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[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 11 | 30 de isolamento | 9 de abril
Choveu o dia praticamente todo. E durante a noite, que acordei várias vezes.
Ao menos isso.

Fiz pão de manhã.
Percebi que o pão comprado no domingo acabou e não me apeteceu ir à padaria e dar de caras com filas de quilómetros. O pessoal leva demasiado à letra o #vaificartudobem e assume que já está tudo bem.
Olhem que não está.

Pela primeira vez o pão ficou decente.
É mais bolo do que pão, vá, ou pelo menos leva açúcar: mas em tempos de guerra não se limpam armas. Só fornos. E levedou, é o que interessa.
Haja fermento

Almoçamos cachorros quentes que não me apetecia cozinhar.
Bem bom

Não fiz nada de jeito o dia todo, que parece que já é férias. Pelo menos é o que diz a agenda. E o espírito de festividades é enorme.
#not

A  mamã ensinou-me a fazer aletria à distância. E a meio da tarde conseguimos 30 minutos sem chuva para a caminhada diária.
Foi bom

Vou dar banho ao puto e ver se encontro restos no frigorífico para a janta. Por este andar ganho raízes no sofa.
#whocares

Citação do dia: Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. - Eugénio de Andrade

 

Dia 12 | 31 de isolamento | 10 de abril
Começo já por aqui: fiz um ovo/coelho de Páscoa. Ou melhor, o rapaz fez, eu colei e disse umas cem vezes ao miudo para não comer o material.
Gostou muito de mergulhar as mãos em tinta, depois chorou porque não o deixamos lambe-las.
Cheguei ao fim cansada e com as mãos cheias de cola.
Ganhei ainda mais respeito por todas as educadoras deste país. .
Ontem acendemos a lareira.
Li um pedaço, ouvi música e depois adormeci a ver star trek. Valeu pela sensação de conforto e normalidade.

As tradições são para manter por isso hoje almoçamos bacalhau. E à noite vai polvo.
É mais gula do que penitência mas não fui eu que criei a regra.

De manhã comprei pão para a semana toda.
E fomos caminhar 20 minutos.
O miúdo percebe sempre que vamos sair e fica muito feliz. Adoro viver aqui.

Lavei 3 máquinas de roupa (não entendo tanta roupa suja) e de tarde nada de chuva.
Ma-ra-vi-lha.

Foi um bom dia.
Sinto que hoje não há covid que m'aflija.
Vale a pena ser santa a sexta.
Até amanhã.

 

Dia 13 | 32 de isolamento | 11 de abril
Resumo do dia muito resumido: limpei de manhã, cozinhei de tarde.
Sinto-me a escrava Isaura.

Primeiro que limpar aqueles armários da cozinha é uma chatice. Depois é uma sensação estúpida limpar aquilo tudo e passado duas horas o puto sujar com as mãos gordurosas cheias de baba no chão e em todo o lado onde chega.
Dói.

Almoçamos o resto do polvo do jantar de ontem. Não era o da mamã mas escapava bem.
#podiaserpior

Caminhamos depois da sesta dele, no sítio do costume. O rapaz queria ir à praia, farto da paisagem habitual mas regras são regras de maneiras que nicles.

Depois disso vai de cozinhar. Ele é sopa, ele é comidinha pra criança, ele é bolo,
[que a propósito correu mal, é ver os stories enquanto há], ele é cortar, lavar, passar.
Devia chamar-me Maria, está visto.


Esteve sol, nublado, bom tempo e nem por isso. Seja cão se entendo.

Não tenho amêndoas nem ovos de Páscoa. Mas o puto deu mais de 10 passos sozinho hoje.
Umas compensam as outras ;)

Páscoa Feliz minha gente.

 

Dia 14 | 33 de isolamento | 12 de Abril, domingo de Páscoa
[Primeira parte do Diário]
Acordei com alergia. Isso significa que passei o dia todo, incluindo este momento, a espirrar e a assoar o nariz. Já me dói o céu da boca e o peito, para não falar do próprio nariz, quase em carne viva.
Era tudo o que precisava agora.
As desgraças neste tempo não vêm só aos pares.

Fomos caminhar de manhã, deprimidos o suficiente por esta Páscoa sombria. As ruas estavam desertas [imaginar aqui a voz do Espadinha, sff] e os pássaros cantavam mais do que o habitual.
Desfiei memórias de outras Páscoas, mais bonitas e senti uma ligeira dor.
Temperada com espirros, claro está, e lenços.

