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corona compras

por M.J., em 17.03.20

fui hoje às compras. tinha mesmo de ser.

saí cedo, de máscara (que tinha de quando estava grávida e tive uma alergia imensa ao pó) e luvas, como convém em fase de mitigação. 

à entrada do continente ainda não havia fila. os seguranças organizavam a coisa de maneira a que não se verificasse multidões lá dentro. 

quando entrei senti-me numa espécie de "isto é o fim, comprem tudo o que puderem".

algumas pessoas usavam máscaras e luvas. outras nem por isso. comprei alguns legumes e frutas que precisava. quando fui à secção da carne e peixe havia gente aos magotes. senti-me na feira, em criança, em frente aos senhores que vendiam bacalhau barato. 

não tirei senha nem fiquei por ali.

 

a maior parte das pessoas colocava coisas indiscriminadamente nos carrinhos. encontrei-me várias vezes com uma senhora que, com ar atarantado e em jeito de missão, praticamente corria por todos os corredores, atirando coisas para um carro e um cesto. 

não sei se é paranóia, se é segurança. 

 

vamos às compras como quem vai a uma espécie de batalha campal só que o inimigo é invisível. temos medo de algo, que sabemos que anda no ar e no meio de todos nós, mas precisamos, inevitavelmente, de trazer coisas que podem ter o inimigo nelas. 

comprei mais chocolates e bolachas do que o que tinha planeado mas já verificamos que nesta fase é algo que nos conforta. é estúpido e talvez tente compensar na elíptica. no entanto, quando a ansiedade surge e a paciência foge, um quadrado de chocolate faz milagres. 

gorda por cem, gorda por mil.

 

não coloquei as mãos na cara uma única vez. mas senti mil comichões, mil vontades de coçar os olhos e um ligeiro pânico quando a máscara parecia escorregar. 

é só desagradável. 

encontrei também pessoas que caminhavam com toda a tranquilidade e ar de "vocês são muita parvos". na sua maioria eram mais velhos. talvez quem sobreviveu a uma revolução com  flores ache que está safo de um inimigo que não vê.

a maioria dos idosos andava por ali totalmente desprotegida. tive muita vontade de lhes pedir para irem para casa, o mais rápido possível. depois pensei que provavelmente não tinham outra opção. ou não sabiam. ou não queriam saber.

quantos irão precisar de ventiladores que não temos?

 

vi gente jovem a comprar muita coisa. pessoas que normalmente não vejo em supermercados. assumi que algumas estavam a comprar coisas para vizinhos e familiares mais velhos.

sobretudo quando um carrinho empurrado por um moço com vinte e poucos anos estavam pensos para incontinência.

 

não comprei carne nem peixe.

a mamã assegura-me carne porque continua a haver animais lá por casa. peixe, paciência, não temos nenhum aquário e não sei pescar. ficar numa fila horas é que não. não agora. mas comprei iogurtes e vegetais e produtos de limpeza em falta.

 

quando cheguei à caixa nenhuma funcionária tinha máscara.

trabalhavam de luvas mas nãos servia para nada. a maioria punha as mãos na cara. fosse para coçar uma comichão, tirar o cabelo da frente dos olhos ou outra coisa qualquer. 

a senhora da caixa onde fui pediu várias vezes desculpas por estar a demorar, mas aquela não era a função dela. disse-lhe que não tinha que pedir desculpas nenhumas. evidentemente. quis dizer-lhe que eu é que lhe devia pedir desculpas porque a minha necessidade colocava-a a ela em risco. não vamos todos morrer, é certo, ou sequer sentir mais que uma ligeira gripe. mas quem sabe se ela terá as complicações que nos assustam a todos? quem sabe se não sou eu agora infetada, sem saber, e a causar-lhe essas potenciais complicações no futuro?

uma merda.

 

na caixa do lado um senhor reclamava porque a funcionária estava a demorar. tive vontade de mandá-lo para o caralho, em alto e bom som, mas isso ia aumentar a nossa "estadia" no local e não é recomendado.

as pessoas são absolutamente sem noção.

 

na fila para as caixas disse a um idoso para passar à minha frente. um homem, atrás de mim, resmungou que cada um devia ir na sua vez. apeteceu-me muito mandá-lo reclamar na cona da tia mas percebi que isso ia também aumentar o tempo que lá estávamos. e não é recomendado. 

 

quando cheguei ao carro, senti que tinha passado por algo muito estranho.

algo novo.

algo mau.

em casa tomei banho, desinfetei tudo e pus a roupa para lavar. mas apetecia-me mesmo tomar banho em lixívia e nunca mais passar por semelhante coisa.

 

por mais que não entenda o açambarcamento das pessoas percebo, ainda assim, a vontade de comprar. a vontade de correr ao supermercado. no meio do medo, da impotência, da incerteza estes atos permitem às pessoas uma falsa sensação de controlo. de sentir que de alguma forma estão a fazer algo. porque é difícil só esperar. só permanecer e aguardar. por isso vão. e compram. porque nunca se sabe e o seguro morreu de velho. e cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. e mais vale prevenir que remediar. e no meio disto tudo compra-se e compra-se e compra-se e esquece-se de quem não pode fazê-lo agora. e de quem chega ao supermercado e encontra os produtos mais baratos esgotados. e não tem dinheiro para os mais caros.

as pessoas esquecem-se ou fingem que não se lembram. 

e há algo que me espanta: de onde surgiu tanto dinheiro, de repente, para o supermercado? estamos a meio do mês. nesta altura muitas famílias já estariam à espera do dia 30 para as compras mensais. mas vemos carros e carros de coisas. o pessoal anda a contrair créditos para comprar bens que não precisa? ou foram às poupanças das férias para açambarcar papel higiénico?

 

tenho tido muita vontade de dizer palavrões.

e partir coisas.

não estou em posição de me poder queixar. podemos estar os três em casa. conseguimos trabalhar os dois. nenhum de nós está no grupo de risco e nenhum de nós sai de casa a não ser para o absolutamente necessário. mas tudo isto é claustrofóbico, causa medo, insegurança e impotência.

 

vai passar, sabemos que sim. 

até lá há que viver com calma. um dia de cada vez. mesmo que as urgências pediátricas de aveiro tenham fechado e estejamos com medo. mesmo que uma empresa que levou tanto tempo e esforço a criar e implementar não aguente mais do que seis meses sem clientes. mesmo que tenhamos familiares em grupos de risco e que precisam de continuar a sair de casa.

vamos ver. 

é isso, não é?

vamos ver.

publicado às 17:07


1 comentário

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De Charneca em flor a 17.03.2020 às 22:53

Olha, eu tenho consigo passar sem ir ao supermercado. A última vez que fui foi na 3a feira passada. Havia mais movimento do que o habitual mas tudo normal. Sou farmacêutica e tenho tentado controlar a tentativa de açambarcamento a nível da farmácia mas não é fácil. Os nossos utentes habituais são os mais desagradáveis apesar de nos conhecerem há muitos anos. Ficamos tristes porque tentamos fazer o nosso melhor e temos medo como qualquer pessoa. Infelizmente, tenho cada vez menos fé na humanidade porque tenho visto muitas atitudes egoístas e mesmo estúpidas. O meu nível de paciência, que costuma ser alto, está no limite. Vamos ver que sociedade sobra desta confusão.

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