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banalidades

por M.J., em 11.02.19

afundei-me em trabalho porque foi a maneira mais fácil de me provar que nada tinha mudado embora nada volte a ser o que era e eu não possa voltar a fazer o que fazia. afundei-me em mil compromissos, todos muito juntos, fiquei sem horas para dormir, para ler, para ver tv, para caminhar pelas ruas do bairro porque só dessa forma me é possível não pensar. assumo: tenho compromissos que não posso falhar e nada mais interessa, quem eu sou não interessa, o que sinto não interessa. que é isso que sinto há uns tempos. eu não sou eu e nada do que sinto vale um pataco furado. os meus desejos, anseios, medos, sonhos, vontades são colocados numa espécie de segundo plano, para tudo e todos inclusive para mim própria. e sempre que o sinto e percebo que não voltarei a ser eu, por mim, eu enquanto eu, só por mim, é como se me rasgassem o peito e tudo o que pensei ter enterrado há anos, num poço muito fundo, completamente ultrapassado, viesse a correr, numa espécie de avalanche de lama, inundando-me até não conseguir pensar, dormir, comer, ser ou fazer algo que não seja honrar compromissos. 

sei, com toda a força do que sou, que a única coisa que me mantém à tona nos últimos dias é a certeza de que assumi algo e vou levá-lo até ao fim. mesmo que uma parte de mim fique para trás e nada, nestes dias, me faça reconhecer quem sou. e tudo me aponte para uma direção contrária aquela que um dia planeei para mim. 

fazes a tua cama, deitas-te nela, dizia-me a avó, sentada na máquina de costura enquanto eu envolvia bonecas com restos de tecidos, em forma de vestido, e pensava nos livros todos que ia ler, nos sítios todos que ia visitar, nas pessoas que iria amar e na vida que seria minha, numa espécie de fúria por conquistar, mal saísse daquele lugar que, achava eu, me cortava as asas e impedia de ser maior.mal sabia eu que, de livre vontade, haveria um dia de me enjaular e impedir-me, de uma vez para sempre, de ser o que achava que queria ser. porque na verdade só achava. só achei. só acho. e quando não sabemos quem somos, o que queremos e para onde devemos ir, arriscamo-nos, no meio desse achar, a nunca nos encontrarmos, enjaulados na incerteza do que seria e não é.

estou cansada. 

mas não há um compromisso que não honre ou que deixe ficar para trás, no meio do cansaço que me consome. 

 

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publicado às 17:40


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