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emigrando

por M.J., em 27.08.15

farto-me de mandar postas de pescada quando chega agosto e o país é inundado pelos emigrantes, de meia branca nas sandálias, uma tentativa de bandeira de portugal colada em carros gigantes, um português afrancesado, o cabelo no estilo ágata, o colar de ouro ao peito com a cruz em destaque.

sou uma parva até porque acredito que este estereótipo, ao qual é tão fácil apontar merdinhas, tem escondido nele uma série de coisas que doem como gargantas inflamadas pelo choro que não se deixa correr livremente.

a questão é que não consigo imaginar o que se sente quando se vive longe de um sítio que se ama. vou mudar de cidade e já me doem os dias, pelas pessoas que vou deixar de ver e com quem nem sequer tenho ligação. já me dói a falta das árvores que me entram janela dentro, o barulho dos vizinhos, aqui ao lado, numa presença constante e que ficam com o meu correio, quando eu não estou, apenas para eu não ter de ir aos CTT depois.

já me dói a saudade de uma cidade que está a uma hora de distância do sítio onde vivo. quarenta minutos se quisermos andar depressa.

não consigo, por isso, imaginar a dor que se sente ao abandonar todo um país, que contém nele as pessoas, os dias, e os lugares que, por sua vez, constituem o mundo de uma só vida. a força que se tem de arrancar para passar onze meses num outro país, sendo tantas vezes olhado de lado por não ser nacional dali. o que é preciso guardar no peito para não sentir rancor ao país que os viu nascer e mandou embora e os obrigou a ser estrangeiros uma vida toda, na busca de uma vida que aqui não podiam ter.

é fácil eu, que não saio da minha zona de conforto, que permaneço aqui, quietinha, vendo passar os dias ao lado da minha família, falar dos estereótipos e gozar com as meias brancas por baixo das sandálias, as banheiras em forma de carro, ou o português afrancesado. não sou eu que tenho de ver os meus pais e amigos através de um ecrã de um pc, sem lhes poder tocar. não sou eu que não posso fugir para casa dos meus pais, deitando-me no sofá e sendo aconchegada com palavras de conforto e sabores de infância quando o medo da vida vem em força. não sou que preciso de recomeçar num outro sítio qualquer vendo passar os dias num país que, muitas das vezes, não me quer e faz questão de o demonstrar. não sou eu que perco pessoas (perco mas não é pela mesma coisa) à custa da distância. que vejo amigos transformarem-se em conhecidos e depois em desconhecidos porque ninguém pode fingir que a distância é irreal e manter uma amizade corrente com toda a gente que permanece no sitio de onde alguém saiu.

 

às vezes não sei, juro que não, de que material são feitas as pessoas e como não sucumbem à dor das saudades e da ausência.

é sempre a esperança, não é? é sempre a esperança que serve como antibiótico, alimentação saudável e vacina para a doença da saudade.

 

publicado às 12:53


1 comentário

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De Claudia a 03.09.2015 às 14:46

Adorei. Tive de partilhar. Com os devidos créditos, que copiar não é para mim ;)

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