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ponto de situação das férias

por M.J., em 28.08.17

arranjei uma maneira estranha de colocar mais plantas na cozinha. colocamos fotografias em molduras que colamos na sala, milimetricamente alinhados numa espécie de TOC bem medido. tratei de burocracias que estavam pendentes há muito tempo. esperei em filas. tomei demasiados pequenos almoços na rua. fiz dois bolos com receitas novas só com aveia. organizei toda a papelada pendente. pus de lado a minha agenda de 2017 que comprei em Setembro de 2016 e decidi comprar outra para o fim deste ano e inicio do outro. tomamos uma decisão estrutural importante. li dois livros. comecei outro. está parado. organizei o roupeiro e pus fora dezenas de peças. andei uma tarde no ikea e comprei, no fim, quatro coisas completamente inúteis. não comprei o que me tinha levado lá. fui ao sea life no porto e vi a alimentação dos tubarões. ou tentei ver. demasiadas pessoas encostadas ao vidro impediam a vista. comi vários gelados. vi três documentários. dois deles não prestavam. caminhei pela baixa de coimbra mais vezes do que o planeado. não corri no choupal. não fomos à figueira comer um gelado no emanha. ainda. acabamos um puzzle que tínhamos começado na semana antes do casamento. vimos todos os filmes de harry potter. acabamos de ver a série star trek: the next generation e começamos a ver star trek: voyager. soubemos que uma pessoa muito chegada está grávida. fizemos um piquenique em família e fomos à praia pouquíssimas vezes.

continuo albina. 

e nunca relaxei tanto numas férias: almoços e jantares longos. ausências de horas de levantar e deitar. saídas quando apetece e sem motivo. coisitas terminadas.  

se a vida fosse sempre assim era o paraíso. 

ou não?

tenho mais uma semana disto.

e vocês?

oh vai ver ali:

fiz duas bolhas nos pés. ou uma bolha em cada pé. não morri na viagem. nem de ida nem de volta, apesar de irem sentados atrás de mim três catraios em excursão escolar que, absolutamente deliciados com a vida, gritavam a palavra sémen. 

ficámos num hotel que se poderia dizer no meio da serra tal o silêncio. foi por acaso que nem reparáramos ao escolher. tinha um enorme jardim no meio para onde o nosso quarto estava virado. não haviam televisões e juro que não ouvi um único barulho durante as três noites. estranhamente o pequeno almoço não tinha bacon.

no metro há uma vida estranha e ainda ouço vozes que me mandam afastar da plataforma.

comemos no mcDonald's e ia morrendo, que depois de três anos sem lhe tocar, o meu corpo não achou piada.

perdi-me no meio de milhares de pessoas num multiculturalismo a que nunca assistira. o constante correr de idiomas transformava-se numa espécie de linguagem universal que calcorreava as estradas com a mesma força dos turistas na procura do big ben.

vimos todos os pontos turísticos que constam dos postais. ou quase todos.

fomos brindados com o verão londrino e nos parques as pessoas deitavam-se na relva, muito naturalmente.

tirei uma fotografia da praxe junto de uma cabine telefónica e falei cinco minutos com uma brasileira na espera de um dos autocarros.

fomos ao museu de história natural, que nerd que se preze não perde tal.

comemos fish and chips numa lojeca estranha perto de uma das mil entradas para o metro.

caminhámos pela city onde as pessoas seguem pelas ruas com um ar de missão séria. senti-me numa espécie de filme de negócios que mudam o mundo. ia dando a volta ao pescoço na imensidão de prédios e não consegui conter a admiração de quem vivendo na serra uma infância, adolescência e parte da juventude entra num cenário que jamais poderia imaginar aos doze anos. pensei na mamã a caminhar por entre os prédios e a ouvir a mistura de idiomas. lembrei da avó que passou uma vida na aldeia ali, a ver o mundo ao seu lado. senti-me triste.

tirámos pouquíssimas fotos mas fiz um monte de vídeos parvos, que nos levaram às lágrimas de riso no hotel.

passámos na torre de londres e jantamos em piccadilly circus num restaurante chinês onde não haviam facas.

entrámos na loja da m&m's, que vende chocolates iguais aos que se compram no lidl mais ranhoso. mesmo assim gastámos dez libras em pintarolas coloridas, absolutamente fascinados.

comprámos pequenas lembranças, que todos os turistas compram e sentámo-nos ao lado de uma fonte a ouvir o mundo.

entrámos na abadia de westminster e fiquei uns vinte minutos em frente ao túmulo de isabel I, uma vez que sou absolutamente fascinada pela época tudor. ouvimos o coro e passei mais tempo do que o planeado no canto dos poetas.

comprámos dois bilhetes para o city tour na vontade de ver o que não veríamos de outra forma.

jantámos num restaurante cubano com uma amiga que eu sentia conhecer desde que nasci e não há cinco anos. o blog segue-me nas pessoas extraordinárias que traz, mesmo noutras partes do mundo. ficámos horas os três, numa conversa animada, como quem se reencontra depois de umas férias, esquecidos de que era a primeira vez que falávamos cara a cara.

não andámos no london eye porque as filas eram descomunais e não fomos ver pessoas em cera porque haviam milhares de carne e osso a passar por nós.

na soho quis sentar-me e ficar dois dias só a observar o que me ficou em em dois segundos e recordo uma imagem que permanece gravada: cinco senhores com vestimentas do tibete caminhavam placidamente seguidos por uma série de coreanos e por nós. na mudança de direcção, parámos todos mesmo ao lado de uma sex shop de onde saíram três inglesas com um sotaque cerrado a rir histericamente, cruzando-nos com senhoras de cara tapada numa burca.

 

cor, sol, amizade, pessoas, idiomas, imensidão, luz, agitação, fervilhar de vida.

 

e agora não consigo sentir outra coisa se não o sentir que não sei nada: a minha aldeia não é tão grande como outra terra qualquer nem eu sou do tamanho do que vejo.

mas seria enorme se fosse do tamanho do que existe para ver.

 

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oh vai ver ali:


foto do autor



e agora dá aqui uma olhada


deu discussão! (quase porrada)