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ontem os meus vizinhos do lado discutiram parte da noite. 

eu estava numa reunião via skype e, quando dei conta, comecei a corar com os impropérios que se ouviam do outro lado. a voz do homem ressoava as paredes, queimava os corredores e saía do seu espaço para o prédio.

as mimosices com que bombardeava a esposa eram incontáveis e acabou numa nota final, ao jeito de climax num histerismo agudo "põe-te daqui para fora".

no silêncio que a seguir se propagou não percebi se a senhora tinha acedido aos desejos dele, ou não.

 

não foi a primeira vez.

nas escadas, sempre que os encontro, são bonitos e sedosos. encostam-se e sorriem - mesmo que as palavras "põe-te daqui para fora" tenham soado no dia anterior - e passam por nós como quem vai de lua de mel.

quando comentei isto com uma amiga, ela que sabe dos meus silêncios de amuo, que já me viu engolir em seco as palavras que não digo para as arrefecer e as atirar mais calmas e ponderadas - ou mais duras e secas - disse-me que há coisas que se perdoam por serem ditas no calor do momento.

 

o tanas.

que há coisas e coisas, é verdade, mas o calor do momento tem sido usado, de há uns tempos para cá, como justificativo de tudo.

atiram-se as maiores barbaridades à cara do Outro, ultrapassa-se o limite do respeito, pega-se na merdinha que se sabe magoar pelo conhecimento integral de quem se partilha a cama, arremessam-se palavras como tijolos, sem filtros, sem considerações e depois não tem mal porque foi "no calor do momento".

como se o raio do calor do momento fosse justificativo de qualquer coisa.

como se o alívio do despejar palavras, só porque sim, só porque estou nervoso e não queria dizer, servisse como bálsamo reparador da ferida que se abriu.

repito: o tanas meus senhores, o tanas!

se o calor do momento te queima a língua engole dois cubos de gelo.

se o calor do momento te justifica a dizer toda a porcaria que queres, só porque sim, só porque é desculpável, experimenta lá apanhar com um quilo de batatas a ferver, também elas quentes do momento, e vê se é bom.

 

desde quando é que nervos, ansiedades, histerismos servem para justificar as porcarias que vomitamos?

desde quando a ideia de que "ao menos disse e acalmou" é boa? como? há palavras de primeira categoria e de segunda? há palavras que em certos momentos deixam de cheirar a cocó e passam a cheirar a flores?

ou chamar o chefe de cabrão é mau por não ser no calor do momento mas, apelidar a esposa de puta já é desculpável porque estava quente?

se estás quente toma um banho gelado, que passa.

 

não entendo nem vou entender jamais a agressão verbal como justificativa, seja do que for. e não são só os palavrões. é também o que se atira com o objectivo de magoar. que se atira enquanto alívio do próprio mas que mata um bocadinho o outro:

a cobardia de dizer certas palavras é incomensuravelmente maior do que a cobardia de as guardar para dizer no momento em que foram pesadas para não doerem. 

 

o calor do momento não é mais do que a justificação arranjada para a própria falta de educação e de consideração pelo próximo.

de que vale amar tanto o outro se se pegam nas palavras e se arremessam como tijolos até abrir feridas?

mais vale, nesse caso, amar um pouco menos. 

 

tu não amas no calor do momento, pois não?

 

 

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se quiseres ler mais sobre este tema já escrevi sobre ele aqui 

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publicado às 13:30


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