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do domingo

por M.J., em 23.03.15

acordei tarde no silêncio do bairro.

o vento varria as casas e punha ao chão as flores da magnólia em frente à marquise. a roupa dançava numa dança sem pausas e fiquei uns minutos, a chávena de chá quente pousada no peitoril, a apanhar com o vento frio na cara. cheirava a torradas e leite com chocolate e na rua passava uma senhora pequenina, a cabeça curvada na defesa do vento.

 

almoçámos tarde na festa de aniversário da mãe do rapaz. o restaurante estava cheio e acabei por comer uma minúscula fatia de bolo que me fez lembrar o gosto pelo açúcar e a vontade de estraçalhar o raio do bolo todo, de uma só vez, enquanto mastigava em dentadas muito pequeninas, muito direita na cadeira, como que espetada por um garfo. triste, triste.

saímos cedo do almoço e parámos na pastelaria do bairro a tomar café, os dois deprimidos a olhar a janela.

a rua estava deserta de gente. a vitrina repleta de bolos. o rapaz pensava na tarde de trabalho que lhe esperava e eu no desejo de açúcar, puro e duro, numa vida cinzenta quando podia estar vermelha de rebuçados.

 

passei uma hora na marquise, de volta da roupa que nem precisava de ser dobrada. a tarde estava encoberta e quando começou a chover um cheiro a terra molhada invadiu tudo.

 

jantámos em casa dos papás e fiquei tempos infindos em frente à lareira.

e quando cheguei a casa bebi um chá de romã, num cheiro a primavera que disse a mim mesma ser igual a açúcar.

só que não era.

publicado às 13:48



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e agora dá aqui uma olhada