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livro secreto

por M.J., em 28.07.16

a ideia não é original.

deve haver por essa internet fora dezenas de iniciativas iguais a estas e, ainda assim, estalo de orgulho por termos reunido tanta gente e haver pelo país treze livros a circular, felizes e contentes de casa em casa.

já disse várias vezes que não gosto de escrever sobre livros. os livros falam por si mesmos, na glória ou no desprezo. na maioria das vezes escrever sobre eles é apenas uma tentativa de espelhar a migalha que se sentiu na genialidade do que foi escrito e, sejamos francos, quem quer migalhas quando pode comer o queque todo?*

lembro-me que pensei na coisa quando percebi que havia alguém que ainda não tinha lido eça. na minha cabeça não se ler eça, lendo-se outros mil autores, mesmo aqueles muita fraquitos, é mais ou menos como adorar porco, comer-se até os tintins do dito em cebolada, mas nunca se ter provado leitão à bairrada.

não se entende.

percebi por isso que seria extremamente interessante "obrigar" a que eça fosse lido por mais gente e mais gente obrigar-me a ler algo semelhante ao que eça significa para mim. a iniciativa assentou nesses moldes: um livro querido, de que se gostasse, que tivesse algo de especial, que marcasse por algum motivo, a circular durante um ano de casa em casa. sendo lido, vivido, espelhado pela alma de quem o lê e depois, maior e mais completo, regressasse à sua casa para o descanso do herói.

mais gente aderiu do que estava à espera. pensei que a seita do arroz quisesse (se bem que com essas já há trocas quase mensais de biblioteca) e pouco mais. no entanto, numa espécie de presente de natal houveram mais interessados.

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no início foi extremamente complicado fazer o sorteio:

treze livros a passar de mão em mão, sem serem repetidos e evitando que as pessoas que os enviam replicassem entre si. depois, com ajuda do rapaz e dos seus dotes de qualquer-cena-computadores-variáveis-e-não-percebi-nada a coisa deu-se e os livros começaram a ver a luz.

outra coisa que me pôs com o rabito a bater palmas foi tentar gerir a a iniciativa. somos treze catraias com gostos, feitios e maneiras de ver a vida diferentes. as preferências são tão distintas que há eça e paulo coelho, carlos ruiz zafón e elizabeth adler, steinbeck e rita ferro (entre outros) todos misturados. há quem se pele por livros que outras olham com desdém. há gente que tem mais do que fazer do que ir aos CTTs todos os meses (incluindo eu). há quem se atrase e quem se adiante.

(além disso, tenho de deixar cair a personagem e transformar-me numa espécie de pessoa para lidar com tanta gente: para mim é quase uma multidão).

mas ainda assim, há livros novos a entrar casa dentro todos os meses e isso não tem preço.

o mais engraçado é que eu própria me surpreendi quando percebi que ia ler coisas que tinha decidido não voltar a ler. eu, que sou a única que sei quem vai receber o quê, deixo-me ser arrebanhada por sentimentos contraditórios quando abro as páginas do rei king (sim, foi o meu favorito) e percebo que afasto aquela fase de estou-farta-de-ler-não-há-nada-que-goste no livro escolhido por alguém que nunca vi.

ou quando constato, de uma vez por todas, que paulo coelho não é para mim e que isto dos gostos literários é como os pipis: todos diferentes, todos mais ou menos bonitos.

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na foto: carlos ruiz zafón com "a sombra do vento" - o meu livro do mês - e uma das maiores surpresas do desafio. comecei por achar uma perda de tempo e fiquei rendida à genialidade da escrita. quando for muito grande vou escrever assim. ou pelo menos tentar. 

 

(*mas juro que ficava toda tolita quando escreviam sobre o meu)

publicado às 11:30


5 comentários

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De Magda L Pais a 28.07.2016 às 11:38

"lembro-me que pensei na coisa quando percebi que havia alguém que ainda não tinha lido eça. na minha cabeça não se ler eça, lendo-se outros mil autores, mesmo aqueles muita fraquitos, é mais ou menos como adorar porco, comer-se até os tintins do dito em cebolada, mas nunca se ter provado leitão à bairrada"

sei que te vais rir... mas a verdade é que eu nem gostava de leitão. Até aos meus 25/30 anos abominava leitão e nem com o cheiro podia. Agora adoro!
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De M.J. a 28.07.2016 às 12:04

isso é como o vinho. só se aprecia decentemente depois de vida estável e casa montada.
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De Magda L Pais a 28.07.2016 às 12:05

a teoria é boa... mas eu continuo a odiar vinho ahahahahahah
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De A Caracol a 28.07.2016 às 17:54

Tu não gostas de vinho?! :O Não posso... Já experimentaste vinho a serio?
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De Magda L Pais a 28.07.2016 às 18:03

já experimentei. Não gosto de bebidas alcoólicas. só, muito de vez em quanto, uma cerveja e só p'ra ai uma vez por ano

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