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I.

por M.J., em 07.07.15

choveu toda a noite. a água batia em mil ondas de barulho nas telhas frias do teto e caía, devagarinho, pelas paredes, estragadas, com bolor, do quarto.

dormi enrolada em mim, como num pequeno novelo, com ela ao meu lado, quieta, num ar de mansidão serena de quem não espera mais nada da vida.

eu espero tudo.

estiveram em silêncio, as vozes deles, esta noite. não ouvi nada para além da chuva na rua e o respirar dela, quase ronronado. de manhã fomos acordadas pela enfermeira de sempre. trazia uma touca na cabeça e falava baixinho. não quis sair do quarto. não podia ainda, na incerteza do que me esperava nos corredores.

já vi tudo o que tinha a ver quando cá entrei.

ela levantou-se e vestiu o que lhe entregaram. fica quase caricata naquelas roupas tristes e velhas e olhou com ar triste o quarto velho, encardido, as vigas à vista, encimando as paredes muito altas, as poças de água da chuva da noite. não me disse absolutamente nada. saiu do quarto na ordem que lhe deram.

ninguém se importou muito comigo.

Por volta do meio-dia, ouvi no sino da igreja, ordenaram-me que me levantasse e fosse comer. Agradeci por isso e caminhei por entre o quarto na procura de qualquer roupa que pudesse tapar o meu corpo. Emagreci imenso nos últimos dias.

quando tentei abrir a porta estava trancada. constatei, com espanto, que estou prisioneira.

sentei-me na cama sentindo o estômago a latejar e olhei a fotografia que consegui roubar da secretária da mamã, antes da grande desgraça. ali estamos as duas. quietas, tranquilas, na certeza de grandes dias.

neste quarto que não sei onde fica, trazida numa noite escura de breu, fomos separadas por nós, na discordância dos planos a fazer para nos livrarmos disto.

passei o dia sozinha, ouvindo quem me ordenava para sair dali. por volta das quatro da tarde, farta das vozes que não me deixavam ouvir o silêncio dos campos desatei aos pontapés à porta. olhei com loucura as telhas expostas nas vigas simples. a janela tem grades perras mas é demasiado alta para lhe chegar e não consigo trepar as paredes nuas e sujas, repletas de bolor.

quando acabei por desistir e se fez silêncio novamente, a porta abriu e ela entrou com qualquer coisa na mão para eu comer. depois sentou-se na cama e ficou em silêncio, olhando-me quase com pena, percorrendo com os dedos a fotografia que eu deixara esquecida no chão.

hoje é o terceiro dia disto e não sei até quando aguentarei o seu silêncio e as minhas vozes.

 

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 quinta feira continua aqui.

publicado às 15:00


22 comentários

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De (des)Esperança a 07.07.2015 às 15:27

quero II sff
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De M.J. a 07.07.2015 às 18:08

quinta está aí à porta.
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De Mom Sandra a 07.07.2015 às 16:09

Adorei!
Aguardo, expectante, por quinta-feira. ;)
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De Neurótika Webb a 07.07.2015 às 16:33

olha quem está de volta...há muito tempo que não te via!
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De Sarabudja a 07.07.2015 às 16:11

Li, olhei, reli e "trili".

Um cansaço no peito tolda qualquer sentido que possa dar às palavras. Se isto continua assim é coisa para me fazer cativa com tudo a que a prisão tem direito. Até à dor infligida pelas palavras de estranhos.
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De M.J. a 07.07.2015 às 16:14

acho que ias gostar do meu livro.
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De Sarabudja a 07.07.2015 às 17:09

Eu também acho. Só tenho medo.
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De M.J. a 07.07.2015 às 18:08

entendo.
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De Patrícia a 07.07.2015 às 16:57

Que chegue quinta, que chegue quinta, que chegue quinta!
Oh pá, espetacular!
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De M.J. a 07.07.2015 às 18:07

já não falta tudo.

:)
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De Me, myself and I a 07.07.2015 às 17:16

Muito bom...ficamos logo a imaginar cenários e personagens!
More please....
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De M.J. a 07.07.2015 às 18:07

quinta no outro lado. :)
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De marrocoseodestino a 08.07.2015 às 10:00

Ok quinta é já amanhã. Não é um dia muito bom, pois é dia em que começo a trabalhar, sinal que as ferias já foram, mas o facto de ir ler mais um bocado da história...agrada-me.
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De M.J. a 08.07.2015 às 11:03

:)
é só passar por lá.
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De Pandora a 08.07.2015 às 10:10

Quinta ainda é só amanhã!!!!
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De M.J. a 08.07.2015 às 11:03

já amanhã :)
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De Pandora a 08.07.2015 às 11:17

Parece uma eternidade!
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De M.J. a 08.07.2015 às 15:21

acho que estava na altura de marcarmos outro café.
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De Pandora a 08.07.2015 às 15:27

Porque não?! A agenda anda é um bocado preenchida.
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De Cris a 08.07.2015 às 14:12

Ai,ai,ai,ai,ai,ai,ai, o que é que se anda a tramar por aqui?
Quinta saberei, não é?
Muito bom!
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De M.J. a 08.07.2015 às 15:21

uma história, escrita por duas pessoas diferentes, sendo que a outra tem muito mais jeito para isto que eu:)

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e agora dá aqui uma olhada