Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




que a minha cor favorita é o azul e que o uso, constantemente, numa coincidência inconsciente, em roupa e objectos, acessórios e dias.

que não gosto de perfume e que apenas consigo manter no olfacto odores. que retiro deles lugares e pessoas e que absorvo, também eu, o cheiro a limão como salvação das coisas certas nos dias passados.

que não bebo vinho, numa renúncia a épocas distantes em que a vida me sufocava por entre as árvores e pedras e que vejo no álcool não só o que é mas dias longínquos de amargura e desespero.

que retomei a leitura e em hábitos antigos rabisco frases, dobro páginas e lembro-me, em cada livro que pego, do amor da minha avó por folhas e letras e palavras numa espécie de salvação da vida.

que como para confortar a alma e me sinto culpada quando percebo desse velho vício.

que nunca fui a paris e sempre achei, ingenuamente, que seria mais feliz lá do que em qualquer outro sítio.

que, como te disse em tempos, desisti mesmo do que me matava em medo e descobri que sou muito mais feliz agora.

que também sei ter alguém que matava por mim. e que me ama mais que a ele próprio. e que não sei que fiz para merecer tamanha afeição.

que ninguém usa jóias na minha família porque na serra não servem de nada a não ser mostrar na missa, aos domingos. e que a minha avó paterna tinha um cordão, de ouro, muito fraco, mas que olhava para ele como um tesouro e a coisa mais valiosa que possuía. que apenas se mantêm as alianças, de ouro, tradicionais, grossas, no dedo anelar, no orgulho da família.

que a casa da minha avó é a recordação mais longínqua que tenho e o primeiro odor que me lembro é o da palha seca, em dias sufocantes de verão.

que nunca te disse as vezes suficientes o tamanho da admiração por ti, no mesmo nível da amizade que queria que me sentisses. e que nunca julguei que me pudesses aceitar como sou, porque nem eu o faço.

que sei agora, tal como creio sabia antes, que as minhas inseguranças doem mas isso não invalida o amor que sinto. 

e que lamento. muito.

 

publicado às 20:20


8 comentários

Imagem de perfil

De Di Art Blogger a 19.08.2015 às 12:24

Tem muita sorte por ter esse Amor de Avó.
Não é uma dádiva para todos...
Muito lindo.
Imagem de perfil

De M.J. a 21.08.2015 às 12:52

obrigado :)
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 21.08.2015 às 10:47

Um lindo texto.
Imagem de perfil

De M.J. a 21.08.2015 às 12:53

merci :)
Imagem de perfil

De Isa a 21.08.2015 às 23:37

tocou-me.. muito. tenho na minha avó uma segunda mãe, e as melhores memorias que guardo da infância ela está presente. mas já não se lembra de mim, já não sabe quem eu sou...
Imagem de perfil

De M.J. a 25.08.2015 às 00:24

tu ias adorar o meu livro.
tenho dito.

Comentar post



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada