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ser-se frágil e pequeno

por M.J., em 13.08.19

no domingo  a mamã veio passar cá o dia connosco. agora que começamos a tratar do exterior da casa e o verão (ainda) convida a horas ao ar livre, sem calor infernal e uma brisa suave (há quem lhe chame ventania, mas uma pessoa aficionada por vento como eu acha que é brisa), passamos algum tempo a apanhar ar no trombil antes do almoço.

perguntei se queriam comer por lá. disseram-me que não. almoçamos, por isso, dentro de casa, de tv ligada:

péssima ideia.

 

o miúdo já dormia a sesta. nós íamos falando banalidades com a tv em fundo.

num momento qualquer chamou-me a atenção uma notícia sobre algo que se passava na capital do mundo, governada por um doido laranja: no mississippi ao primeiro dia de escola, uma operação policial detivera centenas de pessoas, imigrantes.

nada de anormal nos tempos que correm.

o que me chocou foi o que veio a seguir: os miúdos, imensos, ficaram a saber da novidade à saída da escola. e o jornalista que falava com uma criança recolhia a reação dela:

a menina chorava copiosamente e dizia, num desespero cego, que precisava dos pais porque não tenho onde ir comer e dormir. e agora? onde como? onde durmo? preciso dos meus pais, chorava. 

e aquelas necessidades, tão básicas, tão assumidas que estão como algo universal dado a uma criança invadiram o ecrã, assoberbaram o meu almoço, apertaram-me o peito.

precisa, é claro que precisa porque é impossível que o faça sozinha.

porque há um motivo para os adultos serem responsáveis por crianças.

porque há um motivo para o estado ser responsável por elas.

fiquei portanto, à espera que na notícia se dissesse que as entidades estatais competentes levaram as crianças a ver os pais, e que as acolheram até a situação se resolver. 

só que não.

segundo o jornalista nenhuma entidade local governativa fez nada quanto às crianças. arrancaram-lhes as famílias e, numa espécie de mundo terceiro, numa espécie de mundo animalesco, numa espécie de regresso às trevas, descartaram responsabilidades quanto aos menores. como se aquelas crianças não fossem crianças. como se aquelas crianças fossem objetos ou pedaços de lixo sem valor: desemerdem-se, desenrasquem-se, voltem para onde vieram. é problema vosso mesmo que tenham 10 ou 11 anos. 

 

doeu-me e não costuma doer.

porque parece que ganhei, como a maioria de nós, uma espécie de manto que me faz encolher os ombros às atrocidades do mundo: almoçamos e jantamos confortáveis enquanto observamos em primeira linha a morte, dor e crueldade na televisão. e não damos um suspiro. já nem encolhemos os ombros. estamos anestesiados. é uma banalidade. é assim o mundo. pronto. 

 

naquele dia, no entanto, aquela menina rasgou o meu manto de indiferença e aquilo magoou-me profundamente.

como se fosse eu. porque na maioria das vezes só conseguimos que nos doa se sentirmos que poderia ser em nós ou em quem amamos. e é triste. 

porque aquela menina, que em prantos dizia que precisava dos pais, fez-me lembrar de como é triste ser-se pequeno, frágil e depender de quem é maior.

fez-me lembrar de como é horrível ter-se seis ou sete anos e ter um medo constante de perder aquele que cuida de nós porque dependemos dele e não somos capazes de subsistir sozinhos.

e esse sentimento de impotência, essa fragilidade de ser pequeno e dependente, essa necessidade de crescer muito rápido para se ser adulto, não era suposta ser sentida por crianças. não era suposto que cravasse as garras na alma de quem é frágil e não tem meios de seguir sozinho.

aquele "preciso dos meus pais para comer e dormir" trazia um grito de medo e sobrevivência que não era suposto uma criança sentir. 

 

olho para o meu filho, de meses, que faz birras (sim, já as faz) porque quer o pato amarelo em vez do urso castanho. olho-o enquanto dorme e sinto espasmos de medo que algum dia ele perceba que precisa de mim para subsistir, para sobreviver. não é suposto.

não é suposto que a vida seja atirada com força a pontos de quem é pequeno e frágil tenha consciência total dessa pequenez e fragilidade e viva aterrorizado no medo que ela o absorva todo.

aquele acontecimento cravou-se no meu peito e ainda me sinto tremer quando penso nele.

fiz uma pesquisa rápida na net. a notícia original está aqui. se vos doer como doeu a mim é melhor que não vejam:

https://www.cbsnews.com/video/children-of-undocumented-immigrants-face-uncertainty-after-parents-apprehended-during-massive-mississippi-raid/

 

 

 

publicado às 10:20


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