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há uns anos largos uma amiga minha envolveu-me numa situação deprimente: deu o meu número de telefone a um fulano que estava loucamente apaixonado por ela e que queria ter contacto com os amigos dela, para poder aproximar-se da sua vida.
eu passo a explicar: o homem apaixonou-se pela moça, em laivos obsessivos. era até um rapagão giro, bastante conhecido na escola (sim, sim, no secundário) que, sem saber porque sim ou porque não, decidiu que a mulher dos seus sonhos era a minha amiga.
começou por persegui-la com ferocidade. esperava-a à saída das aulas, impunha a sua presença nos intervalos. um dia ficou especado à porta de casa dela umas valentes horas até o pai da rapariga decidir ameaç9a-lo com umas vassouradas nas trombas, por estar ali ao alto, a desinquietar as filhas.
umas semanas mais tarde o homem decidiu oferecer-lhe o bem mais valioso que ele tinha: ele próprio. pois que o rapaz sacou de uma fotografia das suas trombas em formato a5, pôs-lhe uma valente moldura, enrolou tudo em duas t-shirts que ele usara, sem as lavar - note-se, carregadas do perfume com que se besuntava todos os dias. munido do seu presente maravilha e um ramo de rosas pediu-a em namoro no meio do refeitório, com joelho no chão à beira dos tabuleiros da sopa. a minha amiga, por vergonha de toda a escola, disse que sim.
juro que esta merda é verdade!
nos dias seguintes a minha amiga confessou-me que não sabia o que havia de fazer. nem ao rapaz, que não a largava, nem à moldura e às t-shirts, que a enjoavam. dizia ela que para além de ter de ver o rapaz numa perseguição louca na escola, tinha de o olhar no armário, onde escondera a puta da moldura para o pai não ver. uma consumição.
uma noite, estava eu em casa agarrada a um livro de filosofia - como se fosse hoje meus senhores, lembro-me como se fosse hoje - quando ele me ligou. pois que quase lhe implorara o meu número porque precisava de uma série de razões para que ela não o amasse com a mesma intensidade que ele lhe dedicava.
durante duas longas horas foi dedilhando uma série de argumentos: era rico, um dos únicos a ir de mota para a escola, jogava na equipa de futebol da vila, era giro, tinha bués de miúdas atrás dele, não era mau aluno e tinha um óptimo feitio. mais que isso, amava-a! como podia ela não retribuir?
perante aquela quantidade de argumentos, olhando para o livro nos intervalos, lá lhe fui dizendo que o amor não se compra e que essas coisas nem sempre são como queremos. o homem não compreendia. nunca ninguém, jamais, lhe dera uma nega. a minha amiga, simples na sua vida, era a primeira. não queria. não podia ser. era inaceitável.
nas semanas seguintes a história complicou-se. começou não só a impor a sua presença como a exigir coisas. pois que aquela saia era muito curta, que não gostava do rapaz com quem ela falara. ganhou o hábito de entrar nas salas de aulas, onde ela estava, apenas para ver ao lado de quem se sentava. um professor ameaçou mesmo leva-lo a conselho disciplinar se voltasse a entrar-lhe assim, portas dentro. mais tardeo rapaz exigiu-lhe que não falasse com a, b ou c. que lhe atendesse o telemóvel a certas horas e que passasse com ele todo o tempo livre. além de que era obrigação dela ir assistir aos jogos de futebol dele. e como se não bastasse chegou a dizer-lhe que não valia a pena estudar tanto - a moça era uma ótima aluna e queria entrar em medicina - porque quando casassem ela não precisaria de trabalhar.
a minha amiga foi aceitando tudo com paciência de santa. tinha demasiados problemas em casa para ter outro em que pensar. além disso, tinha imenso que estudar e uma série de afazeres diários. suportava-o como quem suporta uma doença ou outro incómodo qualquer. às vezes, quando eu lhe perguntava como caralho aturava aquilo, exaltando-me com as merdas que ele exigia, ela encolhia os ombros e dizia que mal o período escolar acabasse punha termo aquilo, que agora não tinha tempo.
o rapaz foi-se convencendo que ela lhe obedeceria em tudo, que estava caidinha por ele. num ingenuidade parva de arrogante. porque ele não sabia a fibra da pessoa com quem namorava:
uma tarde, quando ela se atrasou para uma merda qualquer que eles haviam combinado, foi procurá-la e encontrou-a a falar com um rapaz, tranquilamente sentados no bar. sem se deter, numa fúria de birra, o tipo aproximou-se dela e deu-lhe um estalo. nessa altura, a minha amiga, que ficou dois segundos em estado de choque, achou que a situação atingira o ponto de cheirar mal e que filho da puta algum tinha o direito de lhe bater. assim, a moça, muito calmamente, aproximou-se de um cesto do lixo, repleto de copos de iogurtes, pacotes de leite, restos de lanches, lenços ranhosos e toda a porcaria que se encontra no lixo e, sem pensar duas vezes, atirou-lho pela cabeça abaixo. não satisfeita, mesmo sem ele reagir deu-lhe dois valentes pontapés nos tomates e avisou-o que se se aproximasse dela, um centímetro que fosse, lhe cortava a pila aos pedacinhos, depois de pedir ao pai que o atropelasse com o tractor. um professor que passava por ali ficou pasmo com a linguagem de uma das suas melhores alunas, até perceber o que se passava e levar o rapaz, meio de rastos, até ao conselho directivo.
foi ameaçado de ser suspenso caso se voltasse a aproximar dela.
nessa tarde ela pegou na fotografia, no seu maravilhoso formato a5, riscou-lhe dois cornos na cabeça e fez um balão a sair-lhe da boca com os seguintes dizeres: "porco nojento com a pila pequena". no dia a seguir pendurou-a no bar da escola.
ninguém a tirou até uma das funcionárias se decidir a fazê-lo, depois de perceber que o maralhal de gente em volta não se ia dispersar.
o rapaz nunca mais lhe dirigiu palavra.
ainda há uns dias, em conversa com essa minha amiga, nos lembrámos disso. e enquanto nos riamos que nem duas perdidas da cara do rapaz com o cesto do lixo em cima, ela dizia que só nesse dia soube da raça que era feita e da certeza que cabrão algum mandaria nela, jamais!
a minha amiga vive agora com o namorado. mas creio, se não estou em erro, que ainda mal se conheciam, já ela lhe contava esta história. numa espécie de aviso.
creio que a lição a tirar disto é que a diferença entre ser vitima ou não está, muitas das vezes, na nossa atitude!