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banalidades

por M.J., em 15.09.17

por mais que me levante cedo não consigo ser pessoa antes de passar, no mínimo, uma hora desde que acordei.

é verdade.

não tenho fome, arrasto-me pela casa e todo o meu corpo grita que devia voltar para a cama, desde os olhos inchados como dois balões, os braços que me pesam, a cabeça que teima em tombar.

deixo, por isso, que passe algum tempo até conseguir raciocinar.

abro as janelas e olho a vida invariavelmente de sol nos últimos meses. rego as plantas da cozinha mesmo que elas gritem que estão inundadas de água. vejo a meteorologia numa aplicação do telemóvel que erra mais do que acerta. abro a agenda e percebo as coisitas mil que tenho de fazer. 

uma hora depois estou mais ou menos pronta para começar a ser. 

 

o problema é que a vida não se compadece com este meu atraso matinal.

às vezes há telefonemas ainda eu estou a coçar os olhos. atendo tentando manter uma voz clara enquanto conto os pássaros das árvores em frente. discuto questões importantes no meio de um café ou outro, muito quente que inunda a cozinha de um odor enérgico e enjooa as plantas, de pijama e chinelo no pé.

rogo pragas mentalmente ao forçar do meu acordar, tão lento, tão vagaroso. 

 

quando era miúda levantava-me antes das sete e apanhava o autocarro escolar para quase quarenta minutos de viagem entre a serra. em dias de geada acordava ainda antes de estar acordada e não havia a necessidade de me arrastar pelas divisões da casa como uma velha já morta. comia pão com manteiga e água castanha com cevada. e quando era mesmo miúda ia com a avó tirar leite à vaca que bebia, depois já em casa, por uma caneca de latão.

e não havia plantas enojadas com o cheiro da cafeína.

nem estudos a condenar a lactose.

só a vaca pinta e a avó a dar-me a melhor parte do leite. 

 

o problema minha cara, constato enquanto vejo sair os vizinhos, é que não adormecias às duas da manhã com a barriga cheia de porcarias da internet, vistas num telemóvel em frente aos olhos. ias para a cama às dez, depois de meia novela da noite e dormias como uma pedra, sem interrupção nem do carro do padeiro às quatro da manhã.

e pensar que disse, tantas vezes, perante um amuo na hora de dormir:

"quando for grande!"

 

quando fores grande arrastas-te pelas divisões achando que estás velha e que precisavas da cama da tua infância e das mãos da tua mãe a aconchegar-te os cobertores antes de dormir. 

oh vai ver ali:

publicado às 11:00


2 comentários

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De Ana a 15.09.2017 às 11:14

Tão bom M.J. Tão bom.
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De M.J. a 18.09.2017 às 14:35

é dos teus olhos.

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