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tens uma mão cheia de sonhos mas, por ser mulher, estás cinquenta passos atrás.

 

 

és tu que tens de engravidar e passar por nove meses de tortura (agora até estão na moda os posts acerca do que não te contaram sobre a coisa e que, ao contrário da última tendência que dizia que estar grávida eram só unicórnios, relatam horrores e torturas feias).

os homens, mesmo os presentes, não terão de ter mamas em sangue, nem levantar-se dez vezes por noite para servir de vaca leiteira.

és tu que ficas impulsionada, pelas hormonas, a te deixares ficar para trás em função da vida que deste.

és tu que te sentes altamente responsável pela organização, por manteres a casa, o lar e o diabo a quatro à deriva, porque és mulher e porque às vezes é inato e porque, porra, digam o que disserem, a maior parte de nós ainda é influenciada pela ideia da sociedade.

 

e um dia, olha que bem, acordas e o teu filho cresceu e tu tens mais rugas e o teu marido, sempre a tempo de recomeçar o que tu perdeste com a idade - a procriação -  deixou-te por outra de mamas mais firmes, menos cansada, menos velha, menos triste.

e se quiseres recomeçar estás mais amargurada, mais velha, mais desfeita, mais seca.

mais descrente.

e tudo o que resta é um ninho vazio, umas mamas descaídas e visitas ocasionais no natal e na páscoa para umas selfies de família feliz. 


olha que bela merda, não é?


morro de medo de ter filhos por este cenário.

(ponho as duas mãos no fogo de que comigo será diferente, mas não puseram todas?)


não tenho mesmo apetência para mártir.

(alguém tem?

a martirizar-me - como sempre foi - é pelas dores que são minhas e não controlo. 

que grandessíssima egoísta!

(é mesmo?)

publicado às 10:30


5 comentários

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De Alexandra Martins a 28.07.2017 às 12:28

Wow, até fiquei meio abananada com este comentário. Não porque os medos desta pessoa não sejam válidos, mas porque é o que se chama "sofrer por antecipação". A primeira coisa que a mulher deve pensar quando pensa em filhos é: quero tê-los ou não? Por mim, por que quero, porque me vou sentir mais realizada sendo mãe. Se a resposta for sim, então podem surgir outras questões, mas nunca nada será garantido. É como aceitar um novo emprego: até nos podem dizer maravilhas, mas não há trabalho sem tarefas chatas lá pelo meio. Podemos dar-nos bem ou não, mas só saberemos depois de já lá estarmos no meio.
Sim, é claro que do emprego podemos desistir e dos filhos não, mas também não quer dizer que tenhamos de nos sacrificar todas por eles como se de repente o nosso bem estar e a nossa felicidade deixassem de importar. Calma! Nós continuamos a ser importantes. E se não queremos acordar de noite para dar de mamar, então que vá lá o pai com o biberão e fica a coisa resolvida. Se não queremos ficar em casa e estagnar, então põe-se a criança na creche e volta-se ao trabalho. Se não queremos ser as responsáveis pela organização, então dividamos tudo com a pessoa que está connosco, que a casa e a criança afinal são dos dois. Que se foda a sociedade! Podemos ser mulheres, profissionais e mães. O que não podemos ser é mártires da maternidade que fazem tudo pelos filhos mas vivem vidas miseráveis e infelizes e um dia dão conta de que o filho cresceu, o casamento perdeu-se e tudo o que ficou foram coisas que continuam a ser apenas coisas e temos de as arrumar na mesma.
Os nossos filhos vão gostar igualmente de nós e admirar-nos muito mais se nos virem felizes e a tomar decisões que nos fazem felizes e mantêm o equilíbrio familiar.
Sei que nada é assim tão linear, há muitas fases e muitos altos e baixos, mas acredito mesmo que os cenários dantescos se podem evitar se, quando percebemos que estamos a seguir por um caminho que não queremos, pusermos as mãos à parede e arrepiarmos caminho. Afinal como digo sempre: mamã feliz, bebé feliz. E isso é tudo o que se quer :)
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De M.J. a 28.07.2017 às 12:55

hoje não é um bom dia porque não tenho o tempo que queria para dedicar ao blog. mas mesmo assim, não posso evitar responder ao teu comentário devido a esta afirmação:

" A primeira coisa que a mulher deve pensar quando pensa em filhos é: quero tê-los ou não."
desde logo avanças com o que é ou não é, que deve ser feito ou não. e as coisas não são nem podem ser assim. cada um pensa aquilo que pode, que quer, que consegue. não há uma biblia ou um manual que indique como regra o que se deve ou não pensar. sobretudo, porque por exemplo, eu não concordo que essa seja a primeira pergunta que EU - não sei os outros - deva fazer.
antes disso, eu e muita gente poderá ter que perguntar-se se pode: se tem as condições fisicas, emocionais, monetárias e afins para o efeito. querer não é a mesma coisa que poder, ainda que neste caso pareça que sim porque qualquer mulher saudável pode.
como se diz na minha terra "qualquer um pode parir. rico ou pobre. e fazê-los até é bom".

este post é um post de medos pessoais tendo em conta o que observo. se observo só o mais negro? não. mas se é sobre o mais negro que questiono? sim. porque o resto não é preciso. entra olhos dentro.
não é sofrer por antecipação. é um texto de constatação do que vou vendo. exagerado, tal como tantos outros que por aqui andam, mas só isso.
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De Alexandra Martins a 31.07.2017 às 11:56

