Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




detesto tourada.

a primeira vez que me lembro de ter chorado, com algo visto na televisão, foi em casa dos meus avós, num serão que por lá dormi, e o avô decidiu que a grande corrida de touros que passava na rtp1 era o programa adequado para a família. não sei quantos anos teria à data. só sei que nunca tinha visto uma coisa daquelas.

nós tínhamos uma vaca que nos dava leite todos os dias e puxava uma carroça de madeira transportando coisas (e a mim). a avó gostava da vaca. mesmo muito. tinha horas certas de refeições, falava com ela e estimava-a. eu também. por isso quando vi aquilo que me parecia uma vaca espetada, com o sangue a escorrer pelo dorso, desatei a chorar.

a tv foi apagada e o avô foi dormir, amuado, porque tinha uma neta fraca.

não te preocupes que depois o touro desforra-se, disse-me a avó, tentando apaziguar o pranto e acalmar a minha sensibilidade com os forcados a serem levados na cabeça do animal.

não resultou e nunca mais voltei a ver touradas a não ser, claro, em imagens soltas aqui e ali.

 

gosto muito de animais.

tenho uma posição definida quanto aos direitos deles e agrada-me pensar que não sou maluquinha por.

que assumo as suas funções e o seu local na sociedade. e acredito, até, que tratar um cão como uma criança é um desrespeito para o animal. vestir um pastor alemão ou um serra da estrela com uma capa do donald e chamá-lo de cutchi é um desrespeito para um cão com um determinado porte e imponência. 

mas enfim. 

adiante, que não é de cães que se trata.

 

dizia eu que assumo os direitos dos animais.

sou completamente contra crueldade por crueldade. uma vez discuti com um colega que disse, num jantar de amigos, ter-se divertido em criança a maltratar gatos e galinhas. discuti tão feio que nunca mais voltamos a falar. não foi o ato em si que me fez perder as estribeiras mas ele estar a contá-lo agora, numa noite de copos, com um sorriso rasgado de orgulho no rosto. chamei-lhe uns quantos nomes e ainda hoje, passados alguns anos, mantenho o número de telemóvel dele gravado como parvalhão

paciência.

 

não suporto crueldade só porque sim, apenas para divertimento.

não me choca a morte de um animal para alimentação. seja uma galinha aqui, seja um cão no outro lado do mundo. faz parte da cadeia alimentar e nem vou estar a esgrimir argumentos acerca de. mas chocam-me, de uma forma inigualável, as touradas. não entendo sequer as motivações! que prazer pode alguém sentir por ver a tortura de um pobre animal?

é que nem sequer há motivo cultural que o justifique:

a cultura tem de morrer perante a tortura e sermos civilizados é isso mesmo. 

 

pronto, posto isto, juro que também não entendo a glória daqueles que dizem, entre sorrisos, que foi bem feita a morte de um forcado.

juro que não.

gosto tanto deles como se pode gostar de um carrasco. mas não fico contente por morrerem. e muito menos teria o desplante de vir para as redes sociais atacar a família daqueles que morrem, numa espécie de vitória ridícula em que não ganha ninguém.

não faz sentido.

não faz.

 

apontar o dedo a uma pessoa que morre em função dos seus hobbies (mesmo que estes sejam deploráveis) é o mesmo que ficar contente por um piloto de alta velocidade morrer num despiste, um alpinista morrer numa escalada, um jogador de futebol morrer em campo. e se é certo que nestes três últimos não há tortura (pelo menos evidente) de outro ser, há o colocar da vida em risco para entretenimento do outro. a premissa é (quase) a mesma.

