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Quarentena | O diário de #6 a #10

por M.J., em 05.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 6 | 25 de isolamento | 4 de abril

Comecei o dia a regar plantas. As suculentas cresceram de forma estranha e acho que é por estarem dentro de casa.
Se calhar vão para a rua outra vez.

Limpei a manhã toda.
Irra.
Dei cabo das mãos com lixívia e misturei-a com um produto qualquer que não devia.
Ficou um cheiro estranho.

Percebi que tenho mais produtos de limpeza que comida na despensa.
Casa pobre mas limpa, não é o lema?

A sala ficou arrumadinha até o miúdo vir da sesta. Meia hora depois e isto estava um pandemónio. Há fotos do antes e depois. É só ver para me dar razão. .
De qualquer das formas teve direito a mimo por uma hora: colo, chupeta e tv. Como prenda caminhou 5 passos sozinho. Não consegui tirar foto: estava atrás dele para o segurar.

Caminhei 10 minutos: telefonaram-me e não se ouvia nada com a ventania. Voltei para casa. Mesmo com vento fabuloso.
Quando entrei vi passar um carro da polícia com a frase "fique em casa".

Esteve cinzento o dia inteiro.
É sábado.
Costumávamos tomar o pequeno-almoço almoço na praia, ou o café depois de almoço. Hoje tomamos em casa, mas brindei-nos com chocolate.

Fiz croché ao fim da tarde porque não sabia mais o que fazer.
Ainda não limpei o exaustor.

O gato da vizinha fez-nos uma visita.
Lavei 3 máquinas de roupa. Está toda seca mas por dobrar. Talvez passe alguma em agosto.
E vocês?

Música do dia: "ainda não acabei" de Manel Cruz.

 

Dia 7 e 8 | 26 e 27 de isolamento | 5 e 6 de abril
Ontem fomos comprar pão de manhã. E outras coisas que o colesterol gosta e que servi de almoço com sopa. Não havia vivalma na pastelaria.

Choveu o dia todo. Hoje choveu até meio da tarde. Não custa nada estar em casa com chuva. Pelo menos para mim.

Li parte do segundo livro de Os Jogos da Fome.
O miúdo encontrou-o em cima do sofá e mordeu-lhe a capa. Lindo serviço num livro que não é meu.

Comecei a ver Peaky Blinders e quase acabei a primeira temporada. Bastante boa. Adoro aquele sotaque cerrado.

Não fiz grande coisa no domingo. Nem hoje. Trabalhei de manhã mas está tudo muito calmo. Reparei que a agenda está vazia desde meados do mês passado
Reflexos do tempo.

O miúdo andou a desfazer brinquedos. Agora está ali molengo. A chuva faz disto.

Caminhamos 15 minutos no sítio do costume. Vimos uma família ao longe e um cão fez-nos companhia durante um bocado.

Temos uma infestação de caracóis que aparecem no não-jardim sempre que chove. Ontem o rapaz sacou do veneno e fez um holocausto. Há cascas por todo lado. #nojo.

O kobo chegou hoje e passei meia tarde e organizar ebooks. Alguém tem algum para a troca?

Vou cozinhar daqui a nada e pôr o miúdo a dormir (que, a propósito, descobriu recentemente vários tipos de choro: o guinchado, o com balbuciamento "nanananananana" e o buaaaaaaaaaa literal).

Daqui a nada é Páscoa e ainda não comi amêndoas.
Que soneira.

Aposto que no meio das vossas quarentenas ninguém matou caracóis.

Hoje não há música mas citação:
“Os dias terríveis são, afinal, vésperas de dias admiráveis." Almada Negreiros.

 

Dia 9 | 28 de isolamento | 7 de abril
Choveu a manhã inteira. De tarde esteve sol. O tempo está tão bipolar como eu.

Já não posso com o bando dos amiguinhos da BabyTv. O miúdo quer ver aquilo em loop e tenho para mim que os bonecos são atrasados cognitivamente.

Além disso, tira tudo o que seja almofadas do sofá, junta os tapetes todos que consegue num monte e sujou os vidros com aquelas mãos gorduchas cheias de baba.
Arre.

Praticamente mal vejo o rapaz que tem um prazo qualquer para hoje e está trancado no escritório noite e dia. Sinto-me mãe solteira excepto na hora das refeições que ele vem ao cheiro da comida.

Trabalhei na sala. Lavei uma máquina de roupa (mistério como se suja tanta roupa nesta casa) e fomos varridos a massa com atum ao almoço.

Caminhei 5 minutos até começar a chuviscar.

O rapaz ofereceu-me um rato. O desgraçado muda de cor e faz doer os olhos.

Blindamos o andar de cima à prova da criança. Agora só falta fazer o mesmo às sardaniscas que encontrei na entrada.
Isto mais parece uma quinta.

Estou em casa e farta de pessoas. Se vejo mais alguém a agradecer merdas como estar vivo pergunto se o vírus também não é de agradecer. Qual é a paranóia do pessoal querer sentir-se muito grato e em dívida ao universo por esta situação merdosa?

Citação do dia: estar vivo é o contrário de estar morto de Lili Caneças.

 

Dia 10 | 29 de isolamento | 8 de abril
Tive de ir comprar fruta. Não sei o que acontece com a fruta que apesar de comprar imensa não dura nada.
Havia muita gente na estrada e mais ainda no supermercado. Quando entrei nada de filas, quando saí a fila para entrar chegava ao parque de estacionamento.
Haja paciência.

Vi dezenas de pessoas com máscaras. Não achava mal se as soubessem usar. O tempo que perdem obcecados com "NÃO HÁ MÁSCARAS, VAMOS TODOS MORRER, VOU USAR PAPEL HIGIÉNICO PARA FAZER UMA" podiam consultar o amigo google para saber como se usa.
Não ponham a desgraçada debaixo do nariz.
E enfiem as mãos noutro sítio qualquer que não a fuça, pá.

Quando cheguei estava irritada com o mundo. E comigo: esqueci ambientador para o wc e trouxe mais chocolate.
Sinceramente.

Caminhei um bocado mas, como nos últimos dias, começou a chover mal subimos a rua.
É o são Pedro a gozar comigo. 

Filho da mãe.

O puto acordou da sesta mal humorado. Fez uma birra de tal forma que apeteceu-me ir comprar tabaco. Depois lembrei-me que ia ver gente a usar mal a máscara e desisti.

Acabei a tarde a rodar as caixas de música cá de casa. Acalmou a mim e à criança. 


A ver se logo leio um pedaço. Com o kobo deixei de ter 30 livros em lista de espera para passar a ter 200.
Atrasada

Citação do dia: Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.
Charles Bukowski

publicado às 10:30


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