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o problema de se decidir as coisas em cima da hora é que podem pôr-nos em trabalhos desnecessários.

explico: na sexta à noite, enquanto bebia café a olhar para a lua, lembrei-me de uma viagem feita há muitos anos numa companhia de outrora, pelos socalcos do douro vinda de armamar em pleno verão, lua em fulgor, estrelas em diamante. achei que era hora de rever e vai de anunciar ao rapaz que, no dia a seguir, íamos de armas e bagagens ao douro.

acordados tarde no sábado (pelo menos para a excursão) chegamos a lamego pela hora de almoço e decidimos almoçar por essas bandas. a cidade engalanada de festa mudou sentidos de trânsito e demoramos horas para estacionar. o turista nos seus autocarros conspurca tudo e um par de botas, para o trânsito, arma confusões numa multidão desenfreada de máquina fotográfica ao peito, ar de aventura e uma imensa falta de civismo.

uma treta.

 

entramos no primeiro restaurante que nos apareceu. muitíssimo mal escolhido: sem ninguém, um ar absolutamente pretensioso e empregados chiques a valer. serviram-nos couverts (é assim que se escreve?) que davam para dois periquitos. a seguir o bacalhau foi servido num prato do tamanho de uma roda de tractor, a um cantinho, muito pequenino e redondinho, com uns rabiscos feitos no prato:

 

esperámos que a sobremesa salvasse o dia depois do empregado dobrar a língua toda para a enunciar: afinal era só uma bola de gelado do lidl com um bolo rijo de há dois dias. e tudo muito chique, com muitas mesuras, muitos salamaleques pagos a peso de ouro.

deus! mais valia ter comido um bitoque gordurento na tasca da esquina em pratos mal lavados.

 

almoçados (mal mas enfim) apanhamos caminho até peso da régua. tudo bonito...

 

#devezemquandopasseio #Régua

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

... mas mais uma vez repleto de rebanhos a comportar-se de uma forma estranha: em multidões, numa espécie de fila, dobrando-se para o mesmo lado, calcorreando as mesmas pedras, num bando unido e apalavrado. ficam ao sol no cais à espera do barco. compram todos os mesmos chapéus aos ciganos que os apregoam e fazem das casas de banho públicas uma esterqueira. com muita foto, às dezenas, em cada piscadela de olho um flashe. 

lindissimo. 

 

afastamo-nos enojados e procuramos um miradouro nas imediações.

 

Não há quem me tire da serra #Régua

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

a parte melhor, verdade seja dita, a acabar por nos lembrar, na volta, que o gps nunca é confiável depois de nos mandar quinta alheia dentro até um buraco sem saída, com obrigatoriedade de virar o carro com mil manobras.

poderia ter sido engraçado. não foi.

 

persistentes no passeio decidimos ir até pinhão. viagem junto ao rio, tudo muito pitoresco, dezenas de ciclistas a entupir a via que desporto é belo se for feito aos pares. à entrada da vila a coisa empancou. se na régua os autocarros pareciam cogumelos em pinhão, pouco ou nada preparado para a coisa, eram um enxame de mosquitos hediondo a estragar paisagem e momentos.

na ponte duas caravanas, uma em cada sentido, fizeram questão de avançar ficando presas no meio. caralhadas em estrangeiro, esbracejar em pleno, mais para cima, mais para baixo, passaram depois de dez minutos deixando em cada lado uma fila de quilómetros.

deslumbrante.

no meio da vila os carros paravam em filas infinitas para os rebanhos de pessoas atravessarem a passadeira, sorrisos deficientes, um ar aparvalhado de dia santo em festa. não paramos sequer para apreciar a paisagem, enfastiados, zangados, sem paciência.

 

um dia se o turismo atracar assim na minha serra desfaço-me em lágrimas.

quão doloroso deve ser ver a conspurcação de espaços e lugares, memórias e vivências por rebanhos de pessoas que se comportam como um só, quase doente de ideias?

publicado às 09:30


1 comentário

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De mami a 13.09.2016 às 17:13

as memórias de um local depende muito da idade, do tempo, da companhia... o teu primeiro grande erro foi procurar o que já não existia ;)

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