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solidão

por M.J., em 07.08.19

às vezes sinto-me sozinha.

não tanto como outrora mas ainda sinto. mesmo quando há gente em casa, na rua, nos supermercados e pastelarias. mesmo quando mando e-mails, atendo telefonemas e vou a reuniões.

sinto-me sozinha, espanto, naquele cliché badalado do repleto de pessoas.

na verdade, sempre senti, acho eu, agora que penso nisso. esta incapacidade gritante de lidar com o outro tinha/tem essa consequência.

 

quando me sinto mais só escrevo.

antes escrevia muito. agora não tenho grande tempo. por isso só penso no que escreveria se tivesse tempo e paciência. depois esqueço o que teria escrito. é como se o tivesse feito sem fazer.

quando a solidão aperta mais vou às redes sociais.

não que ajude, longe disso. um moribundo que esteja para morrer apenas encontra nas redes sociais gente viva, de boa saúde e de férias; ou então gente totalmente morta, depende do que procurar. há uma falta gritante de meio termo.

participo pouco mas vejo. leio com avidez até, às vezes, pensando "caramba, as pessoas pensam mesmo isto? vivem mesmo isto? são mesmo assim?". acho que não são. nunca somos, não é?

deixei de ler blogs. tirando raríssimas exceções. é que é mais do mesmo: viagens. dicas. livros. dicas. maternidade. dicas. lamentos. dicas. séries. dicas. e por aí diante. nunca vi tanta dica na vida. sou capaz de encontrar 7 dicas para tudo. incluindo como não me sentir tão sozinha. alguém já escreveu, filmou, gritou sobre isso.

se já escreveu sobre como amolecer ou endurecer o cocó já se escreveu sobre tudo.

incluindo eu.

 

quando me sinto mais só também leio.

por norma releio. é como encontrar velhos amigos. que não desiludem porque, coitados, permaneceram ali. e eu não os desiludo a eles porque não me veem nem sabem quem sou. é uma relação perfeita.

só que não.

 

dizem que quando temos um filho nunca estamos sozinhas. também dizem que ficamos muito mais sozinhas quando temos um filho. há 7 dicas para nos sentirmos sozinhas quando temos filhos e 7 dicas para não nos sentirmos sozinhas quando temos filhos. é à vontade do freguês. só escolher.

como em tudo na vida.

 

alguém dizia, num almoço onde estive no domingo, que não abria as redes sociais no mês de agosto. exceto o facebook. porque estava toda a gente de férias menos essa pessoa. e isso fazia-a ter uma vontade imensa de estar de férias. e mesmo que quisesse ficar feliz por quem estava de férias acabava apenas por, ao fim de trinta e dois posts e meio sobre o assunto,  ganhar ranço a férias.

sorri. se eu tivesse de férias também tirava fotos disso e publicava. já da solidão que sinto de vez em quando não tiro fotos: não há imagens que retratem o vazio interior.

ou se calhar há.

isso e 7 dicas para ficarem bem tiradas.  

alguém por aí?

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publicado às 13:36


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