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confeisho a god

por M.J., em 07.03.17

marble_champion-large.jpge então já sabem dizer as cores?

voz suave de menina ainda que os cabelos brancos a lembrassem da idade, saia casaco da mesma cor, sapatos resistentes de homem, sempre que nos encontrava a menina milinha perguntava-nos coisas e nós - bem ensinados e crentes - respondíamos fosse verão ou inverno, houvesse chuva nos chapéus grossos de plástico,

olha que não partas o guarda-chuva que não te compro mais nenhum,

ou calor abrasador serrano, em dias eternos de verão.

 

 

e então, já sabem dizer os números?

uma curiosidade quase infantil, na procura de quem conversar, mesmo que a conversa fosse com quatro miúdos pequenos, alinhados e carregados, vindos da escola primária com grandes mochilas aos ombros, pão na mão esquecido de ser comido durante o dia,

olha que tu come o que te mando, que aqui em casa não há dinheiro para estragar,

e toda uma certeza de quem sabe que a vida se moldará aos seus pés, ainda que a vida fosse só aquelas casas perdidas, a escola no cimo pequena e branca, com duas salas enormes e duas casas de banho na rua, na entrada, 

posso ir fazer xixi, senhora professora? 

a espera da resposta, pernas a tremer, só se pedia quando a vontade era mesmo muita, na vergonha dessa intimidade,

podes pois, mas não se diz assim. repete comigo: a senhora professora dá licença que vá à casinha?

e depois uma corrida até à casa de banho feminina ou masculina com uma sanita ao meio e uma porta com um fecho.

sem lavatório. 

 

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e então, já sabem dizer os dias da semana?

e nós, na ida para casa, desertos do dia que passara em mais brincadeiras do que estudo, o grande cruzeiro ao centro, a árvore onde nos empoleirávamos, o lago ao fundo com girinos que pescávamos, as flores da época, 

nada de calcar as flores, vejam se têm maneiras ou eu chamo os vossos pais,

nós ali, bem comportados e mandados, que a menina milinha - à espreita, de saia casaco e cabelo levantado - era uma autoridade,

por que é que ela é menina, mãe? se já é velha,

a curiosidade espantada de quem não sabe a vida,

porque as irmãs dos padres são sempre meninas. 

 

 

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e o padre nosso, já sabem dizer o padre nosso?

perguntava a menina que não era menina mas que nunca fora mulher, desejosa de dois dedos de conversa e nós, saídos da escola, com calor e esbaforidos, sabedores da recompensa de quem poupara um mês inteiro, cinco escudos aqui, dez escudos perdidos ali, tudo junto num lenço à saída da escola, para quatro gelados comprados na loja perto da igreja,

temos duzentos escudos!

nós esbaforidos da corrida, cinquenta escudos por gelado, uma festa enorme de quem antevê doçuras, quase a chegar à loja e ela,

e a avé maria? já sabem dizer a avé maria?

aquela curiosidade santa de quem nunca aprendera inglês e queria saber o que nós sabíamos, todas a quartas depois das aulas, na professora nova que nos ensinava aos bocadinhos, uma hora por dois contos mensais, 

e o acto de contrição? já sabem dizer o acto de contrição?

e nós, que até em português nos engasgávamos no credo, os bolsos a queimar do dinheiro junto, uma fortuna enorme para quatro gelados, uma excitação de quem poupara tanto para a doçura de cinco minutos, nós já cabisbaixos pela meia hora ali perdida a fazer companhia a uma menina tão velha,

e o credo? já sabem dizer o credo?

 

e a ana, mais expedita, mais afoita, a minha ana que me desenganou do pai natal aos seis anos e me fez acreditar novamente na vida aos vinte e quatro, farta, sem paciência, lingua afiada, ombros encolhidos e a pergunta, num descaramento sem fim, vozinha felina de quem pensara no assunto,

e a menina, por que não se casou?

 

os gelados de cinquenta escudos não serviram para acalmar as lágrimas das palmadas que a mamã me deu depois, quando sabedora do episódio.

e por mais que lhe explicasse que não fora eu, que até me mantivera calçada e de olhos no chão, a mão da mamã encontrou o meu rabo e fez-me lembrar, de uma vez só, que não havia confissão que perdoasse certos pecados.

nem mesmo em inglês.

 

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e a confissão? já sabem dizer a confissão?

uns dias mais tarde, no retorno à normalidade,

e eu,

pois sim, que sei,

e ela,

então diz lá.

e eu,

confaisso a god alwais powerful my pecaidos. 

e ela,

só isso? 

e eu,

isso e cinco palmadas no cu. 

 

 

e desta vez a mamã não bateu. estava a rir-se demasiado para ter força. 

 

publicado às 10:15


1 comentário

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De Pequeno caso sério a 09.03.2017 às 18:37

Gostei tanto de ler MJ!
Fizeste - me lembrar de algumas palmadas que levei da minha mãe ( e das outras tantas que ficaram por dar) porque também a desarmava com o riso.
O riso é uma coisa bem mais difícil do que se pensa . Deve ser por isso que me é uma coisa tão cara.

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