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o terror do fogo

por M.J., em 20.06.17

as ervas dos passeios secam no sol fervente da manhã. há um silêncio seco na rua e até o canto dos pássaros é molengo.

não há uma brisa pelas árvores e as folhas morrem lentamente queimadas pelo calor abrasador.

detesto este tempo.

 

acordei de manhã cansada de uma noite às voltas na cama.

é o último ano que passo numa casa sem ar condicionado, digo. depois penso nos meus primeiros vinte anos de vida e sorrio perante esta minha decisão.

 

na serra o calor era mais calor do que é aqui.

as casas acordavam ferventes e quando era mesmo pequena ia com a avó, ainda o sol dormia, tirar o leite da vaca para que, ao amanhecer já estivéssemos resguardados em casa. e fingiamos que não dávamos conta de que a casa, nas partes em que não era de pedra, era tão quente como uma poça de água estagnada ao sol.

 

a manhã passava-se lentamente.

a avó cozinhava e transpirava. houve um verão completo que a rotina era a mesma e é a que mais recordo. almoçávamos na hora do telejornal e dormíamos a sesta ainda que, agora, confunda tempos e sementeiras, num grande emaranhado de recordações.

uma vez por semana, mesmo na calor abrasador de agosto, acendia-se a fogueira para aquecer o forno e cozer pão. a avó transpirava de manhã à noite: quando amassava a farinha com a água, quando fazia o sinal da cruz no pão por cozer, quando varria as brasas do forno e as transportava com uma pá de ferro, quando colocava o pão, ainda só farinha e água, dentro do forno fervente, quando tapava o forno com uma porta de ferro e colocava farinha com água nas frinchas para impedir o calor. sempre embalada por uns quarenta graus à sombra. 

transpirávamos todos depois.

sentávamos-nos no pátio, debaixo de um pequeno coberto mas o calor inundava tudo vindo do forno, vindo do sol. às vezes fazíamos limonada, da água do poço que aquecia muito rápido. e os dias eram longos, e as tardes imensas sobretudo quando, ainda ferventes, se ia às terras fazer o que as terras pediam e não esperavam.

 

quando um incêndio deflagrava ao longe o pânico inundava-me com a mesma intensidade do calor.

as pessoas vinham à rua e telefonavam, em telefones pretos com teclas que eram um disco giratório, para os bombeiros da vila. as sirenes eclodiam pelo ar e mais pessoas se afligiam. subíamos a terraços, escadas e pontos altos para ver o fogo. e havia o medo. medo da morte de um sustento que permite uma vida digna. medo da perda de tudo o que consistia quem éramos. a morte de uma vaca, de um porco, de umas árvores num pinhal podiam significar a morte da dignidade entre comer ou não. 

o fogo era um demónio no verão que nós assistíamos, muitas vezes, do outro lado do rio. dizíamos "aqueles já estão habituados, todos os anos a mesma coisa" mesmo que do nosso lado, de vez em quando, também deflagrasse e as sirenes de repetissem em ecos de medo. 

 

é difícil perceber-se o trauma da perda de nada quando o nada é o tudo que se tem.

é difícil entender-se que as pessoas não queiram sair das suas casas, sobretudo quando parecem, aos nossos olhos mimados, barracas pobres e feias. juro que entendo e ao longe, visto daqui, aquela recusa do abandono parece-me uma imbecilidade.

mas não é.

chorei tanto este fim de semana, nas reportagens atrozes que iam passando, a exploração de quem perdia quem era, as lágrimas, os gritos, chorei tanto porque me lembrei de quem fui e de onde vim. ou melhor: de quem sou e, provavelmente, onde terminarei.

lembrei-me do valor de uma árvore. da sombra, da madeira que nos aquecia no terror gelado do inverno ou dos frutos que apanhávamos e comíamos como guloseimas.  

lembrei-me do significado de uma casa que se construiu a vida toda mesmo que pareça velha, acanhada e pequena.

lembrei-me do sentir bruto, na dor sem palavras bonitas.

lembrei-me disso tudo e a dor que me consumiu foi maior do que o calor todo que senti uma vida.

 

o terror do fogo, a empatia da perda de quem perde tudo, a compaixão por quem morre consumido em chamas tem em mim esta dimensão maior porque podia, literalmente, ter sido comigo. não me faz melhor pessoa.

a transformar-me é em egoísta.

 

odeio este tempo.

também me lembro agora de onde vem este ódio visceral. 

 

(e estes pedidos abundantes das tvs, estes 760 que me inundam a caixa de mensagens por pessoas que acham que devem lembrar-me de telefonar para "ajudar" quem perdeu absolutamente tudo, dão-me agora vómitos. causam-me uma indignação tamanha que sinto vontade de insultar tudo e todos.

quanto desse dinheiro chega às vítimas? quantas vistorias se fizeram a essas iniciativas e se concluiu que, efectivamente ajudaram?

quanto dinheiro fica pelo caminho, retido em quem não precisa?

dar a merda de cinquenta cêntimos no sofá, enquanto nos abanamos ao fresco e dizemos "coitados" para a tv pode aliviar a consciência e conotar-nos como bons humanos?

tende juízo. tende vergonha!)

oh vai ver ali:

publicado às 12:05


1 comentário

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De Olívia a 20.06.2017 às 12:51

Tu partiste para a cidade, eu fiquei na aldeia.
Ano após ano, verão após verão chega o calor, esse calor de que falas sinto-o agora. Temos mais comodidades, verdade. A nossa casa parece menos frágil do que a da minha avó, mas quando o fogo anda por perto é inevitável que nos perguntemos: e agora? As pessoas da aldeia vivem e são da terra, o primeiro instinto não é fugir, mas acautelar o que lhes pertence... ficando a lutar até o último fio de água correr pelas mangueiras de quintal... se isto parece um absurdo para algumas pessoas, para mim parece normal, eu conheço gente desta, convivo com elas diariamente.
A ajuda também a quero dar, ainda não sei como. Vou esperar que existam grupos organizados e que se saiba exatamente como fazer.

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