade, maturidade ou somente uma fase diferente. mas não me revi, aos dias de hoje, na pessoa que escreveu aquilo (e nem fui ler todo o resto).

parecia-me ter sido lançado ao vento por alguém muito zangado, aborrecido e cheio de espinhos.

e se hoje continuo com alguns espetos, com um feitio deus-ma-livre, com um furacão de azedume nos dedos em certos dias, na maior parte deles estou bastante acima. 

na maior parte deles olho as palavras e as horas e as pessoas e quem sou e respiro de alívio.

não há já a vontade de não acordar de manhã, em rezas e mezinhas antes de adormecer. não há o medo. não há a mochila preta debaixo da cama pronta para a fuga. e talvez seja isso - sei lá, cada vez sei menos - que me transforma as palavras e retira as pedras azedas dos dedos.

mesmo que não as mate de vez.

 

a reter cara MJ:

este blog continua a ser o expurgar de fantasmas do que te turva a alma.

mas é, cada vez mais, um cadernito de apontar as banalidades da tua vida. 

para lembrança futura. 

para não esqueceres quem foste.

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publicado às 10:20


10 comentários

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De Happy a 12.09.2017 às 12:45

Acho que é normal não nos revermos num texto escrito há tempos. Não só na forma como também no conteúdo. Se fossemos seres estáticos, mas felizmente aprendemos todos os dias, e somos influenciados todos os dias por coisas que acontecem à nossa volta.
Agora entendo claramente que digas que estás numa fase diferente da tua vida. Que o voltarias a escrever sem as farpas, sem as arestas que magoam.
Todos já pensámos algo que depois quisemos reformular. Mesmo para nós próprios.
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De Anónimo a 14.09.2017 às 08:33

Não são três horas, são duas.
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De M.J. a 14.09.2017 às 10:58

a meios que para provar a minha mudança:

https://www.publico.pt/2015/07/04/sociedade/noticia/medicos-querem-horario-reduzido-para-maes-de-criancas-ate-tres-anos-1701012

(talvez deva mudar também, tipo, sei lá, quer dizer, ler antes de comentar:
"em que eu falava sobre a estupidez do pedido de três horas diárias, não sei durante quantos anos, para amamentação.")
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De Anónimo a 14.09.2017 às 17:11

São duas horas por dia de redução de horário durante o primeiro ano para todas as mães e a partir dos primeiro ano só para as que comprove mensalmente com atestado médico que ainda amamentam.
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De M.J. a 14.09.2017 às 17:14

sim, eu sei, obrigado pelo esclarecimento.
mas do que eu falava era de algo mais antigo (e que, aliás, nem é a tónica do post):

https://www.publico.pt/2015/07/04/sociedade/noticia/medicos-querem-horario-reduzido-para-maes-de-criancas-ate-tres-anos-1701012

devo ter-me explicado mesmo mal aqui:
"...estupidez do pedido de três horas..."
"...continuo a achar - apesar da discussão já não estar em cima da mesa - ..."
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De José da Xã a 14.09.2017 às 10:05

Olá,

já não vinha aqui há algum tempo. Desculpa.
Bom quanto a esta tua reflexão e à mudança de visão das coisas só prova que cresceste. E isso só pode ser bom.
Provavelmente muitas das coisas que escrevi não as escreveria agora. E eu tenho quase sessenta anos. Faz parte da vida!
Parabéns pelo destaque.
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De Aninhas. a 14.09.2017 às 14:32

São fases da vida que todos passamos! Com o decorrer da idade, mudamos o nosso comportamento! Eu sempre eu mto explosiva, hoje estou mto mais calma, até fico ademirada onde fui arranjar está calma toda!:-). Masss não me piquem :-) prq expludo logo!:-):-).
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De Me a 14.09.2017 às 15:46

Conclusão: Qualquer bandalho(a) tem um blogue e escreve as parvoíces que lhe apetece...
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De M.J. a 14.09.2017 às 15:56

é verdade!
assim como qualquer bandalho(a) lê as parvoíces que apetecem aos outros e comenta bandalhamente as parvoíces que também lhe apetece.
não é giro, bandalho(a)?
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De Isabel a 15.09.2017 às 15:44

Pessoalmente evito sempre os meus antigos post, ou textos que já tenha escrito algum tempo. Quase sempre provoca uma sensação de desapego e não me identifico com a pessoa que escreveu aquilo. Não que as opiniões tenham mudado mas que as palavras, aquelas que eu escrevi já não me fazerem sentido. A forma como elas dançam de parágrafo em parágrafo já não ser a minha dança ou como eu as faria dançar se tivesse que reescrever.

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