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vou mudar de casa. de cidade. de sitio. de pouso. já fui avançando a novidade, aí num banalidades qualquer, mas não tenho a pretensão de achar que vocemecês lêem todas as porcarias que escrevo. seja como for soube da confirmação da coisa numa noite particularmente bonita, quando saímos para ir ver estrelas e me foi dito, de um só fôlego, que pronto, emprego novo, proposta nova, necessidade de mudança.

uma pessoa põe uma anilha no dedo e depois, quando dá conta, tem de pegar em malas e bagagens e abandonar a cidade onde se sente mais em casa que na casa onde nasceu.

seja feita a nossa vontade.

como a cidade para onde vou não é de todo em todo desconhecida, respirei fundo e decidi que antes preferia levar com um gato morto nas trombas, de decesso de cinco dias, do que ir para o centro. sou uma mulher adulta. não tenho idade para ver vomitados à porta, kizomba mix no andar de baixo, estudantes aos gritos de coimbra é deles, serenatas desafinadas de mulheres embriagadas. não me apetece, pronto. uma pessoa já nem achou piada a isso quando lá esteve envolvida, quanto mais agora, que quer sopas e mantas e ver passar os dias pela janela, na tranquilidade das horas.

posto isso, numa solarenga sexta feira, em que o a brisa suave nos batia nas trombas, aí vamos nós bater às portas das imobiliárias da capital estudantil. confesso que ainda nem entrara na cidade e já um sentimento de claustrofobia me começou a invadir. respirei fundo. que caralho. quando saí de lá chorei baba e ranho a dizer que nunca mais encontraria um sitio tão bom e agora é este drama de mudança?

recompus-me. quando entramos na cidade percebemos que, na atrapalhação, nenhum de nós se lembrara de ver onde se situavam as imobiliárias pelo que a primeira hora foi dedicada a largos passeios de carro pelo sitio na procura de qualquer uma. fiquei completamente deliciada com a paisagem.

a primeira imobiliária, atendendo ao orçamento e à localização deu-nos duas opções. duas meus senhores. uma cidade cosmopolita, cheia de gente e agitação, tinha uma das imobiliárias mais conhecidas a dar-me duas opções de arrendamento. acenei com força e passei às fotos. pois que sim, eram óptimas opções: a primeira casa parecia adubada de ratos. ah e tal, que ali viveram estudantes, mas vai ser tudo pintado. abanei a cabeça. aquilo não precisava de tinta. tinha necessidade era de diluente e um fósforo. passemos à próxima, pedi, num fiozinho de voz. pois que passamos: um quarto, uma cagadeira e uma cozinha com azulejos a lembrar pássaros a suicidarem-se. gostei muito mas decidi recusar com pena na voz.

foda-se isto.

não nos deixando desanimar, depois de muitos salamaleques passamos a outra imobiliária. desta vez fomos atendidos por um moço com as trombas repletas de borbulhas (aquilo mais parecia bexigas) que nos lamentou o facto de não "fazer" a zona que queríamos. mesmo assim, muito solícito, apresentou-nos alternativas. sentámo-nos. a tecnologia era de ponta. víamos as fotos das casas num ecrã gigante em frente. localização no mapa e tudo. mais duas opções. sim senhor, a loucura. mais duas opções.

que fartazana. 

a primeira casa era exactamente no sitio que eu não queria: centro de coimbra, ali perto da maternidade, um saltinho à universidade. casa top, repetiu o moço, varanda gigante, sabe como é, vidro duplo, uma pessoa sente-se realmente em casa. o preço? um absurdo meus senhores, por oitenta metros quadrados. é que é novo, repetia incessantemente.

o moço, talvez por pena do rapaz das borbulhas, acedeu a ir visitar. nesta altura eu tinha umas trombas que me desciam perto dos tornozelos. passara-se uma manhã inteira, haviam-me sido apresentadas quatro casas e ia visitar uma na qual não mantinha o mínimo interesse mas que era top (significasse isso o que significasse, que eu não sabia). 