 

por outro lado, todos eles têm família. mesmo os forcados.

quantos de vós controlam o que os vossos filhos vão fazer no futuro? 

têm arrogância suficiente para achar que dominam de tal modo uma criança, adolescente, adulto que ele não vai fazer as suas próprias escolhas?

e se ele decidir ser forcado gostarão de ver foguetes pela sua morte? gostarão menos dele? então e aquela coisa do amor incondicional?

ah M.J, é uma questão de educação. os meus filhos foram educados para amar animais.

pode até ser. mas e os que não foram? têm um direito à vida menor? mesmo que sejam bons cidadãos, bons pais, bons filhos, bons profissionais, são tão más pessoas que devemos ficar felizes por morrerem?

temos tão pouco respeito pela vida humana, tão pouca empatia pela dor daqueles que perdem vidas, que não somos capazes de distinguir a diferença da morte de uma pessoa e de um animal?

chegamos a um ponto de colocar a balança na mesma posição quando se trata de direitos de uns e de outros? como é que aqui chegamos? como é que defendemos este exagero? deixamos de perceber,imbuídos de uma estranha cortina confusa, o verdadeiro valor da vida humana? e se sim, não é esse o princípio para as piores atrocidades? a ideia de que há vidas menos merecedoras do que outras não foi - e será sempre - a justificação para as maiores calamidades de morte do homem pelo homem?

como se pode defender a vida de um animal, colocando-o em primeira categoria, e ao mesmo tempo defender-se que a vida de um ser humano é menos valiosa?

 

detesto extremismos.

todos eles. de esquerda, de direita, de animais, de crianças, de adultos, de comida e do diabo a quatro.

as coisas não são brancas nem pretas mas têm sempre uma nebulosidade cinzenta.

a não ser, na maior parte das vezes, a vida humana.

a vida humana é preciosa.

tem um valor imenso.

ficarmos felizes quando uma se perde, numa tourada, faz de nós irracionais e desmerecedores dessa mesma vida.

desrespeitadores, sobretudo.

não nos torna mais compreensivos, não nos ajuda a mudar mentalidades e muito menos traz algum tipo de alegria aos animais torturados.

 

e esta ausência de meio termo, de conseguir ver para além dos sentimentos mais irracionais (vá lá, quando leio essas noticias - já não vejo tv - há sempre uma luzinha que se acende em mim e diz muito alto bem-feita!) de conseguir analisar para além da falta de empatia, é isso que nos traz onde estamos: à insensibilidade total pelo outro.

mesmo que juremos que não, que somos capazes de amar incondicionalmente e não há nada mais importante que a vida. 

 

não somos.

só achamos que sim, para não parecer mal.

publicado às 10:20


2 comentários

Imagem de perfil

De Corvo a 22.09.2017 às 19:35

Boa tarde, MJ.
A minha posição quantos às touradas é só uma. Estou sempre do lado do toiro.
Revejo-me a cem por cento na posição da Alexandra, com apenas maior contundência.
Sempre ao lado da vítima inocente e todos que compõem essa inqualificável barbárie, cavaleiros, espadas, bandarilheiro, forcados etc etc, quantos mais morrerem ou ficarem estropiados, melhor.
Não lamento por nenhum e acho que a morte de um desses artistas, de quando em vez, sabe sempre a pouco e o toiro é sempre incomparavelmente mais credor que devedor.
Os exemplos que apresenta sobre a morte de um piloto de alta velocidade, um alpinista, um jogador de futebol e outros quaisquer desportistas, não podem servir como argumento no caso em debate porque simplesmente, não estão a torturar uma vitima inocente cuja ausência de inteligência permita defender-se.
Os desportistas acima são seres inteligentes que competem contra outros seres inteligentes o que os coloca no mesmo escalão.
E quem diz, como já li aqui que os forcados são os que menos mal fazem, está ae são precisamente os mais cruéis e sanguinários carrascos.
Depois de o toiro estar todo trespassado por farpas que lhe atingem a coluna, a esvair-se em sangue e em sofrimento extremo, caem todos sobre ele e agitam e remexem sem piedade as lanças que o trespassam.
Uma questão cultural? Também era cultura dar menus de pessoas vivas aos leões no circo, era ainda cultura assar as mulheres solitárias que tinham um gato, continuava a ser cultura os autos-de-fé, continuava cultura as mulheres apanharem dos maridos.
Afinal, qual o significado de evolução?
Todos os que morram ou fiquem estropiados pelos cornos de um toiro nas arenas, sabe sempre a pouco.
Desejo-lhe um excelente fim de semana
Sem imagem de perfil

De Cristina a 23.09.2017 às 12:29

isto é o quê?

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada