Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




somos nós

por M.J., em 23.07.18

talvez porque me convenci que iria demorar imenso tempo a gravidez apanhou-me de surpresa.

de nada valeu a minha melhor amiga (fica parolo dizer melhor amiga aos 31 anos?), que é farmacêutica, me chamar de exagerada quando eu, ao fim de três ciclos sem resultados, disse estar convencida que iria demorar anos e só aconteceria com um golpe de sorte.

de nada valeu ter-me dito que estava a ser radical e que, acompanhando o mesmo tipo de tratamento com várias senhoras na farmácia, haviam muitíssimos bons resultados, tanto mais que era um  problema tão facilmente ultrapassado.

não valeu de nada.

ao terceiro ciclo assumi que não iria acontecer, continuei a vida com a intensidade do costume e não me lembrei mais do assunto.

 

abril foi um mês complicado a nível de trabalho.

dito de outro modo: começou complicado, acabou inacreditavelmente dificil.

assumi projetos e trabalhos com um planeamento de cerca de 12/14 horas diárias de trabalho próprio e planeei os dias dessa forma até ao final do mês. tinha folhas de excel devidamente preenchidas com o assunto e, no modo control freak que me governa, estava convencida do pleno ponto da situação.

a meio do mês comecei a sentir ligeiro mau estar.

assumi ser do trabalho que, pensando que não, era um pouco acima das minhas capacidades. tinha sintomas facilmente confundidos com outra coisa qualquer: dores de barriga, de cabeça, um ligeiro e repentino estado de humor variável (o que em mim não é de estranhar) e, de vez em quando, um ou outro enjoo. 

não liguei e deixei estar, esquecida do resto, convencida que era algo passageiro, uma coisa que comi, uma noite de sono mal dormida, a pressão do trabalho.

 

até que uma noite, num daqueles assaltos de constatação que de vez em quando temos, me lembrei, num salto da cama, de consultar a agenda para ver a data dos planos de tratamento. 

podia ser, disse-me a lógica e a razão. 

mas não era, eu sabia.

no dia a seguir, com as pernas a tremer e uma sensação de inacreditável espanto, o teste de gravidez, comprado na farmácia como quem compra algo oculto e com vergonha, deu positivo.

positivo.

dois traços.

dois traços em vez do costumeiro que eu já estava habituada a ver.

dois traços. 

um mais um.

dois.

eu e outro.

 

estive literalmente meia hora sentada na cama a olhar para ele. 

sem qualquer tipo de reação.

o meu cérebro era uma folha em branco e eu incapaz de raciocinar. 

 

ao fim de meia hora liguei à mamã em prantos. 

um turbilhão de incertezas, incapacidades, inseguranças, medos e anseios atacou-me a pontos de deixar de conseguir ver, ouvir ou pensar noutra coisa que não o agoiro de algo que eu não tinha essa capacidade.

como daquela vez que chorei a noite inteira, convencida que não seria capaz de fazer o último exame da faculdade e entrei no auditório a tremer, sabendo de antemão que era tempo perdido e todos aqueles anos de esforço seriam postos no lixo por minha burrice;

e que, mesmo a responder a todas as perguntas com relativa facilidade, o fazia com uma vozinha dentro de mim e lembrar-me que, provavelmente só estava a escrever parvoíces e mais valia desistir;

e que, mesmo acabando por tirar a melhor nota (ou uma das melhores, vá) de da turma, acordei muitas noites toda transpirada por sonhar que me chamavam da fduc a dizer que tinha havido um erro e que alguém acrescentara, por lapso, um 1 atrás 6.

ou como daquela vez que tive um ataque de pânico incontrolável, as variáveis todas em cima da mesa, o choro incontrolável durante horas por ter de ir apresentar um trabalho fulcral e saber, de antemão, completamente convencida, que iria ser completamente enxovalhada pelo júri e que tudo aquilo por que lutara seria atirado pela janela, por incapacidade e burrice da minha parte;

e mesmo quando me deram os parabéns no fim, e assumiram a distinção, mantive um ar de incrédulo espanto, de quem não acredita nas três pessoas à sua frente porque é impossível, elas não podem saber mais do que eu acerca do que eu não sou capaz.

 

nestes momentos não vale argumentar comigo.

transformo-me numa criança de cinco anos que não tem a possibilidade de ver mais além porque, simplesmente, essa incapacidade de raciocínio é demasiado avançada para ela.

assumo como reais as possibilidades mais negras da vida e tenho a certeza absoluta, a pontos de pôr no fogo a mão esquerda e direita para o assegurar, que o pesadelo trágico que está na minha mente é mais real do que qualquer outra coisa.

nada do que me digam é capaz de o mudar.

é impossível porque não vejo mais além.

há uma cegueira que me consome e preciso de ser eu a limpá-la, de uma forma ou de outra, para conseguir ver outra vez.

 

este estado prolongou-se por meses aliado ao mau estar físico.

um mau estar atroz. uma coisa que me consumia, sugava a energia e me transformava numa espécie de carcaça sem qualquer capacidade de fazer algo que não fosse estar na cama, vomitar, ter enjoos, tonturas e sentir-me a morrer.

foram dois meses - sobretudo dois -  inacreditáveis de tão maus.

sabia, como sei de todas as coisas más que não sei, que não iria ser mãe na plena aceção da palavra.

tinha plena convicção da minha incapacidade de amar.

tinha total certeza de todos os meus defeitos, todos alinhados, um a um, escritos numa espécie de lista, a lembrar-me que eu sou menos, mais pequena, mais incapaz, mais doentia, mais triste, mais só. 

alinhei-os todos e deixei-me consumir no pranto e na incerteza e na dor de algo que deveria - e eu sabia que deveria - ser o oposto.

 

passados esses tempos, o mau estar físico ultrapassado, os medos escalados sem saber muito bem como, a aceitação de algo que eu jurara querer, a ideia inculcada aos poucos que não sou o que as trevas dos dias feios me dizem, começo a assumir cada dia como um pedaço de presente do que será amanhã.

a primeira vez que me senti pessoa novamente foi quando consegui escrever sobre isso, aqui neste pedaço da internet que é meu.

não o fiz por vós. só por mim. 

por nós, vá.

 

deixo, cada dia aos poucos, de duvidar do que posso ser, do amor que posso sentir ou das responsabilidades que consigo assumir.

assumo, cada dia um pouco mais, o presente que é o presente e a grandeza do que encontrarei amanhã.

 

e dou conta do tamanho do milagre quando sinto, ainda que me pareça irreal, algo que se mexe dentro de mim, a lembrar-me da sua presença, já tão enorme, na minha vida.

a descoberta da minha gravidez foi um estado de desgraça.

já a total perceção do que isso significa começa a ser o passo na transformação dos meus medos mais profundos em pequenas milagres diários.

somos nós.

n-ó-s.

 

 

e nunca uma palavra tão pequena assumiu tanto significado. 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 11:56


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



foto do autor