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da greve

por M.J., em 19.03.19

no dia em que me disseram que precisava de ir para a maternidade parir tive uma crise de ansiedade.

não foi nada bonito: uma grávida muito grávida, sentada no consultório da obstetra a chorar baba e ranho porque o momento que temera durante toda a gravidez finalmente chegara. ao contrário de muitas grávidas eu não ansiava pelo parto como o momento mágico em que tudo acontece. na minha cabeça, pelo contrário, existia um cenário apocalíptico de sangue, cocós, gritos, pernas abertas, desconhecidos e completa dependência de outrem. 

sou uma exagerada. não podia ser de outra forma nessa altura.

não foi portante novidade a consulta com a psicóloga antes de ir até à maternidade. que a pressa não era assim muita: o puto furou o saco onde estava metido (provavelmente decidiu fazer a espargata e a coisa correu mal) e o liquido ia saindo aos poucos. mas só aos poucos.

depois de ser acalmada pela santa psicóloga, que soube o que dizer quando eu ponderava mesmo fugir pela janela, encolher-me num canto e esperar que passasse (um excelente plano, sem dúvida) e entrei na maternidade, fui aos poucos perdendo o receio do drama sanguinário que a minha mente formulara durante os nove meses. 

é claro que a minha médica foi fundamental mas a pedra de toque que transformou todo o meu cenário de guerra em algo perfeitamente normal foi o trabalho das enfermeiras:

  • foi uma enfermeira que me ajudou com as dores a meio da madrugada, já depois de ter tomado comprimidos para a indução do parto;
  • foi uma enfermeira que me acalmou no caminho do bloco;
  • foi a enfermeira especialista no bloco que me esteve do meu lado desde que entrei até à mudança de turno, que me explicou tintim por tintim o que ia acontecer, que falou comigo sobre trivialidades, que me fez companhia e me ajudou em todo o processo;
  • foi a enfermeira que a substituiu depois que agarrou na minha mão no momento do parto, que me disse quando e como fazer força e que me incentivou com palavras simpáticas;
  • foi uma enfermeira no dia a seguir que ensinou o miúdo a mamar;
  • foi uma enfermeira que me disse que não havia mal algum em dar-lhe leite de fórmula quando ele perdeu imenso peso porque eu simplesmente não conseguia que ele mamasse;
  • foi uma enfermeira que me levou para um quarto vazio quando, na quinta noite sem dormir porque o outro miúdo berrava horrores, a minha cabeça parecia explodir.

tinha ouvido, lido milhentas histórias de casos de grávidas mal atendidas em maternidades/hospitais públicos por enfermeiros.

ouvira falar dos risinhos no canto da boca, da impaciência, da ironia, do gozo: "quando o fizeste não berravas assim", dos jeitos bruscos, do olhar para uma grávida como mais uma, para um bebé como mais um. ouvira falar de enfermeiras que insistem na amamentação como se nada mais houvesse, levando mães inexperientes ao desespero e a sentirem-se péssimas mães; enfermeiras brutas, antipáticas e sem a empatia e humanidade necessária para perceber que é um momento de extrema fragilidade (ou pode ser, para algumas mulheres) e que transformavam aqueles dias em pesadelos.

e depois, comigo, nada foi assim.

o momento do parto em si revelou-se perfeitamente natural, fácil até, botando por terra todos os meus piores pesadelos e fazendo-me rir pelos desabafos que fui deixando a quem me ouvia naquela altura.

os dias a seguir, na maternidade, que me causavam ansiedade também.

e tudo devido, sobretudo, ao trabalho das enfermeiras que me acompanharam todo o tempo. se há palavras que podem definir o trabalho delas (e deles, que deve haver eles, mas a mim só me calharam senhoras) foi a humanidade, o altruísmo, a empatia e o profissionalismo. 

 

é por isso, e por tantos outros casos que li, ouvi, vi em primeira mão, que estou com os enfermeiros na sua luta.

estou com eles enquanto classe muito mais importante do que a importância que lhe é dada pela sociedade, habituada a vê-los como meros lacaios dos médicos. 

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publicado às 14:25


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