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III

por M.J., em 14.07.15

ninguém sabe muito bem o dia em que nascemos. a mãe dizia-nos que cheirava a rosas que e o vento do norte soprou a noite inteira batendo com força na janela, num prenúncio rebelde e doce do que seríamos.

a mãe conseguia domar as palavras, estivesse nela ou não, e construí-las em pedaços de vida que nos encantava e acalmava, mesmo quando não sabíamos quem eramos ou o que tínhamos. às vezes, se a apanhávamos num dia de rara lucidez, entrançava-nos o cabelo e abria a arca onde tinha vestidos de seda oferecendo-nos numa dádiva de quem dá tesouros.

nessas alturas, mesmo na calmaria das tardes longas, eu conseguia antever os dias que se seguiriam. via-nos já, aqui e ouvia como ouço o som das vozes que nos entram na mente e nos entorpecem o pensamento. adivinhava já a ausência, o cheiro a morte e a certeza que nos separaríamos, por dias, mas retomaríamos a união que era o que nos mantinha vivas.

eu sabia já, nos dias mais felizes, dos pormenores das horas mais negras que nos assaltariam o futuro e tinha dias que não controlava a dor de saber que os vestidos de seda nos seriam retirados, o cabelo nos seria cortado e viveríamos fechadas num sítio onde ninguém entendia que ser o que somos não é errado.

eu sabia já, da escolha que teria de fazer, das vezes que me obrigariam a optar e da decisão que tomaria. é difícil vivermos os minutos de cada dia sabendo já como serão todos eles.

e eu já sabia.

já sabia mesmo quando a mãe nos contava histórias, nos entrançava os cabelos e nos ensinava a rezar em meditação.

eu já sabia que ela seria sempre a minha escolha. mesmo que eu ficasse para trás.

 

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publicado às 15:00


8 comentários

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De Cris a 15.07.2015 às 11:34

Somos o quê??? Este suspense está a roer-me!
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De M.J. a 15.07.2015 às 12:39

amanhã há mais :P
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De Sarabudja a 15.07.2015 às 12:52

Possa que se me inflama por dentro.
Arre!
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De M.J. a 15.07.2015 às 12:54

já disse que ias gostar de ler o meu livro, não já?
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De Sarabudja a 15.07.2015 às 15:24

Já, já mo disseste.

Vá, manda e-mail com a posologia.

Não sei se sabes mas sou uma mulher a quem é facil convencer a engolir faquinhas. Cheira-me que leio e vou aviar qualquer coisinha para me esquecer do que é doer.
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De M.J. a 15.07.2015 às 18:23

preciso do endereço de e-mail...
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De Sarabudja a 16.07.2015 às 11:54

Enviarei e-mail para ti. Mantenho o prefixo.
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De M.J. a 16.07.2015 às 16:34

e está respondido :)

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e agora dá aqui uma olhada