M.J., longe de mim menosprezar os receios e medos pessoais dos outros. Cada um sabe da sua vida e todas as nossas ações têm consequências. Mas hoje em dia vê-se muitas mártires da maternidade e isso incomoda-me, confesso.
Podemos debater mais sobre isso, mas queria responder-te a outra coisa: na parque que aos filhos diz respeito, discordo de ti. Há acidentes, há gravidezes que se descobrem tarde de mais para interromper, há mil e um cenários pretos e cinzentos antes de se engravidar e depois também. Contudo, à parte a altura em que a vida nos tira a opção de escolha e nos dá um presente (envenenado ou não), continuo a afirmar que a primeira decisão tem de ser se queres ou não ter filhos. Porque se a mulher (e o homem, mas neste caso vamos focar-nos na mulher) não sentir qualquer desejo de ser mãe, de procriar e de criar uma prole, então todas as outras dúvidas ficam de lado. Agora, claro que pode haver indecisão, a pessoa pode não saber se quer ou não ter filhos. E mesmo que queira, pode pesar uma série de outras coisas, dúvidas perfeitamente válidas quando se pensa numa vida que dependerá de nós. A pessoa pode pensar: eu não quero ter filhos... agora, enquanto estiver nesta situação, não quero ter filhos com esta pessoa, neste emprego, enquanto estiver com esta doença, etc. etc. Mas também há as pessoas que pensam: eu não quero ter filhos. Ponto final. Sem justificações. E era dessas que eu falava.
Depois há todas as outras, que querem, ou acham que podem vir a querer com as condições certas, a pessoa certa, a idade certa. E tantas dessas que querem e não conseguem e não podem? Infelizmente, querer não é mesmo o mesmo que poder, sei-o bem. Mas antes de saber se consigo escalar uma montanha, tenho de ter a mínima vontade para a escalar (a menos que a vida me largue lá no meio e eu não tenha outra opção, que remédio).
Era esta a diferença que eu queria marcar no meu comentário.
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De M.J. a 31.07.2017 às 13:06

entendo.
desculpa se fui bruta no comentário. aquela sexta feira não estava a ser um grande dia e às vezes as palavras escritas têm uma dimensão que não teriam se faladas e acompanhadas de expressão facial.

quanto ao resto... bem, discordo concordando. continuo a achar que não vale de nada querer se não se pode. ouço muitas vezes coisas como " se vais esperar o momento ideal ele não chega" e "podemos quando quisermos" e por aí adiante.
não concordo.
creio que uma decisão tão importante como essa não pode ser baseada no querer mas sim, completamente, no poder. posso mentalmente? posso fisicamente? posso financeiramente? tenho as condições minimas que mo permitem? de que vale querer se não posso?
talvez seja um exagero, bem sei, mas não consigo pensar de outra forma.

o exemplo que vou dar agora deve ser um em milhares e é a minha tendência de só ver o negro, mas serve também (ainda que, cada vez menos ache que os exemplos são sinónimos seja do que for ou sirvam para grande coisa no que diz respeito às vidas de cada um):
num grupo de facebook uma miuda - era uma miuda - dizia que ia ser mãe e estava muito feliz por isso. tinha sido uma coisa decidida porque sempre quisera ter um filho. o problema? vivia numa casa sem as minimas condições: não tinha um fogão ou frigorifico e segundo ela, ninguém tinha nada a ver com isso a não ser a sua "assistente social".
aquela alminha quisera muito ter filhos e tinha. mas não podia.

existem tantos seres humanos no mundo completamente disfuncionais por infâncias de merda, pais incapazes de ser pais, gente que pensa que parir é fácil porque se pode que creio que o mais importante não é querer: é poder.
(mas também existem outros tantos idiotas parvos como eu que só insistem em ver o lado negro pelo que, pronto, não sei :D ).

olha, enfim, seja o que for ;)
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De Alexandra Martins a 31.07.2017 às 15:40

Não foste bruta, nada disso.
E em relação ao resto, na verdade estamos a falar de alhos e bugalhos, pois os dois pólos existem e são verdadeiros. Eu olhei pelo lado dos que não querendo se sentem pressionados a isso, tu olhaste pelo dos que querendo, nem pensam nas condições que têm. E isso é outro flagelo, na verdade. Sou muito da opinião de que um filho não precisa de ter tudo de marca e prefiro comprar-lhes ténis na feira e ter dois filhos (que ainda não tenho). Apesar desta minha opinião, e de querer desde sempre ser mãe jovem e ter mais do que um filho, só fui mãe pela primeira vez aos 28 e não faz ainda parte dos planos vir um segundo. Porque posso não lhes dar coisas de marca (que dou quando posso, claro), mas tenho de dar as condições básicas: uma casa decente, transporte adequado, todos os cuidados de saúde, alimentação equilibrada, condições para o ter na creche... E neste momento, não dá para ter dois. Há-de dar. Mas quando se pensa em ter um filho, temos de pensar que, apesar de o nosso desejo ser sempre egoísta - tenho um filho porque quero -, o ato em si tem de ser o menos egoísta possível - tenho um filho para lhe poder dar vida e tudo o que isso implica. É um equilíbrio difícil - e que não implica a anulação da mulher, nem ficar a presa a decisões que a deixam infeliz (isso é outra coisa).
A mim parece-me que uma mulher que pensa: "posso mentalmente? posso fisicamente? posso financeiramente? tenho as condições minimas que mo permitem?" já está a ser uma boa mãe. Porque está a pôr o bem estar do seu filho que não existe à frente do seu desejo egoísta. E ser mãe não é mais do que isso. Mesmo quando a resposta é não, não posso (neste momento, agora, nunca). É diferente de não desejar ter filhos nunca. Mas é igualmente válido.

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