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não tenho irmãos.
joguei sozinha ao monopólio, quando era miúda, roubando para mim de mim. brinquei sozinha às casinhas e saltei sozinha à corda e à patela. desenvolvi conversas comigo própria numa pessoa que não existia e a quem pedia conselhos. aprendi a andar de bicicleta com a minha vizinha, a pessoa mais próxima de uma irmã durante toda a infância. chorei sozinha no medo das coisas de adultos e enfrentei sozinha todos os problemas que me obrigaram a enfrentar.
quando cresci tentei arranjar irmãos em todos e alguns que me estendessem um sorriso e se dispusessem a compreender a minha anormalidade social, apenas e só por mim.
não foram muitos. mas foram muitos mais do que merecia.
nunca lhes soube dar o devido valor mas, vistas bem as coisas, nunca nenhum deles conseguiu ver-me integralmente, numa espécie de pessoa, carraça, agarrada a um sentimento de amizade, completo e total. amei pessoas com uma intensidade em nada ligada a luxúria ou paixão. amei pessoas fraternalmente. com mais garra que amava a mim mesma. coloquei-me mil vezes para trás em função dos outros. dos outros com que aprendi outras mil coisas.
creio, agora que penso nisso, que em todas as minhas relação, daquelas sérias, daquelas onde amei pessoas como irmãs, que recebi tanto como entreguei. está equilibrado.
não posso no entanto, mudar o que sou. não posso saltar os buracos que ausência dessas pessoas cavaram na minha alma em tempos. não posso fingir que todas as horas que passei a tentar compor-me do vazio que sentia do seu distanciamento, do seu desprendimento (lícito, totalmente lícito, provocado se calhar até por mim) não existiram.
não posso simplesmente colocar um sorriso amarelo e dizer que sim, o tempo não cavou socalcos, não criou covas de distância. não é meu apanágio. não é assim que funciono. a minha anormalidade não me permite.
na verdade, é sempre mais fácil, comigo, ter uma relação de apenas conhecimento. de horas de copos e gargalhadas. sem mais.
a amizade estraga-me e eu estrago, até desistirem, quem ma entrega.
boa tarde.