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da vontade

por M.J., em 26.03.15

tenho uma incrível e absurda vontade de chorar.

 

choveu e a erva do jardim está mais verde, repleta de pequenos cristais brilhantes de água. as flores amarelas, silvestres, ontem abertas, estão fechadas, curvadas sobre si mesmas, num mutismo silencioso de natureza morta. há ramos secos das árvores, caídos na relva, numa quietude triste. as magnólias perderam as flores e está cinzento, escuro, melancólico.

todas as pessoas que encontro têm phones nos ouvidos, numa necessidade de juntarem à vida uma banda sonora, a tornar mais luminosos os seus passos na tarde fria, com vento nos cabelos.

deixei-me disso na certeza de perda do canto dos pássaros, em baladas afinadas. somos amigos, eu e eles.

 

na pastelaria as velhas do costume estão sentadas, num grupo barulhento, ao lado da porta. comem queques de laranja e bebem leite quente, num fumo intenso que sai das chávenas.

não perdi a vontade de chorar.

 

ao meu lado sentou-se um casal. o rapaz fala alto, o pé a bater consecutivamente no chão. conta com entusiasmo como foi fabuloso na entrevista de trabalho a que foi hoje. de como respondeu de forma assertiva e inteligente. gesticula muito, o iphone numa das mãos. diz coisas obtusas, de certeza que nunca trabalhou, que o papá nunca deixou.

enjoo de o ouvir e ponho finalmente os phones enquanto bebo o chá quente de limão.

 

sinto uma incrível e absurda vontade de chorar. este canto da pastelaria é sempre apropriado ao lavar da alma. mesmo com chá quente e gente feliz.

 

quanto temos podemos ficar de braços cruzados vendo a vida que poderíamos ter passar por nós?

publicado às 17:24



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e agora dá aqui uma olhada