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há uns anos valentes encontrei uma conhecida numa choradeira sem fim por que, segundo me disse entre soluços - um dos seus filhos tinha sido alvo de um castigo cruel no jardim infantil.

munida de um espírito crédulo - e ainda distante dos exageros femininos actuais no que diz respeito às próprias crias - fiz um filme desmesurado na minha mente. imaginei a criança alvo de palmadas quase em sangue, ostracizada dentro de um armário ou com o dedo apontado por todos em uníssono a dizer "tu és burro(a)".

 

vai-se a ver e não foi nada disso.

 

a história é rápida:

a criança - naquele dia de poucas abelhas - decidiu que a sopa de repolho não era do seu agrado (acreditai, nunca era do meu e cheguei a pôr goelas cá fora quando me obrigaram a deglutir tamanho acepipe) e começou a espalhá-la pelo chão. uma colherita agora, outra daqui a bocado e outra daqui a dois minutos. não satisfeita, quando a educadora a mandou parar, pegou na colher e vai colher e sopa e prato nas trombas da mulher.

poderia ser eu com alterações hormonais, mas não. 

 

 

a professora, educadora ou lá que se chama, de sopa nas trombas, decidiu castigar a criança de uma forma original: o resto do almoço foi passado em pé, de cara para o chão a ver a sujeira que tinha feito, comendo o resto da sopa, que - tendo em conta a posição - até desceu mais rápido. 

pois meus senhores, na mente daquela mãe, obrigar o(a) seu/sua filho(a), anjo de candura e de inocência, a engolir o repolho em pé quanto todos os outros estavam sentados era uma tortura quase comparável a chuveiradas de gás tóxico.

o problema não era obrigação de comer o repolho mas ter de o fazer em pé.

(vai-se a ver e era a preocupação pelas dores das artroses dos joelhos, que a idade não perdoa). 

 

uma tragédia dolorosa a clamar por indemnizações, interdições de funções, incapacidades para o exercício de profissão sensível que obriga ao amor invés do castigo.

uma atrocidade daquelas merecia a julinha, o goucinha e o hernâni (lembrei-me agora que uma vez ameaçaram levar-me ao hernâni e foi só por isso que soube quem era. saudosos tempos) e toda a opinião pública a clamar em manifestações de nojo a dor da criança por ter passado vinte minutos em pé a comer.

 

lembrei-me disto porque, feita tola comentei há umas semanas com uma recém mamã a história - só os factos sem a minha opinião pessoal. pois meus senhores, a mamã olhou-me com instintos assassinos:

"e essa educadora continuou em contacto com crianças?" perguntou, quase em sobressalto, imaginando que aos seus anjos poderia ser imposto tamanha coisa.

 

não entendo.

desde quando nos tornamos tão exagerados que achamos que um castigo, uma palmada no momento certo, uma proibição, um não, o "ficas em pé até perceberes que não se desperdiça comida" é uma atrocidade? desde quando transformamos crianças em objectos inertes, com incapacidade de passar por frustrações, por dificuldades, por limites, por imposições?

quantos de nós apanharam nas trombas por serem mal educados? ficamos traumatizados? quantos de nós ouviram dezenas de nãos? foi tão marcante que nos obriga a ir ao psicólogo hoje em dia? quantos de nós ficamos de costas contra a parede? quantos de nós fomos obrigados a comer o que não queríamos? não fomos, portanto, educados?

educar passa apenas por dizer sim, sim, ver a criancinha sorrir e passar à frente?

 

educar passa por tentar afastar uma educadora que, como castigo, pôs um puto de pé durante vinte minutos?

que devia ter feito ela? "menino mau! menino mau! não podes fazer isso mas se fizeres não tem mal por que qualquer coisa que eu faça ou diga é uma atrocidade quanto à tua personalidade! e mais a mais, alguma empregada de limpeza vai limpar a porcaria que tu fizeres!"

 

pois meus senhores: é essa ideia de que "toda a merda que faças vai ser limpa por alguém" que dá no que vemos: completa percepção de (falsa) impunidade. 

 

oh vai ver ali:

publicado às 09:20


28 comentários

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De Magda L Pais a 30.08.2016 às 09:31

Ora o meu gaiato um dia, no jardim escola, resolveu que queria desenhar. Ele mais dois amigos dele. Só que era hora de recreio e não quiseram esperar por isso desenharam na parede da escola. Ao fim do dia, quando o pai o foi buscar - o meu marido e os pais dos outros -estavam os três de panos em punho a lavar a parede da escola. O meu marido perguntou quanto tempo mais ou menos ia demorar a lavagem e disse que ia para o café esperar. Outro pai fez a mesma coisa. Mas o terceiro achou que era demais e começou a barafustar porque o filho não era empregado de limpeza. Foi calado pelos outros dois pais e que remédio teve senão esperar.


E numa reunião de pais no jardim escola da minha filha, uma mãe insurgiu-se contra a educadora por duas razões: Primeiro porque agora o filho dizia obrigado e por favor constantemente. E segundo porque o filho tinha de arrumar os brinquedos na escola e como era rapaz não tinha nada de fazer arrumações.

Dito isto... Não estranho esse exagero dessa mãe. Já vi pior, muito pior
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De Be a 30.08.2016 às 10:47

Quando o meu filho foi para o primeiro ano, ao fim de dois dias a senhora da portaria parou-me à porta e perguntou-me se me podia fazer uma pergunta, a pergunta era como é que eu tinha educado o meu filho. Eu achei que se referia ao facto de ele ser autista e respondi-lhe que o eduquei da mesma forma que se educam as outras crianças. Ela respondeu-me que ele não era normal porque dizia sempre bom dia, obrigado e se faz favor.
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De ISIS a 31.08.2016 às 18:15

O grande mal hoje em dia é a teoria de não se poder dizer/fazer nada aos meninos porque coitadinhos vão ficar traumatizados para a vida!!! Cá para mim, que sou mãe de 2, o castigo foi até ligeiro... após comer a sopinha toda em pé ainda devia ter pegado no paninho e limpo a porcaria que fez! E isto só para ser meiguinha....
Não há pachorra para tanta pseudo psicologia.... estamos a criar pequenos ditadores!
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De Me a 31.08.2016 às 18:57

E o problema é que a coisa se arrasta crescimento fora...
Há uns tempos, há mais de um ano até, queixava-se uma colega minha "coitadinhos dos meninos, e que n era justo e que ainda na segunda tinham tido um teste e que agora era outro na quarta, uma vergonha"
E a mim só me ocorreu comentar com outro colega meu, que na minha altura, quando EU fazia esse choradinho lá em casa, a resposta dos meus pais era sp a mesma "não é na véspera dos testes que se estuda. A véspera é para rever ligeiramente as matérias". E eu lá engolia em seco... :)

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e agora dá aqui uma olhada