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triste miséria

por M.J., em 28.12.16

uma das vantagens de viver nesta casa é que estando perto da cidade, está suficientemente longe da confusão. viver a meio da encosta, com vista sobre a cidade, permite um silêncio que se confunde com o da aldeia e há gente que ainda tem galinhas e animais em pequenos currais que vão descendo até ao centro.

não ouço por isso, grandes bate bocas, gritarias ou confusões da habitual azáfama citadina. tirando as guerras familiares dos vizinhos, é uma paz santa, cortada pelo barulho das rolas ou dos carros em horas de saída e chegada a casa.

até hoje.

até há instantes.

eu acabava um trabalho em mãos, na sala, o sol a bater-me nos pés quando ouvi gritos vindos da rua. pensei serem os miudos dos vizinhos, nas tão aclamadas férias de natal. dez minutos depois, como permaneciam, fui à janela.

o cenário é esta triste coisa que vos deixo:

uma miuda, suficientemente miuda para não dever ser mãe, empurrava pela estrada um carrrinho de bebé. dentro dele uma bebé de colo. em frente ao carrinho, ajoelhado, sentado depois no passeio, um rapaz. a miuda mãe berrava, mandava-o sair, exigia um telefone, anunciava impropérios. o miudo pai, de boné na cabeça (diz que é um cap, sei lá) segurava firmemente o carrinho. a miuda bebé olhava em frente admirada. 

não chorava.

continuam ali, em troca de impropérios que toda a rua, toda a encosta ouve. ela exige que ele saia, manda-o para o carro estacionado ao lado, grita-lhe que largue a menina. a rua está deserta de gente e ainda assim cheia das ações que alguém fez, dos ciumes que algué,m tem. bailam pessoas e medos pelo passeio que saem em gritos da boca de uma criança.

numa distração dela ele tira a miuda bebé do carrinho. a miuda mãe aproxima-se em gritos maiores. dá-me a minha filha, grita. a bebé permanece muda. ele fala baixo. não dá. ela empurra-o. há uma criança ao colo e carros que, agora vão passando. e empurrões. 

continuam naquilo e desisto. ponderei chamar a policia quando ela o empurra com a criança nos braços. bastava vir um carro. bastava um desiquilibrio. ele pergunta qualquer coisa, ela diz que é por tudo. ele tenta abraçá-la. ela volta a empurrá-lo.

como numa novela.

como num jogo.

só que é na minha rua e duas crianças têm ao colo uma terceira.

desisto de ver. provoca-me ansiedade. tenho as pernas a tremer. vizualizo a criança bebé a assistir ao longo de uma vida duas crianças que são seus pais a tentarem educá-la. se a puxam no meio da rua, que farão entre quatro paredes? se se empurram um ao outro em frente a quem quiser ver, que mais farão quando ninguém puder observar?

vou à janela uma última vez. a criança mãe olha o horizonte, os braços cruzados em cima do carrinho. a criança pai brinca com a criança bebé que, vestida de cor de rosa, permanece alheada a tudo. estão os três em silêncio, na procura de uma resposta qualquer que nenhum sabe dar. 

triste vida. 

triste miséria. 

 

tanto avanço no mundo e ainda não inventaram testes psicontécnicos para permitir ser pais. que cada um só faz o que pode é um facto.

mas gritar no meio da rua, com uma criança de colo, em violência quase física, é muito menos do que podia ser feito.

é só uma merda feita. 

 

publicado às 12:36


2 comentários

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De Corvo a 28.12.2016 às 16:06

A MJ o disse.
Miséria. Em todas as suas formas visíveis e outras.
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De M.J. a 28.12.2016 às 17:06

em todas caro corvo, tem razão. em todas.

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