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o começo

por M.J., em 31.10.15

não creio que o resto do mundo seja assim mas perco o rumo com muita facilidade.

é sempre da mesma forma. o que antes me fazia rir às gargalhadas torna-se indiferente; um sabor que me acalmava dores e horrores torna-se insípido; uma música que me fazia sentir paz transforma-se num remoinho de sons irritantes que me consomem paciência. quando me apercebo não gosto de onde estou e o que era antes um objectivo torna-se desprovido de qualquer importância.

fico cansada. custa colocar um pé à frente do outro, no seguimento as horas. os dias são grandes de pequenos. em nada sinto consolo ou objectivo. deixo de sentir o sabor do chá: não me aquece a alma como me aquece o peito. afasto com uma barreira impenetrável gente, conhecidos, amigos. afasto-me dos outros porque só me afastando dos outros me afasto de mim. constato tudo o que podia ser e não sou, o que podia ter e não tenho, onde podia estar e não estou. durmo mais horas. como mais ainda que tudo me saiba ao mesmo. 

começa sempre da mesma forma. 

não queria nada que recomeçasse. 

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publicado às 18:05


4 comentários

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De Corvo a 01.11.2015 às 13:19

E eu vejo a depressão instalada. Vejo uma coisa que não existe a atormentar uma existência, a tornar-lhe a vida num sofrimento, a amargurar-lhe os dias.
E tudo voluntariamente, e quando vejo estados de espíritos na mesma situação, interrogo-me porquê e tenho imensa pena.
Ah, e tal, cada um sabe de si e eu sei de mim. Mas não é verdade. Depressão não existe.
Há os problemas, as contrariedades, as expectativas não alcançadas, os sonhos naufragados, os dias tragando as noites e as noites engolindo os dias, e isso o que é? É a vida, simplesmente.
Venham psicólogos e doutorados sobre o assunto desmentirem-me, apresentem-me exemplos e a todos eu digo que é mentira. Depressão não existe.
Existe a fuga, a cobardia, por vezes; o egoísmo e a indolência de se se saber contornar situações prejudiciais por um lado, dramáticas por outro, e metamorfoseia-se a incapacidade, a força interior para se manter à tona catalogando-as de depressão.
Viver é lutar. Lutar é cair e erguer. Caminhar, caminhar sempre. Mesmo por vezes cambaleando pelos escolhos do percurso, caminha-se na mesma. Há-de chegar uma vez em que a estrada se aplaina.
Nunca ninguém disse que a vida era fácil.
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De Psicogata a 02.11.2015 às 12:23

Corvo, como a Magda disse espero sinceramente que nunca tenha de lidar com uma pessoa deprimida porque digo-lhe é das piores coisas que nos podem acontecer.
Já vi muita gente falar do alto da sua sabedoria a proferir frases como a sua e com as mesmas justificações.
O primeiro erro é assumir que para se ter uma depressão é necessário existir um acontecimento dramático na nossa vida, uma morte, uma grande perda, um percalço que nos atire ao tapete, esse pressuposto é totalmente errado, o ser humano tem uma capacidade de resiliência incrível e é muitas vezes nas maiores dificuldades que encontram a força para seguir em frente.
Acredito mesmo que são as pessoas que mais dificuldades encontram ao longo da vida as mais fortes e as mais sábias.
Uma depressão pode ter vários gatilhos ou nenhum, não precisa de ter uma causa, pode ter várias ou nenhuma, não tem de estar relacionada com um motivo, as coisas não são assim tão simples. Sim, muitas vezes uma depressão é despoletada por uma dificuldade na vida, está muitas vezes relacionada com as expectativas e objetivos que temos e não conseguimos alcançar, muitas vezes está relacionada com o desapontamento, mas pode também estar relacionada com um esgotamento intelectual ou resultar do acumular de muitos anos de luta, do cansaço.
Existem muitos casos de depressões cujos doentes são supostamente pessoas com uma vida perfeitamente normal, muitas vezes boa, em que a primeira pedra que lhes atiram é o típico – Não percebo tens uma vida tão boa!
As vezes a vida normal é o gatilho, às vezes assistir os dias a sucederem-se uns aos outros sem alterações, sem mudanças positivas, pode ser o suficiente para entrar em depressão.
A depressão, espante-se, é mais comum em pessoas inteligentes, especialmente aquelas que aliam inteligência com capacidade de introspeção. Não tem nada a ver com fraqueza ou espírito.
A personalidade interfere é uma verdade, é mais difícil uma pessoa otimista entrar em depressão, mas se entrar acredite que terá mais dificuldades em sair dela do que qualquer outra pessoa, já que se isso acontecer é porque o seu otimismo quebrou.
Deu o exemplo do seu pai, disse que não se afundou na depressão, para mim uma pessoa que nunca mais abandonou a gravata preta e nunca mais sorriu viveu sempre deprimida e nunca ultrapassou a desgraça que a causou. Não se afundou com a depressão, aprendeu a viver com ela e seguiu em frente porque teve uma âncora, a família, que lhe deu um propósito, já que levar toda a família à ruína seria possivelmente um fardo demasiado pesado para carregar.
O primeiro passo para ajudar alguém com depressão não é dizer coitadinho, é mostrar compreensão, dar-lhes carinho e tentar mostra-lhes as coisas boas e positivas da vida, dizer que estamos lá para eles, e que não têm de ser sentir culpa, que há esperança que é no fim do túnel existe luz e que tudo ficará bem, dizer-lhes que são fracos e que a depressão não existe é fazê-los sentir culpa, vergonha e medo, é encurrala-los na sua própria doença e alimenta-la.
Pense duas vezes antes de escrever ou dizer isso a alguém, não imagina o mal que poderá estar a fazer-lhes.
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De Corvo a 02.11.2015 às 16:52

