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anel de curso.

por M.J., em 15.10.15

tenho o anel de curso numa gaveta das meias, a um canto. dentro de umas velhas, às estrelinhas, que conservo desde tempos de faculdade ao lado de um pijama azul celeste, de algodão, que encolheu com o tempo e me fica pela canela.

nunca concordei com a ideia de anel de curso. a mamã, num orgulho descomunal comprou-mo juntamente com os meus padrinhos. ofereceu-me no dia da benção das pastas, depois de eu assistir à missa dentro de um casaco que não me servia, porque engordara que nem um balão. 

nunca o usei.

não entendo, não entenderei jamais o conceito. é de ouro, amarelo, com a cabra de um lado, um mocho do outro e uma pedra vermelha brilhante, grande no centro. diz que simboliza o curso, de direito, tirado com suor e trabalho.

acho que simboliza apenas o pretensiosismo de quem quer mostrar um status qualquer que não se compra.

guardei-o numa caixa, pintada à mão, de porcelana, oferecida no natal por uma das senhoras da avenida, com quem via as novelas. mais tarde, numa das mudanças, perdi a caixa e releguei-o para as meias velhas que não uso e que encontrei, no mês passado quando me mudei.

um dia a mamã perguntou-me por ele, olhando para um dos meus dedos nu:

- o anel M.J.? - perguntou-me com uma nota triste  na voz.

- na gaveta das meias - respondi, a boca cheia de arroz com frango assado, na tradição dos domingos.

- mas porquê filha? - o aumento triste - sabes que vi a dete com o anel no dedo? tão lindo. uma pedrinha brilhante, as unhas arranjadas, o anel. tão bonito ter um curso.

não cuspi o frango e o arroz que me custava a descer. avancei apenas, por uma questão de educação:

- não sabia que ela continuara a estudar. onde tirou o curso?

- isso não sei, que a avó não me disse e eu não perguntei.

- ah. então e já está a trabalhar? - apenas interesse educado, a tentar evitar a birra na lembrança da ausência do meu próprio anel.

- já sim senhora. tem um belo salão.

- um salão? como um salão? - agora espanto genuíno.

- um salão ora, com cadeiras e secadores e coisas modernas. faz depilação e tudo.

- mamã, que curso tem ela?

- cabeleireiro, ora! 

- e o curso de cabeleireiro tem anel de curso? - perguntei numa estupefacção idiota, nada contra, apenas estranheza.

- tem sim senhor. e não havia de ter porquê? não é um curso como os outros? até parece que os anéis haviam de estar reservados só a quem foi a coimbra, queres ver? nem sempre é preciso ir a roma para se ver o papa. o que interessa é saber e, sobretudo, querer rezar.

 

pimbas M.J. que é para aprenderes. a mamã não quer que use o anel pelo status. quer apenas que o mundo saiba que também sabe e pode rezar, se quiser muito. 

ah as ironias da vida.

 

publicado às 09:51


17 comentários

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De Sarabudja a 15.10.2015 às 10:42

Aos meus pais dei grandes desgostos: não querer traje, não querer anel, não assistir à benção das fitas (e assistir à de uma amiga que dava valor à coisa) e passar os cinco anos do curso a dizer que ia para a escola.

Fiz o favor de fazer as cadeiras todas com notas que os deixaram cheios de orgulho que badalaram entre amigos e conhecidos. Menos mal.
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:34

menos mal. usei traje e tudo e foi porque quis, apesar de no segundo ano já não achar qualquer piada à coisa.
hoje acho que é mais do mesmo: pretensiosismo parvo mas cada é quem sabe. agora o anel não, pelo amor de deus.
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De Violinista a 15.10.2015 às 11:48

Boa resposta da mãe.
Deu uma volta diferente do que estava à espera.
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:34

foi, não foi?
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De Genny a 15.10.2015 às 11:58



Bom dia, M.J.!
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:35

bom dia genny.
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De Maria Araújo a 15.10.2015 às 12:12


Mandei fazer o meu anel de curso como eu queria.
Em vez daquela pedra grande e pirosa, o anel era em forma rectangular, com a pedra pequena no meio e brilhantes à volta, mas era discreto. E paguei-o bem pago.
Andei com ele poucos anos, no máximo três.
Ficou guardado numa caixa, dentro de uma gaveta onde tinha outras peças de ouro.
Há cerca de 3 anos, vendi todos os anéis de ouro que tinha porque os meus dedos engrossaram e já não gostava de me ver com eles alem de que só uso brincos.
O de curso foi um deles.
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:35

ao menos rendeu bom dinheiro?
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De Pandora a 15.10.2015 às 12:20

O meu tem pedra azul, diz que a menina é de Letras e Literaturas. A coruja gravada como símbolo de sabedoria. Mãezinha também o comprou, para que eu ostentasse num anel o orgulho dela em ter uma filha com curso superior, para que ela pudesse esfregar na cara dos meus avós e tios que fui a única da família a conseguir isso. Ah, o belo do curso, que me trouxe desemprego por ter habilitações a mais.
O anel jaz na sua caixinha original. O Diploma não saiu da lata, em que a Universidade onde andei o entrega.
Uso anéis porque gosto, adoro. Aquele adorno que efetivamente gosto e uso. Mas o anel de curso não é a pedra da minha sabedoria. É a pedra dos sonhos que fui obrigada a enterrar.
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:35

sem dúvida qualquer coisa, este comentário.
nem sei muito bem o que te dizer. a não ser que lamento.
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De Pandora a 15.10.2015 às 14:40

Um comentário que podia dar post
Ontem prendi-me num excerto do teu livro. Caramba pá, que tu para (d)escreveres a dor és excepcional.
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De M.J. a 15.10.2015 às 14:54

isso é porque ele me doeu tanto, e ainda dói, tem dias.
(obrigado).

faz o post. faz os posts em que te colocas nas palavras. é desses que o mundo precisa.
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De Mafalda a 08.01.2019 às 16:07

Anel de curso?
Também o vendi, ao fim de 1 ano de desemprego.
Continuo a procura
Nem o curso, (pré-bolonha), nem as pós graduações seguintes me conseguem arranjar um emprego.
Desculpem, precisava de desabafar.
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De Maria João Marques a 15.10.2015 às 12:59

As mães e os pais ás vezes têm destas coisas ....

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e agora dá aqui uma olhada