Almoçamos camarão.
Se é para passarmos por esta bosta durante meses, sem frequentar restaurantes, vamos comer bem em casa enquanto for possível.
E juntei mousse de chocolate ao pão-de-ló enjeitado.

O miúdo dormiu uma sesta anormalmente longa e caminhou algum tempo ligeiramente sozinho.
Depois abriu o ovo e provou uma nesga de chocolate pela primeira vez na sua existência. Gostou mas é, tal como ele, vez única.

Passei o resto da tarde no sofá, a curar a alergia e a soneira provocada pelo antihistaminico.
Estou de mau humor. Apetece-me gritar ao mundo que quero a minha mãe.

Tenho elogiado a atuação dos nossos políticos muito contra alguma opinião. Mas se pudesse dava hoje com um carneiro morto nas trombas da ministra da saúde: não se diz a um povo no dia de Páscoa que esta porcaria pode prolongar-se ad eternum e, quem sabe, nunca mais voltará ao normal.
Isso é o mesmo que dizer aos gauleses que o melhor é suicidarem-se já em vez de combaterem os romanos.

Uma nota positiva: a nossa orquídea oferecida há 5 anos, que nunca floriu desde então, presenteou-nos hoje com flor.
É só uma coisita que não vale nada, eu sei. Mas ajudou mais do que o ovo de chocolate.

 

[Segunda parte]
Ainda mal tinha terminado de escrever a primeira parte do diário de hoje quando em tempo real vi o miúdo cair de cabeça na esquina da mesinha da sala.
Bateu com o sobrolho.
Inchou imenso e fez uma ligeira ferida.

Entrei em pânico.
Pensei que não valia a pena ligar à saude24 que iam demorar meses a atender.
Pois bem, atenderem logo
Quando digo logo é logo.
Muito surpreendida.

Criança está bem e não precisa de ir às urgências.
Só precisa de jantar menos o que vai ser um drama franciscano.
O que não chorou na queda vai chorar pelo prato meio cheio.

Ainda me doi o coração do medo.
E penso o que seria se vivesse num país governado por loucos com o Brasil ou os EUA.
Sinceramente, já não quero mandar com um carneiro morto em ninguém.
Bem, talvez na mesa, mas isso não conta.

Não ganhei para o susto.
E continuo a espirrar mas agora o ranho confunde-se com o choro.

 

Dia 14 e 15 | 33 e 34 de isolamento| 13 e 14 de abril*
Demasiado lixada ontem para fazer diário. Na verdade, se pudesse passava-lhe uma esponja por cima.
Presumo que seja normal, em tempos destes, esta dualidade de emoções e dias negros.
Ontem foi o meu.

Para compensar rapaz saiu a comprar meio quilo de mimo na pastelaria melhor cá do sítio.
Não era um bem de primeira necessidade. #safodrique
Crucifiquem-no.

Mais bem disposta hoje.
Fomos à praia de manhã cedinho.
Caminhamos 15 minutos e encontramos 5 pessoas e 3 cães. Querem ver que os cães podem passear e eu não?

Além disso, segundo os entendidos, se toda a gente usar máscaras ficamos protegidíssimos por isso #nadaatemer

De tarde montei o estandarte no pátio e passamos duas horas, eu e o puto, a brincar à sombra com a brisa quente.
O rapaz açambarcou novamente o escritório para dar aulas remotas e a alternativa era trabalhar na sala enquanto ouvia o bando dos amiguinhos a ir acampar, ou a fazer bolo de cenoura. #dispenso
Os clientes também estão em casa e estão, por isso...

Os meus chinelos novos chegaram. E a minha melhor amiga (piroso ter uma aos 32 anos mas é mais triste quem não tem nenhuma) mandou-me álcool gel sem ser necessário vender a casa para o pagar.
Agora é só transformar umas meias velhas em máscaras et voilá: #deusnocomando

Estou azeda.
Podemos estar azedos no instagram?
Vou ali comer bolo (acaba-se o bicho, acaba-se a peçonha). De qualquer das formas vamos sair disto falidos, com o cabelo mal cortado e mentalmente instáveis.
Acho que mais gordo, menos gordo... não virá daí mal ao mundo.

* percebi agora que me enganei na numeração dos dias. não era 14 e 15 mas 15 e 16. no entanto, para manter a uniformidade da coisa fica assim na mesma. que falta de profissionalismo.

publicado às 10:30


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