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se ao menos...

por M.J., em 18.11.15

há uns anos atrás tive de dar a noticia a um cliente de que ia perder a casa. a casa onde vira crescer os filhos e agora os netos. onde passara quarenta anos de vida. a casa que era tão parte dele como um braço ou uma perna. era só uma casa, bem sei, mas continha nela dias e horas de gargalhadas. esperanças, sonhos, os primeiros passos dos filhos para quem vivia. as decisões de família a quem era devoto. os móveis herdados de um tempo em que não se comprava a prestações. era só uma casa mas era toda a vida de um homem. 

foi um dos momentos mais intensos da minha vida. um dos dias em que mais me senti deslocada do que sou, a entrar num mundo que não era meu e a sofrer consequências das escolhas de vida que não foram as minhas.

sempre que um amigo, meu ou do rapaz, decide entrar numa vida adulta, pegando em tudo e comprando casa num negócio desigual com os bancos arrepia-se-me a espinha, doem-me os ossos, vejo sem ver nas caras de esperança de quem constrói uma vida o desalento de alguém que perde tudo em que investiu essa vida. desde o espaço, o dinheiro, as recordações e as paredes que o albergaram nas alegrias e nas dores.

sinto sempre uma vontade de abanar, berrar alto num aviso premonitório de quem não acredita noutra coisa que não esse final: a perda de tudo o que se sacrificou para ter. 

uma casa é só uma casa. uma casa nossa que matamos para comprar deixa de ser só a casa. e uma casa nossa que se traduz em sacrifícios e que nos é tirada no fim é como um pedaço de corpo que se arranca. 

 

se ao menos as pessoas, hoje em dia, tivessem meio de se informar como realmente funcionam as coisas e pusessem a racionalidade à frente dos sonhos!

se ao menos existisse internet!

se ao menos não vivessem todos na serra e não acreditassem no pai natal.

se ao menos tivessem como saber o que são spreads...

se ao menos tivessem calculadoras para fazer contas.

se ao menos tivessem exemplos para perceber que viver sem conseguir poupar cêntimos no final do mês vai acabar, inevitavelmente, mal...

 

 

 

publicado às 11:22


12 comentários

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De sofiaguerreira a 18.11.2015 às 11:54

Fogo,uma pessoa ter que perder a casa onde sempre viveu deve ser muito difícil e totalmente com muita falta de coragem,lamento por essa situação,espero que nunca venhas a perder a tua!! Beijinhos e bom resto de semana!!
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De Sarabudja a 18.11.2015 às 12:11

Já sou adulta há alguns anos e durante muitos deles fui apontada como exemplo de pouca maturidade por não comprar casa.
Quase todos os que me rodeiam compraram casa. Eu decidi que quero arrendar.
E arrendar sempre me pareceu a solução mais sensata porque: a) o senhor jeitoso que vive em comunhão de quase tudo comigo não é de cá; b) tenho dois filhos, portanto a casa quer-se elástica de forma a acompanhar o crescimento, as saídas e entradas da criançada que se transformará em gente com vida governada por eles; c) mantenho o mesmo emprego há anos, mas o salário e as condições já melhoraram, já pioraram, andam ali nas mãos de um conjunto de pessoas que não sabe muito bem a falta que pode fazer 50 ou 60 euros num orçamento de uma família; d) os impostos, o disparate que são os impostos que se devem pagar por ter uma casa em nosso nome, apesar de ser propriedade do banco; e) tenho mudado de vizinhança, de ares e de sei lá eu o quê, cada vez que me canso de alguma coisa, ou alguma coisa nos limita; f) eu sei que nunca vou ter uma casa a que chamo minha, mas sou pouco dada a vaidades com o que o dinheiro compra; g) percebo quão dificil é fazer a manutenção de uma casa quando telefono ao senhorio (super prestavel) para comunicar alguma reparação que deve ser feita.

Conheço algumas pessoas que lutam uma batalha inglória para manter o tecto que cobriu alegrias e amarguras, que não consegue quebrar o vínculo do que é material, que paga ao banco por uma casa que não consegue vender e não se moldou às necessidades físicas dessas pessoas.

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De M.J. a 18.11.2015 às 17:10

penso exactamente como tu. nunca consegui transmitir a ideia. respondem-me sempre que pagar renda é pôr dinheiro fora. mesmo quando digo que mais pôr dinheiro fora é ir para o estrangeiro para pagar a casa que se comprou em portugal e onde não se vive...
são aquelas coisas...
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De SP a 18.11.2015 às 12:30

Vivo num T2 alugado, ontem recebi a notícia de que será a minha morada só até Março.
Estou petrificado... :(
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De M.J. a 18.11.2015 às 17:10

há mais t2s no mundo. acredita. pior era se o t2 que compraste fosse à vida porque o não consegues pagar.
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De Psicogata a 18.11.2015 às 15:27

Tão verdade, se não houvesse informação eu ainda entendia, mas com tanta informação disponível não sei como as pessoas se atiram a um crédito a 50 anos.
Compreendo ainda menos quando é um crédito para um apartamento, pagar durante 50 anos um apartamento, um imóvel que não controlamos a 100% e, salvo raras exceções, desvaloriza sempre com os anos.
As pessoas ainda não entenderam que se metem num aluguer de longa duração, as coisas nunca são delas até estarem totalmente liquidadas.
Entendo ainda menos como podem viver sempre no limite, sem poupar um tostão, uma dor de barriga e não têm como fazer face às despesas.
Existem casos e casos, pedir apenas parte do dinheiro, conseguir controlar as contas só com um ordenado em caso de desemprego, ter uma poupança constituída.
Agora comprar porque toda a gente compra e eu também quero e posso a mim também me dá arrepios.
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De M.J. a 18.11.2015 às 17:11

pior: há gente que compra, assina de cruz e não se dá ao trabalho de perceber aquilo que assina. que não percebe termos, qualificações e conceitos daquilo que concorda.
muito triste.
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De Psicogata a 18.11.2015 às 17:45

pior ainda é admitirem isso como se fosse uma coisa normal e rirem-se no final.
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De Corvo a 18.11.2015 às 16:07

Ó MJ.
Não estou a compreender.
Se vive há quarenta...quarenta anos numa casa onde viu nascer os filhos e os netos, vai perdê-la porquê?
Nesses quarenta anos não pagou a casa?
É isso que me custa a compreender.
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De M.J. a 18.11.2015 às 16:15

sim corvo há coisas que custam a entender pelos outros e nem por isso são menos dolorosas, menos reais ou deixam de existir. aconteceu. basta isso.
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De Corvo a 18.11.2015 às 16:25

Sim, basta. Agora compreendo.

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