não era top: uma minúscula cozinha, uma sala ainda mais pequena e um quarto ocupado integralmente por uma cama descomunal. todo o apartamento se abria numa varanda, essa sim, fantástica. era, não posso negar, uma bonita varanda, do tamanho do apartamento, larga e grossa com uma vista desafogada sobre a cidade.

a questão é que não quero pagar para viver numa varanda. tenho alergia a chuva.

chateada com aquela merda acabei por murmurar, de voz afiada, que sim, ia aceitar a coisa, mudava a cama para a varanda, envidraçava-a e fazia ali mesmo uma marquise, com uma divisão pelo meio. o rapaz das bexigas em pânico, muito atabalhoadamente, disse-me logo, a meia voz que não podia alterar a fachada do prédio. novo, já viu?, e muito menos mudar a cama.

para tentar desculpar-me o moço disse ao rapaz atrapalhado que eu era advogada e sabia bem disso (da marquise, não da cama), que estava apenas na galhofa.

a partir desse momento o entusiasmo do outro desceu muito.

para finalizar, já a deitar fumo por tudo o que era possível, depois de um almoço em celas em que, na imobiliária de referência desse local nem nos deixaram sentar dizendo que não tinham interesse em fazer arrendamentos, fomos a uma terceira do lado oposto da cidade. quem nos atendeu foi um homem calvo, com ar enfadado de frete. não havia o caralho de um monitor com umas fotografias desfocadas que nos pudesse mostrar. nada. sentou-se numa cadeira enxovalhada, em frente a uma secretária, pegou numas folhecas e pôs-se a disparar coisas. ah, esse local? isso é péssimo, fora da cidade. o que vocês querem é um sétimo andar ali numa das torres em frente.

olhei-o ponderando se o mandava para a puta que o pariu ou para o caralho. queria tanto viver numa torre, enclausurada, num décimo andar em que se ouvem os peidos do vizinho do primeiro, como enforcar-me na ponte pedonal do sítio. talvez até estivesse mais aberta a esta última possibilidade. o homem continuou a disparatar. como eu revirava os olhos, o moço disse-lhe que enfim, não estávamos a querer viver no centro, que não éramos estudantes. talvez por pomposidade disse mesmo as nossas profissões. valeu-lhe de muito. o homem olhou-me nas trombas e fez questão de ressalvar, com todas as letras, que não gostava de arrendar apartamentos a advogados, que tinham a mania que sabiam tudo e que uma vez mesmo, pusera um em tribunal e ainda lhe ganhara uma indemnização. via-se assim a felicidade dele naquelas palavras: era como derrotar um inimigo na própria casa do inimigo. eu era o inimigo e nem dissera uma frase completa.

mandei-o foder mentalmente e afirmei, pondo termo à conversa, que não estava interessada em nada. anotei a ligeira ameaça de processo na cabeça e virei costas. chegamos a casa tarde, desanimados, em silêncio, e eu acabei por passar a noite agarrada à minha cama, dizendo à almofada que me recusava a sair daqui. só quando ouvi um ronco mais forte do moço (ele não ronca, canta ópera) é que concedi, enfim, em segui-lo, que isto uma pessoa não ama apenas quando o mundo corre em porshes. também ama quando tem de fazer uma viagem longa num renault cinco com as molas do banco de passageiro partidas.

o que interessa, acabei por murmurar já meia a dormir, não é o caralho do carro onde faço a viagem, mas a pessoa que a conduz. 

mesmo que, por este andar, acabe a dormir debaixo de uma ponte, cantando serenatas à lua acompanhadas de vinho carrascão.

publicado às 10:26


2 comentários

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De nice a 18.08.2015 às 16:38

Como eu te percebo. Ando a tentar mudar de casa há um ano e ainda não consegui. É verdade que a minha procura não é muito exaustiva, mas também é verdade que não aparece nada de jeito. Os bons estão todos para venda. Arrendar que é bom, nem vê-los.
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De M.J. a 18.08.2015 às 20:42

iep. o pessoal quer vender, arrendar são as sobras. é que há cada coisa que minha santa ambrósia.

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