Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




os compromissos da vida

por M.J., em 31.08.16

sou uma medricas da eternidade.

olho para mim e o meu percurso nas cortinas da vida e questiono-me da motivação para cada compromisso tomado, para cada salto dado, para cada pedaço de responsabilidade que assumi. há alguns muitíssimo claros, outros muito dúbios e ainda aqueles que afirmo, juntando os dois pés quase num saltinho, que não assumirei jamais.

uma medricas, diz-me a mamã, sem compreender. 

uma medricas, é certo.

assusta-me o definitivo. não ajudou nadinha de nadinha a minha formação académica nem experiência profissional. não ajudaram as dezenas de execuções feitas em nome de bancos ("e depois, sabe, o ideal era mesmo comprar casa, uma pessoa "ajuntou-se", assentou na vida, ia pagar renda o resto do tempo? o banco emprestou mas agora... como? o que é o spread?"), as dezenas (quase centenas) de insolvências ("a conjectura, foi o que foi, que fiz tudo a pensar na família. correu mal o negócio mas se corresse bem era para todos. o que é isso da exoneração do passivo restante? tenho de dar dinheiro a quem?"),  os mil divórcios ("oh, sabe como é, há sempre qualquer coisa. uma pessoa descobre que afinal não somos o testo da panela e agora temos de nos desfazer da casa mas enquanto não aparece comprador vivemos nela, os dois, e eu até já lhe perdi o medo... quanto é que se paga à conservatória? tanto? e se ele não quiser assinar os papeis e for para tribunal?"), as inúmeras regulações de responsabilidades parentais ("como? cento e cinquenta euros de pensão de alimentos? está maluca? mas algum dia o meu filho precisa de trezentos euros por mês? isso é para mantê-la, é o que é, e eu cá não encho a barriga a pançudos)... entre mil coisas.

 

assusta-me porque, na maioria das vezes, a corda parte do lado mais fraco.

parte do lado que assumiu os encargos ("repita lá isso!? o banco fica-me com a casa e eu ainda tenho de pagar o resto da dívida? então mas se me emprestou o dinheiro para comprar a casa..."), do que acreditou no negócio ("tenho de dar o meu rendimento a um fiduciário? mas quem é esse? mas porquê?), daquele que não tendo culpa nasceu das loucuras (às vezes amor) de dois adultos que mal sabiam o que é sacrificar-se por um terceiro ("não o vejo há seis meses. a mamã diz que se ele não paga não tem direito a estar comigo".)

 

assumo que não tenho a maturidade para comprar casa.

não tenho a estabilidade emocional (nem onde cair morta, verdade seja dita) para passar uma vida inteira a pagar por quatro paredes. e se um de nós desistir? e se um de nós acordar uma manhã, pegar na mochila preta e for ver o mundo? sabem quantas pessoas o fizeram? e se o desemprego bater à porta?

e se... e se... e se? 

não tenho a capacidade definitiva de trazer ao mundo um pedaço autonomo de mim. e se a doença voltar? e se perceber, de um trago, enquanto bebo uma cerveja, que ainda não vivi metade do que era suposto e não o posso fazer com um ser nos joelhos? e se tomar consciência que seria muito mais feliz, muito mais livre e sem amarras, se não tivesse aquele pedaço descomunal de responsabilidade a depender do que sou?

e se acabar, como tanta gente - mas tanta - na contradição do dizer (e sentir) que gosto muito do puto - o mais importante da minha vida - mas tudo seria muito mais fácil sem ele?

 

ninguém pensa nos e ses da vida? ou serei eu que penso tanto neles que me assumo total e completamente incapaz de alguns compromissos eternos que não têm a mínima possibilidade de serem revertidos?

ninguém vê os telhados do vizinho a arder?

assume-se, com encolher de ombros, que tudo se faz, tudo se paga, tudo se cria, para tudo há uma solução, até para a morte (que passa por morrer)?

 

acredito - claramente - que deixar-nos bloquear pelos e ses das inseguranças incapacita a vida. 

mas tomar decisões estruturantes sem olhar para nenhum deles, assumindo que somos diferentes, especiais, melhores, maiores, mais fortes, mais capazes, mais eternos, é tão ingénuo como a história do porco que queria ter asas.

 

equilíbrio é o caminho, não é?

é que acreditem, nas mil atrocidades que fui vendo na vida, não houve nunca - e foram tantas minha santa inácia - uma pontinha que fosse de equilíbrio.

não houve nadinha de pensamentos dos "e ses".

e a conclusão nunca foi bonita. 

 

[1. sim, meus senhores, casei! sabem quantas noites passei a pensar nisso antes de o decidir? quantos e ses pus em cima da mesa?

2. para que fique claro: nenhum dos diálogos entre parêntesis existiu realmente.]

oh vai ver ali:

publicado às 12:50


2 comentários

Sem imagem de perfil

De petrolina a 31.08.2016 às 13:12

Nas mil atrocidades que viste correu mal. Ninguém procura ou precisa (para o decorrer de uma vida banal) de um advogado se estiver a correr bem, não é?
Ponderas muito os "ses" porque conheces demais o que acontece quando corre mal...Mas e se pensasses nos outros em que corre bem? Será que sentias a mesma (talvez tola) esperança de que sim, pode dar certo e que sim, pode ser possível que até sintas que sem um ser acoplado tudo seja mais fácil (que se sente, bem entendido) mas que ao mesmo tempo nada te recompense aquele amor?
Comprei uma casa. Mas não casei. Tive um filho. Pensei em alguns ses, de certeza que não em todos, senão não teria tomado nenhuma das decisões. Mas também como costumo dizer quando me assolam demasiados ses (se eu tivesse conseguido, se eu tivesse ido se eu tivesse feito ..."se o meu avô tivesse rodas, era um carrinho" ...
Imagem de perfil

De M.J. a 01.09.2016 às 09:30

aqui também se diz o mesmo. substitui-se é "rodas" por "rodinhas" :D


compreendo. a soluação é o aquilibrio.
o problema é consegui-lo.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



foto do autor



e agora dá aqui uma olhada