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disto do frio

por M.J., em 17.01.17

quando acordávamos a nossa respiração ressoava no ar, num pequeno fumo que se espalhava pelas paredes.

o silêncio corrompia os campos e entrava dentro do quarto com uma fúria descomunal. em dias de frio o silêncio ressoava como a geada nas ervas e o mundo apresentava-se, ainda no escuro do quarto, numa desolação ensurdecedora.

 

vestir era tarefa rápida e sem grandes mesuras. a roupa aparecia gelada e retesada, o quarto não tinha aquecimento e o frio doía nas mãos, nos pés, na cara e em todo o corpo que não fosse rapidamente coberto com qualquer tecido.

para lavar mãos e cara, numa espécie de gato e rato, havia um jarro com água deixado na casa de banho na noite anterior. com o gelo e a desolação que caía do ar em forma de geada, a água congelava nos canos durante a noite e por mais que abríssemos as torneiras não saiam se não pingos ou nada. 

 

na cozinha a mamã acendia uma pequena lareira que nos acompanhava ao pequeno almoço. o gás gelava na botija fora de casa e o micro-ondas, modernice de cidade, não chegara ainda. bebíamos café de cevada, fervente na lareira, e aquecíamos o pão deixado pelo padeiro, de madrugada, na beira do fogo que derretia a manteiga.

quando saía de casa, meias grossas de lã, cachecol, luvas, casaco, camisola interior e, em dias extremos, calças de pijama debaixo das outras calças, esperava pela vizinha para seguirmos até à paragem de autocarro batendo os pés no chão. as valetas enrijeciam-se de gelo nas plantas hirtas e congeladas. as estradas de pedra - alcatrão só no centro - brilhavam num gelo pálido que as cobria numa espécie de película de cristal. 

 

as pessoas que encontrávamos até ao autocarro, lata velha de bancos sujos e janelas emperradas, seguiam com ar de gelo nos olhos, mãos no bolsos e sacrifício nos pés.

no centro da aldeia, em cafés de portas abertas, ouviam-se as porcelanas a bater umas nas outras. um bafo quente convidava a entrar e sentávamo-nos na espera, soprando para as mãos e rezando para sentir os pés. alguns homens pediam tacinhas para aquecer o corpo e o estômago e serviam-se bagaços e aguardentes juntamente com o café, num mata bicho inusitado. alguns tinham mãos abertas em gretas, a pele queimada do frio que já mal sentiam. 

 

quando o autocarro chegava, nos dias em que chegava, entrávamos aos magotes.

lá dentro cheirava a bafio e a gente acumulada. a meio não era raro avariar com o frio e chegávamos já tarde à escola, entrando porta dentro de cabeça baixa, vindos da serra, da aldeia, com roupas que às vezes cheiravam a fumo e pés que poderiam servir de apoio a peixe congelado. 

 

há frio agora meus senhores. mas sabem lá o frio de outrora. 

publicado às 11:05


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