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Quarentena | O diário de #21 a #25

por M.J., em 08.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 21 | 40 de isolamento | 20 de abril
Hoje o diário é do que NÃO fiz:
Não arrumei a roupa.
Está ali em cima da mesa da sala, num cesto, porque se a arrumo noutro lado fica ainda mais tempo sem ser devidamente dobrada e arrumada.

Não li.
O kobo continua fechadinho, cheio de livros. Não têm sido bons dias para leituras.

Não fiz o almoço.
Comemos restos de panados de frango feitos no forno que sobraram do jantar de sexta.
Panados requentado não é lá grande espingarda mas era isso ou cozinhar.
A escolha foi óbvia.

Não fiz o jantar.
Vamos comer restos de porco que sobraram do almoço de ontem. Era isso ou mandar vir qualquer coisa e não me apetece comer a pensar quantos covids estou a enfardar.
Porquinho requentado também é bom.

Não vi tv.
Só a conferência de imprensa que nos educa e informa nos tempos atuais.
Sem paciência para filmes ou séries novas.

Não fiz exercício.
Nem a simples caminhada por campos e vales.
Choveu o dia todo por isso foi ficar em casa.

Não falei com praticamente ninguém.
O homem deu aulas o dia todo fechado no escritório e o miudo só diz nanana.

Por outro lado, trabalhei manhã e tarde, nos intervalos de entreteter o miúdo, alimentar o miúdo, caminhar atrás do miúdo, dar banho ao miúdo, adormecer o miúdo e arrumar as tralhas do miúdo. .
Que raio de dia.

 

Dia 22 | 41 de isolamento | 21 de abril
Hoje li, arrumei a roupa, fiz o almoço, vou fazer o jantar e ainda caminhei os 30 minutos da praxe.
Pronto.
Começo já assim que é para me sentir orgulhosa por ter quebrado a tendência de ontem.

Acabei de ler "A Senhora dos Rios" - de Phillipa Gregory - que não andava nem desandava. Ontem à noite peguei nele com garra e acabei hoje.
Não é aquela cooooooisa toda mas gostei.
Agora vou passar para a Rainha Branca cuja série vi há pouco tempo na HBO.
E parece que também há uma vermelha...

Caminhei com o miúdo.
Estava vento e ele foi o caminho todo a bater palmas e a mandar beijinhos.
De manhã dei-lhe uns potes com tampa e balões com arroz.
Foi giro mas a educadora teria feito isto com outra classe.

O rapaz esteve a dar aulas o dia todo.
Já nem sei como é trabalhar no escritório sem ouvir em fundo a BabyTv e os guinchos do miúdo.
Igualdade de género?
Devia ser mas continua a calhar-me a mim os almoços, jantares, aspirar a casa para o miúdo não comer migalhas e afins.
Diz que é por ter de dar aulas à distância e pelo facto de a minha empresa ter os clientes moribundos com a crise.
Pode ser.
Mas ainda assim, creio que se eu tivesse uma pila seria diferente.

Por causa das coisas vai pintar o muro sozinho.

Só por curiosidade: têm contribuído para as audiências da teleescola? Que estão a achar?
Até amanhã.

 

23 | 42 de isolamento | 22 de abril
Senti saudades logo de manhã.

Acordei a pensar naqueles tempos, há 50 anos atrás, em que levava a criança à creche, trabalhava a manhã inteira no escritório em vez da sala, sem ouvir babytv, almoçava fora às vezes, tomava café na praia muitas vezes, e trabalhava a tarde inteira sem pensar em covids, crise económica e quarentena.
Ah! As saudades dessa longínqua época!

Como não vale de nada ter saudades, tomei ações:
Apreciei a cidade através do íman do frigorífico e planeei uma voltinha à tarde.
Exigi uma manhã de trabalho no escritório. O miúdo ficou com o pai na sala a meter os pés onde não deve.
"Esqueci" de fazer o almoço pelo que acabamos por mandar vir bacalhau com natas de um dos nossos restaurantes favoritos.

Comemos assim às duas da tarde, quando o miúdo acordava e pedia comida também.

De tarde o turno educadora foi meu por isso abancamos os dois, eu e a criança, no pátio.
Seria mais giro se ele não estivesse o tempo todo a tentar comer os meus chinelos, voltar para dentro e com ar de nojo da relva.
Que diva, meu deus.

Ao final da tarde fomos então dar uma volta de carro.
Não saímos mas deu para apanhar ar, lavar as vistas e pensar no que vamos fazer quando o estado de emergência for levantado e esta longa, longa era de trevas se desvanecer.

 

Dia 24 e 25 | 43 e 44 de isolamento | 24 de abril
A verdade é que tenho de me lembrar algumas vezes os motivos de escrever este diário.

Há dias em que não tendo nada de significativo a apontar parece-me perda de tempo. Depois lembro-me que é exatamente por isso, para não perder o fio à meada, que aponto as coisitas que fazem o dia.
Para que todas as horas não se tornem numa nuvem indistinta de nada.

Ontem fui às compras de manhã. Encontrei gel desinfetante nas prateleiras e não havia filas.
Cheguei a casa muito contente até perceber que me tinha esquecido do gel na caixa ao pagar.

Hoje fui buscá-lo.
A fila chegava ao estacionamento.
Deus .
Antes gostava de ir às compras. Agora, só de pensar em ter de tomar banho mal chego a casa, desinfetar produto a produto (incluindo o desinfetante) e sobreviver aos covids todos perco a vontade.

Nem imagino quando tiver de ir comprar roupa e experimentar.
Que salganhada!

Depois, ontem, não saímos.
Fiquei no pátio a tarde toda com o miúdo, a ler e a impedi-lo de comer coisas estranhas.
Creio mesmo que passei pelas brasas.

Hoje está cinzento pelo que estamos dentro de casa, a fazer dos peluxes bolas de futebol.

Consegui entregar um trabalho em tempo, hoje de manhã, o que me pareceu uma grande vitória.
E arrumei um cesto de roupa quase do meu tamanho. Isso devia dar-me direito a um estatuto qualquer.

Estou a cozinhar moelas.
Vou partilhar tudo no stories.

Entretanto tirei os livros ao miúdo.
A gota de água foi quando rasgou a página de um.
Consigo perdoar muito coisa, incluindo a desarrumação dos armários da cozinha.
Rasgar, roer ou estragar livros é que não, meu menino.

Anunciaram o levantamento de algumas medidas em maio.
Sinto-me aliviada.
Esta prisão forçada, esta angústia pelo panorama económico está a dar cabo de mim. E olhem que nós nem estamos no vermelho.
Nem imagino quem esteja com medo de não conseguir pôr comida na mesa.

É tudo uma consumição, uma valente bosta, uma sensação de que fomos apanhados na esquina e nem tivemos assim tanta culpa, desta vez.

E amanhã é dia de limpezas, só para ajudar.
Arre.

Contem-me: como estão?

publicado às 10:30


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