Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




banalidades

por M.J., em 01.07.16

talvez por ter amanhecido cinzento deixei-me molengar por entre os lençóis de manhã. dei conta dos vizinhos saírem, do cão ganir até a porta da rua bater e da adolescente em férias ir fumar na varanda, às escondidas, a persiana a abrir lentamente, o cheiro de tabaco dos outros dias a subir até ao meu quarto.

engraçado.

quando finalmente me levantei e cumpri a rotina diária, café numa mão, tablet na outra, e-mails lidos, agenda actualizada, percebi que, pela primeira vez desde que regressei de lua de mel, não estou atulhada em trabalho e posso dar-me ao luxo de tirar este dia.

para mim.

o dia inteiro.

lavo a chávena do café na pia e fico na varanda uns minutos a ver os cedros parados erguidos ao céu. há uma pequena melancolia que aperta mesmo aquela zona do peito que nunca conseguimos identificar. crio listas mentais de todas as coisinhas que tenho de fazer e percebo que o trabalho liberta a alma de dores, na certeza que somos precisos e importantes na vida.

uma consolação dos dias cinzentos.

é sexta.

antigamente na sexta de manhã sabia de antemão o que ia fazer no fim de semana. houve um tempo louco em que saltava de vida em vida, com ar sadio e divertido. as sextas feiras tinham jantares com amigos, dos quais não ficou um para amostra, com álcool à mistura. não vale a pena falarmos do que se misturava mais. acabávamos a noite num bar ao lado de minha casa a falar das mil coisas do mundo, em discussões atrozes que acabavam com tira teimas na wikipédia.

outras vezes acabavam na praça, com outras pessoas, onde o chafariz rodava ao sabor do álcool e os meus braços tinham amostras do que a falta de controlo poderia fazer.

ainda têm. nem no casamento as consegui esconder, ali, bem presentes, como tatuagem eterna.

agora as sextas têm um ar caseiro.

optamos, na certeza de que os laços facilmente se quebram, o rapaz estupefacto "acreditas? estavam juntos há dezasseis anos e ele diz-lhe assim, de um dia para o outro, que não gosta dela e quer acabar a vida que construíram?", um ar de dúvida e eu a saber que sim, é tão possível, os laços partem-se, criam-se novos nós e as pessoas acabam por procurar nas outras o que não encontram em si, nada mais normal, a explicar-lhe que sim, que ninguém deve ficar por ninguém, muito menos pelos filhos e que não, não foi de um dia para o outro, possivelmente a coisa ia mal, o afastamento, os estranhos que se tornam, dois corpos que não partilham mais nada que não os mesmos lençóis e o ar de descrença dele, que os compromissos são para a vida, que as juras devem ser respeitadas e não calcadas, olhando para mim, uma ligeira dúvida no sobrolho, serias capaz?

dizia eu que no medo disso tudo optamos por sextas integrais de nós dois. sem internet ou amigos. apenas o jantar do que mais gostamos, o sofá ou a saída, a conversa que se perdeu durante a semana. 

havia tempos em que os meus fins de tarde de sexta feira eram passados a escolher roupa, arranjar as unhas, hidratar o cabelo e fazer planos do quanto era possível controlar.

hoje são de volta dos tachos, do filme a ver e de todas as pequenas coisas que quero contar, esquecidas nas horas dos dias da semana.

não me digam que a vida não muda!

oh vai ver ali:

publicado às 11:28


1 comentário

Imagem de perfil

De Gaffe a 01.07.2016 às 11:41

Tão lindo!
És tão linda.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada