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livros

por M.J., em 06.08.15

soube o que era uma preceptora aos dez anos através de "as mulherezinhas" e que o mau génio que me fazia perder as estribeiras não era uma coisa rara porque a jo também o tinha.

descobri, aos sete anos, que na inglaterra se comiam pequenos almoços com bacon e pão frito porque "nos cinco" a ana cozinhava isso em cada livro que lia. e percebi que, efectivamente, o meu feitio era devido a ser filha única porque eu estava descrita na personagem zé. 

soube de cidades, pontos de interesse, locais turísticos portugueses através da colecção "uma aventura" e durante anos soube de meio portugal apenas pelo que ali lera. 

quando peguei em "pardinhas", aos onze, percebi que a minha vida não era afinal, uma raridade, e que era verdade tudo o que a avó me contara. 

ao ler a morgadinha dos canaviais descobri que não era a única a construir grandes histórias, de fantasia, na minha cabeça, antes de dormir, porque cristina também o fazia. e foi devido a ele que tive aquele encontro mágico com as lágrimas provocadas por letras, num autocarro bafiento a caminho da escola.

no mesmo ano, ao ler "as pupilas do senhor reitor" percebi a sorte que tinha em ter nascido numa "época superior", porque afinal, num tempo não muito distante uma rapariga podia "perder-se" para sempre, às bocas do mundo, por falar com um homem à noite.

apreendi, mais do que aprendi, tudo o que acontecera no vinte e cinco de abril, aos nove anos, quando a professora primária leu na escola um conto de antónio pina chamado "o tesouro".

soube que existia um país no mundo onde o pato donald, o tio patinhas e a maga patológica eram reais e que podíamos ir até lá, num grande parque de diversões, porque uma das minhas vizinhas me deu a primeira bd que li, já velha, já usada, e era uma aventura na disneyland.

sorri ao perceber, finalmente, a história dos autocarros vermelhos de dois andares quando li o "harry potter" .

aceitei a homossexualidade, depois de anos numa aldeia onde as coisas são menos do que são, quando li pela primeira vez, já tarde, um livro de maria teresa maia gonzalez chamado "poeta às vezes".

soube da guerra de tróia pelas palavras de uma mulher, cassandra, que não era louca, ao ler o presságio de fogo. e tive dezanove a história, num dos anos do secundário, sem ter estudado praticamente nada, porque li o "diário secreto de ana bolena" de robin maxel.

descobri em "os maias" a companhia para uma vida e encontrei, de cada vez que os li, qualquer coisa, qualquer frase, qualquer episódio, que se adequava à minha vida na altura.

partilhei com a minha avó, aos treze anos, o "campo de urtigas" de antónio mota, lido alto, enquanto ela costurava.

e guardei para sempre a definição da amizade quando li, aos onze, "o principezinho"

 

nunca contestei o que li em livros, reparo agora.

absorvi o que podia, o que tinha, pegando em cada um como um pequeno tesouro, que me mostrava um mundo para além das serras que me asfixiavam. que me mostrava a vida para além da que eu tinha. e agora que lhes regresso entendo, outra vez, porque contava à minha avó, quando passava da escola primária da aldeia para a escola básica na vila, a minha grande motivação e o meu ar de felicidade:

"é que lá tem uma biblioteca. daquelas grandes. daquelas a sério".

 

publicado às 22:54


3 comentários

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De Magda L Pais a 07.08.2015 às 12:55

o que faz ter mais 20 anos que tu... nunca li a colecção Uma Aventura nem a Teresa Gonzaga.
No mais...
é como se tivessemos a mesma idade porque temos quase os mesmos livros em comum (ainda não me esqueci que prometi que leria os Maias)

Aprende-se tanto, mas tanto, nos livros..
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De M.J. a 08.08.2015 às 16:27

estou a ler um dos que me emprestaste agora.

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