Língua Afiada, boa-tarde.
É fácil depreender que falo para uma senhora conhecedora de causa, seguramente um pessoa licenciada na área de saúde, uma médica. Não vou, portanto, contestar quem sabe o que diz, o meu orgulho não chega à estupidez.
Seja então depressão. Provavelmente exprimi-me mal , mas o conceito é que conta. Eu quis dizer que depressão ou qualquer outro estado de espírito em que a amargura, o desânimo nos assole, pode ser combatido, erradicado pela força da nossa vontade. A senhora acabou mesmo agora de falar na inteligência. Casos há em que as pessoas inteligentes nem se dão conta, embora vivam em permanente depressão.
Apresenta caso conducentes ao espoletar de uma depressão, e eu aceito-os com certeza. Um deles, "intelectual ou resultar do acumular de muitos anos de luta, do cansaço."
E e isso que não compreendo. A MJ é nova, é uma rapariga a desabrochar para a vida. Na verdade e como a vejo, é uma menina.
Tanta depressão porquê? Por milhares de motivos que hipoteticamente possa ter, é uma menina a começar uma vida. Não posso aceitar que se deixe vencer por uma depressão ao ponto de ler, muitas vezes, aqui no seu blog, ideias de suicídio.
Talvez fosse duro de mais, mas enervei-me, revoltei-me contra uma situação que imagino ser de uma filha minha. Porque, por maldição da minha têmpera, não preciso de conviver com uma pessoa para gostar dela.
E ainda o que mais me revolta é que não obstante a sua curta idade, é uma rapariga inteligente e extremamente bem-formada. Sei-o porque podia perfeitamente não publicar os meus comentários ou ser menos educada nas suas respostas.
Concordo com a senhora quando refere o meu pai, que deveria atravessar uma depressão perpétua ao nunca mais rir nem tirar a gravata preta, e mais uma vez não me soube explicar. O que eu queria mostrar era que a depressão não é nunca superior à nossa vontade, que podemos contrariá-la e ir contra os ditames a que ela nos precipita a vida no inferno.
Na verdade, o meu pai nunca mais se encontrou até à sua prematura morte, mas lutou contra ela, amargura ou depressão.
E eu também. A senhora dá a entender que devido ao que aqui publiquei sou um homem que nunca passou por ela, e nem a senhora imagina o quanto está errada.
Há sessenta e dois anos, minha senhora; há sessenta e dois anos que vivo a maior amargura que uma criança, então a fazer treze anos, depois rapaz, a seguir homem e depois velho, há sessenta e dois anos que vivo o inferno da maior amargura, ou depressão, como se lhe quiser chamar. Parcialmente atenuada durante trinta e sete anos que durou o meu casamento, mas nunca esquecida.
Não pretendia contar esta vida ao mundo, mas para provar À MJ o que é uma vida de inferno e sobreviver, eu vou fazê-lo,vou contar. Talvez a MJ reconsidere e pense que por muito mal que se julgue ao encontre, há sempre quem esteja pior e viva. Vou contar para si, MJ, acho que o devo fazer. Pode ser que se cure para sempre. A morte da minha irmã não liquidou só o meu pai. Por arrasto destroçou toda a minha vida.
Hoje não seguramente, mas talvez amanhã ou depois eu conto no meu blog.
Quando o fizer convidarei a senhora, a MJ, a Maria das Palavras e a Magda para verem. As quatro que diretamente interagiram comigo. Depois, sem comentários de nenhuma, apago.
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De Psicogata a 03.11.2015 às 09:43

Bom dia Corvo,

Compreendo a sua revolta, percebi que escreveu o seu comentário com a melhor das intenções em relação à M.J.
Por pior que seja o buraco é sempre possível erguer-nos, e a M.J. conseguirá erguer-se.
Entendo que para si uma vida como a dela que parece perfeitamente normal, sem qualquer tragédia ou mal maior possa despoletar uma depressão, mas tal como referi anteriormente não é necessário existir uma razão, a nossa mente simplesmente é demasiado complicada.
Tive essa reação por que já ouvi muita gente dizer que depressão não existe simplesmente porque tiveram a felicidade de nunca lidarem com ela.
Não sou médica, sou apenas uma pessoa interessada no assunto, que infelizmente já teve de recolher muita informação sobre esta doença.

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