Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




antigamente é que era bom

por M.J., em 26.02.20

antigamente é que era bom, dizem pessoas no facebook.

pessoas com que convivo, pessoas com que cresci. alguns da minha idade.

uma aberração.

 

antigamente é que era bom, dizem, no tempo da outra senhora. e do senhor.

e do tempo em que andávamos todos na linha. não foi assim há tanto tempo, mas era bom.

numa nostalgia de merda que não lembra ao menino jesus.

 

silenciei uma data de gente no meu facebook.

era isso ou silenciar na vida e não posso. não dá. mas senti espasmos de vómito quando vi publicações do antigamente é que era bom.

vindas do mesmo pessoal que apanhou porradinha no lombo como se não houvesse amanhã.

que comeu pãozinho de milho com carninha gorda (tudo no porco se aproveita) ao pequeno almoço e para acompanhar um vinhinho podre adoçado com açúcar e côdeas de pão com bolor. e isso era bom, e não matava ninguém. pois então, um quilo de bolor nunca matou ninguém, de pequenino é que torce o pepino e a cachaça aquece.

e todos sabemos que não morriam miúdos há 30 ou 40 anos atrás. porque antigamente é que era bom e hoje os médicos são todos incompetentes e o estado social tira as criancinhas às mães para os matar em instituições. 

é só ver o quadro abaixo do pordata:

Capturar.PNG

antigamente é que era bom, diz o mesmo pessoal que dormiu em caminhas a ouvir os ratinhos a passar no soalho.

ai tão bom. tão puro. que saudades.

o mesmo pessoal que viu avós terem quilhões (mas mesmo muitos quilhões) de filhos porque uns quantos iriam morrer e pelo menos quatro ou cinco haviam  de sobrar para sustentar os velhos. 

 

ai que bom.

que saudades do tempinho à luz da vela, com uma fogueirita a servir de aquecimento. tão bom. o trabalho liberta e o frio dá carácter. uma maravilha. uma delícia.

 

não há racismo, dizem no facebook.

o preto estava a ser pago para jogar, se ele é preto por que é que não pode ser chamado de preto?

é isso e os gordos.

e os cancerosos: se tem cancro por que é que não pode ser chamado de cancroso? ou se não tem dentes por que é que não pode ser chamado de desdentado?

isso não. que ninguém escolhe ter cancro. nem não ter dentes. só preto. preto, sim, escolhe. preto é preto.

que lindo.

 

que a culpa disto tudo é dos refugiados, dizem. fiquem lá na terra deles. a não ser que sejam portugueses na terra dos chineses potencialmente infetados. aí não. aí fiquem na terra dos outros que não queremos cá bicheza. 

ah! porque o vírus que nos vai aniquilar a todos veio dos chineses e a eles pertence. cristina ferreira dixit. e se cristina ferreira dixit o mundo para, escuta e olha.

uma aberração.

 

antigamente é que era bom, dizem compinchas meus, que passaram por infâncias de merda ainda não há tanto tempo.

era bom chegarem da escola, num autocarro a cair de podre e irem tomar conta das vacas, arrumar os porcos, tirar leite à animalada para ir vender por tusta e meia ao posto. era isso e não ter internet para despejar merda.

ca bom.

e era bom porque não havia comissões de proteção de menores, essas que querem tirar filhos aos pais em vez de os ajudar.  

se as comissões se preocupassem dar dinheiro aos pais em vez de lhes tirar os filhos... isso sim, era de valor. toda a gente sabe que se há coisa que o estado anda aí a fazer é arrancar miúdos sadios, saudáveis, limpinhos e bem tratados aos pais.

além de que, também é mundialmente sabido, se injetarmos dinheiro na carteira de pais que nem sequer banho dão aos miúdos a primeira coisa que vão fazer é comprar sabão. 

isso e batatas. 

 

os grupos das mães na sanita do mundo chamada facebook são qualquer coisa delirante.

já li de tudo, juro que já:

mulheres mães de miúdos prematuros, que nunca pagaram uma terapia do bolso, foram a este mundo e o outro fazer tratamento à pala do estado, recebem apoios monetários do estado, põem-nos na creche por tuta e meia mas queixam-se do estado social. [mas antigamente é que era bom. o puto morria e resolvia-se logo o assunto].

mulheres a queixarem-se dos hospitais, dos médicos - esses incompetentes que não ouvem as mães que sabem o que é bom - mas que entopem as urgências porque o puto tem 37.8 de febre:

- e mandou-me o puto embora sem sequer lhe passar um anitbioticozinho. 

não é preciso gente, encharquem-lhe com leite materno para a testa que passa (isso e enfiar leite materno nos ouvidos para curar otites. juro que li).

mulheres a queixarem-se de outras mulheres que recebem o rendimento social de inserção ao mesmo tempo que se queixam do estado que não ajuda as mulheres dando-lhes dinheiro em vez de lhe tirar os filhos.

há cada coisa que só visto, de outra forma não se acredita.

agora li que andam a fazer stock por causa do vírus que nos vai matar a todos: enlatados com força na despensa. a criançada há-de crescer à força da bela salsicha.

se não morre da doença, morre da cura.

uma beleza.

 

silenciei meio mundo no facebook, dizia eu, até perceber que a melhor solução é silenciar-me a mim própria, abrir as janelas e bater com a porta. aquilo não traz saúde a ninguém.

sobretudo quando vemos gente, que até estimávamos, a partilhar coisas hediondas, do antigamente é que era bom

no mesmo antigamente onde as condições eram merdosas.

onde as mulheres eram analfabetas (e os homens, vá) e ficavam em casa a apanhar porradinha no lombo juntamente com o ranchedo de filhos.

mas tal não era problemático porque as comissões não tiravam os filhos aos pais. mesmo que alguns tivessem dado a mão esquerda para serem retirados.

apanhei muita porradinha e ainda estou aqui, dizem os entendidos. 

e claramente que não lhe causou problema nenhum se acham que se deve continuar a fazer.

isso e vacinas: essas coisas horríveis, dizem.

há uns dias li uma senhora dizer que já não ía dar a rotarix ao filho porque, e cito, aquilo só serve para tirar dinheiro da carteira dos pais. e aquilo do rataqualquer coisa nem sequer é preciso porque afinal uma diarreia nunca matou ninguém.

tão não?

é diarreias e pneumonias, nunca mataram ninguém que fosse neste mundinho. 

 

a nostalgia do antigamente mata-me.

nunca estivemos tão bem mas gritamos a rodos que não. 

talvez fosse giro uma máquina do tempo levar os aficionados do antigamente até lá obrigando-os a passar um mês a comer uma sardinha para dez, a apanhar porradinha na lombeira para ganhar carácter, ir trabalhar para o campo e para as fábricas depois do exame da quarta classe, quando ainda mal conseguiam com um garrafão de cinco litros, e verem gente morrer sem assistência, sem ajuda e sem estado social porque sejamos francos, isso não era preciso no antigamente bom.

 

foda-se. 

publicado às 13:16


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Raven a 10.03.2020 às 12:40

Acabei com uma amizade de anos justamente por isso... a moça (temos 30 anos) afirmava a boca cheia que o Salazar é que era! Que isto antes do 25 de abril é que era top... mas nós temos lá idade para saber isso?!? Eu felizmente sei lá se era... segundo os meus avós, não. Não era! E que mais ridiculo pode ser uma mulher jovem, universitária, defender tempos nos quais ela nem meteria o nariz de fora se não fosse para ir à missa?

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada